FT-CI

Afeganistão

A Crise da Guerra de Obama

19/10/2009

Oito anos apos a derrocada do regime Talibã em uma aliança com os senhores da guerra, as tropas da OTAN enfrentam novamente uma escalada de ataques de distintos grupos da resistência afegã. Em um informe de mais de 60 páginas, apresentado ao governo norte-americano no final de agosto, o general Stanley McChrystal, a mando das forças armadas dos Estados Unidos e da OTAN no Afeganistão, retrata um quadro desolador: de acordo com McChrystal a situação vem se deteriorando qualitativamente, os talebãs, no que abarca os distintos grupos que enfrentam as tropas de “ocupação”, controlam 80% do território, principalmente as províncias do sul e do leste, e aperfeiçoaram seus ataques contra as forças da OTAN, implementando explosivos e minas, o que os torna ainda mais letais. Isto reflete o fato de que, apenas em 2009 as baixas entre as forças estrangeiras está na faixa dos 400 soldados, superando o recorde de 294 baixas durante 2008.

A violência contra as tropas imperialistas e seus aliados se estendeu ao Paquistão. Apesar de uma sangrenta ofensiva do exército paquistanês contra os talebãs e outras milícias de distintas etnias que se enfrentam contra o governo de Zardari, estes grupos lançaram ataques audazes como a ocupação do quartel geral do exército em Rawalpidini no último 10 de outubro, no marco de novas campanhas de ataques suicidas em distintos pontos do pais.

A crise que a estratégia imperialista no Afeganistão atravessa traz novamente os ecos da derrota no Vietnam. Em sua habitual coluna no New York Times, Thomas Friedman afirma ironicamente que “se o presidente Obama pudesse encontrar a forma de equilibrar o numero preciso de tropas que estabilizem o Afeganistão e o Paquistão, sem arrastar os Estados Unidos a um novo Vietnã, mereceria o premio Nobel, mas de física”. (NYT 14-10-09)

Inclusive, o ex assessor de segurança nacional de Jimmy Carter, Zbigniew Brzezinski, sugeriu que os Estado Unidos possam ter a mesma sorte que as tropas soviéticas no Afeganistão, para cuja a derrota em 1980 o próprio Brzezinski colaborou armando as mujaidines afegãs, os antecessores do talebã.

Em uma conferencia na Suíça, diante de militares e diplomatas europeus, Brzezinski advertia que “apesar da presença de cerca de 100,000 soldados dos Estados Unidos e da OTAN no Afeganistão, a ocupação enfrenta a derrota frente a uma população cada vez mais hostil que os vê como invasores, como ocorreu com a União Soviética em 1980”. (Washington Post, 13-09-09).

A crescente resistência ás tropas de “ocupação” se dão em um marco de uma profunda crise política do governo afegão de H. Karzai, acusado de uma fraude monumental nas últimas eleições que aconteceram em 20 de agosto.

Karzai, que foi um fantoche de Washington, perdeu o apoio imperialista entre outras coisas pela escandalosa corrupção de seu governo,— que se repartiu entre seus familiares e amigos com os 36 bilhões de dólares de ajuda norte-americana—, e por sua aliança com antigos senhores de guerra para se manter no poder. Estes fatos o tornaram duplamente impopular, desprestigiou a campanha imperialista a favor da “democracia” e empurrou milhares de afegãos, cansados de tolerar a guerra e a miséria ás fileiras dos distintos grupos de resistência, entre eles o talebã. As eleições foram um grande fracasso. Apenas 38% do eleitorado participou. Nas províncias do sul, as milícias da etnia nacionalista pastún e do talebã, chamaram o boicote e praticamente não se registraram votos.

O governo norte-americano apoiou a decisão das Nações Unidas de realizar uma recontagem dos votos, no entanto, Karzai, já declarou sua vitória. Agora, Obama enfrenta duas péssimas opções: o desconhecimento das eleições pode levar a um fortalecimento dos talebãs e dos grupos hostis ã ocupação que estão em combate desde o inicio do governo de Karzai. Porém se reconhece o triunfo de Karzai estará incitando a hostilidade da maioria da população para a qual o governo de Karzai é completamente ilegítimo. A opção mais provável é que, apesar da fraude reconheça a Karzai, entre outras coisas porque não tem com que substituí-lo, e tente impor um “governo de unidade nacional” com algumas outras figuras mais confiáveis para os interesses imperialistas.

