FT-CI

Internacional

Um espectro ameaça a Europa

19/05/2012

Por Paula Bach

O premio Nobel de economia e colunista da The New York Times, Paul Krugman prevê a “saída grega do euro, muito possivelmente para o próximo mês”. No caso de cumprir-se tal diagnóstico tanto Krugman como os periódicos Financial Times e Der Spiegel dizem que o pânico se estenda ao resto da Eurozona e que o próximo passo seria uma corrida bancária na Espanha e Itália que poderia levar a eventuais "corralitos" a uma injeção de crédito do Banco Central Europeu (BCE) com posteriores políticas "mais flexíveis” ou, ao contrário, diretamente ao fim do euro.

Recessão: os limites dos resgates financeiros

No final do ano passado, frente ao iminente risco de quebra de algum banco que poderia desencadear uma nova situação ao estilo “Lehman”, o BCE decidiu ampliar 3 anos o fornecimento de liquidez aos bancos a um juros fixo de 1% ao ano. Como dissemos naquele momento “essa injeção massiva de liquidez, esteve longe de se converter em novos créditos que atue como estímulo ã economia da eurozona” conseguindo, só temporariamente, “conter a eclosão [da crise], mas de nenhum modo atuar sobre as tendências recessivas que se instalam com força na Europa” [1]. Apenas alguns meses mais tarde a denominada troika negociava um novo plano de “ajuda” para a Grécia e a reestruturação de sua dívida que como também apontamos “evita a quebra desordenada da Grécia e sua saída do euro a curto prazo, mas não resolve, e sim agrava, brutalmente os problemas do país, deixando incertezas significativas sobre o futuro da União Europeia (EU)” [2]

Se as políticas europeias de resgates financeiros contiveram as tendências a quebra ao estilo “Lehman”, os violentos ajustes de características clássicas neoliberais, aceleraram os elementos recessivos não só nos países mais débeis, mas no conjunto dos membros da Eurozona que cresceu 0% durante o primeiro trimestre do ano. A economia italiana teve contração de 0,8%, registrando 3 trimestres consecutivos de crescimento negativo do PIB. A Espanha contraiu 0,3%, registrando 2 trimestres consecutivos de queda. A Grécia contraiu novamente 6,2%. França registrou um crescimento nulo e a Alemanha, com um fraco crescimento de 0,5%, representa a economia mais vigorosa da zona do euro.

A ironia é que esta situação, predominantemente recessiva, acabaria provocando por um lado fortes crises políticas como a que atualmente se desenvolve na Grécia e, por outro, condições de falta de liquidez bancária como na Espanha, que reviveram, por outra via, as tendência a quebra financeira.

Espanha: recessão e nacionalizações bancárias

As políticas de ajuste fiscal e cortes sociais, implementadas na Espanha durante os últimos anos, soma-se o plano de ajuste e reforma trabalhista (que barateia e facilita as demissões) lançados pelo governo conservador de Rajoy para cumprir com as exigências de Bruxelas e Berlin. Estas medidas aprofundaram a recessão atingindo uma taxa de 25% de desemprego, um total de cinco milhões e meio de desempregados. O desenvolvimento recessivo na Espanha provoca a queda persistente do valor da propriedade o que faz com que grande parte das pessoas que hipotecaram suas casas nos últimos anos devam mais do que está valendo suas casas. É o produto de que sob a política de desalavancar e sanear os balanços bancários e liquidação de seu parque imobiliário, transfere-se o risco bancário aos compradores. Se relacionamos esta situação com os cortes de benefícios sociais e o aumento do desemprego, é compreensível que o elo débil da economia espanhola se encontra em seus bancos fortemente comprometidos no negócio da especulação imobiliária. Bankia, a quarta instituição bancária da Espanha precisou ser nacionalizada a poucos dias, enquanto o governo lançava um pacote de medidas que inclui um grande aumento das provisões aos bancos. Sem dúvida, essas medidas aumentaram a desconfiança no setor bancário que causou as quedas das bolsas de valores e não conseguiram frear a fuga de capitais, questão que levou o ministro da economia a solicitar ao BCE um maior respaldo na compra da dívida espanhola. O BBVA (segundo banco da Espanha) apresenta em seu informe colocou que as tendencias financeiras na Europa são, atualmente, piores que aquelas que seguiram ã quebra de Lehman, em setembro de 2008.

Frente única neokeynesiana

A urgente situação econômica e financeira da Espanha deve ser entendida como parte de um contexto europeu no qual reinam fortes tensões sociais e políticas. À queda de 16 governos na Europa agrega-se os recentes resultados eleitorais [3]. Um complexo contexto político no qual se destacam elementos de polarizações ã direita e ã esquerda, no marco das tendências recessivas reinantes, gera em amplos setores dirigentes da burguesia não só a “suspeita” de que as medidas financeiras implementadas até agora poderiam ser insuficientes, mas também um profundo temor que as políticas de Berlin e Bruxelas resultem que a situação saia do controle. Neste contexto, e para além da urgência da situação financeira e econômica, no qual há que compreender as previsões de Paul Krugman, Nouriel Roubini, do The New York Times, Financial Times e Der Spiegel. Está sendo criada uma frete única neokeynesiana encabeçada pelo próprio Krugman, mas que inclui até personagens como Hollande e o dirigente da coalizão de esquerda reformista Syriza, disposto a evitar um colapso do euro pressionando tanto quanto possível para que o establishment alemão e Bruxelas “abaixem o câmbio”. Isto poderia significar diferentes medidas tais como uma intervenção mais decidida do BCE, não mais emprestando aos bancos e aceitando títulos das dívidas como garantia, e sim comprando diretamente os títulos das dívidas de diferentes Estados, a aceitação de algum tipo de plano de eurobônus para aliviar o peso da dívida, que o BCE autorize um certo nível de inflação que permita ás economias do sul da Europa reestabelecer a competitividade a custa da conhecida “ilusão monetária” keynesiana [4], como a imposição de algum tipo de punção sobre o setor financeiro. Quer