Estratégias guerreristas

Esta situação de crise das tropas de “ocupação” está enfrentando o Pentágono com a Casa Branca em trono de que política implementar: se incrementar as tropas no Afeganistão e adotar uma estratégia contra-insurgente como sugerem os chefes militares, ou concentrar a escalada militar no Paquistão, implementando principalmente ataques aéreos com aviões não pilotados, como sugeriu o vice-presidente Joe Biden. A política de Biden, que conta com o apoio de grande parte do partido democrata, é concentrar os ataques militares no Paquistão e pressionar o governo de Zardari para que mantenha a guerra civil contra os talebãs e outros grupos islà¢micos e nacionalistas, que combatem as forças da OTAN a partir das áreas fronteiriças, e que ao avançar possam conseguir se apropriar de parte do arsenal nuclear do país.

Em Londres, no começo de outubro, McChrystal declarou publicamente que a proposta de Biden é completamente equivocada, sendo esta a primeira vez em décadas que um comandante militar colocou suas divergências abertamente.

Como conclusão de seu informe sobre o estado de deterioração em que se encontra o Afeganistão, e apoiado pelo general Petraeus, chefe do CentCom (Comando Centrak do exército norte-americano), McChrystal apresentou um projeto que implica um compromisso ainda maior de tropas norte-americanas. O pedido de McChrystal a Obama é que este autorize o envio de pelo menos 40,000 soldados a mais ao Afeganistão, que se somariam aos quase mais de 100,000 soldados que atualmente compõe a força de ocupação da OTAN (68,000 norte-americanos somados a aproximadamente uns 38,000 soldados de paises aliados). De acordo com McChrystal que esteve encarregado das operações militares contra a resistência sunita no Iraque, sem uma mudança rápida de estratégia que implicaria passar a combater a resistência dentro do território, o mais provável é a derrota.

Isto também implica, incrementar as tropas estrangeiras e totalizar um efetivo de 400,000 afegãos no exército e na policia nos próximos anos para liquidar os grupos mais intransigentes e cooptar os que estejam dispostos a negociar com as tropas de “ocupação”, mediante uma combinação de dinheiro, pressão militar e promessas de proteção para que integrem as forças militares locais.

Esta mudança na estratégia militar, centrada na contra- insurgência, está destinada a combater e esmagar a resistência afegã contra a “ocupação” e o governo fantoche de Karzai.

Uma guerra cada vez mais impopular

Obama transformou a “ocupação” do Afeganistão em uma “guerra de necessidade”, criticou o governo de Bush por haver priorizado a guerra no Iraque e de não ter centrado todos os esforços militares para “derrotar a Al Qaeda”. Poucos meses após assumir o governo, anunciou uma nova estratégia para a Ásia Central, baseada na incrementação de tropas e a extensão do conflito no Paquistão. Obama autorizou o envio de outros 21,000 soldados, agora sabemos que na realidade foram 34,000, já que o envio de mais 13,000 no conceito de pessoal de apoio se manteve oculto. Sob o governo de Obama, vencedor do premio Nobel da Paz, a quantidade de soldados norte-americanos em zonas de guerra já superou seu pico sob o governo de Bush. Entre o Iraque e o Afeganistão se somam 180,000 efetivos. Isto torna difícil que Obama consiga aumentar qualitativamente a presença militar norte-americana no Afeganistão sem retirar divisões do Iraque.

É evidente que a suposta “mudança na política externa” da administração Obama não é a retirada de tropas–como havia prometido em sua campanha eleitoral–mas tentar aumentar o compromisso militar dos aliados europeus e conseguir uma maior cooperação de potências regionais, principalmente Irã e Rússia, sem as quais parece impossível evitar a derrota no Afeganistão e manter a ocupação do Iraque. Isto explica a política de Obama de retirar o projeto de instalação de um escudo de mísseis na Polônia e na República Tcheca e tentar encontrar uma via diplomática para limitar o desenvolvimento nuclear do Irã. O Premio Nobel que Obama recebeu é um sinal de que a Europa respalda esta política.

Enquanto isso. A direita republicana e neo-conservadora, toma estes fatos para acusar Obama de renunciar ã defesa do predomínio norte-americano no mundo. Nada mais longe da realidade, as mudanças táticas em direção a uma política mais negociadora estão em fusão para recompor este domínio, seriamente danificada pela política unilateral e militarista de Bush.

O que mudou é que a guerra de Obama tornou-se completamente impopular entre a população norte-americana, e conta com o apoio de apenas 37% da população. Tanto no âmbito interno, com o resgate aos bancos enquanto milhões perdem seus empregos, como na política externa, os que votaram Obama que esperavam que realmente acontecesse uma “mudança” como prometido, estão rapidamente descobrindo que não é mais do que outro governo imperialista, ã serviço dos interesses da oligarquia financeira e da grande burguesia norte-americana.

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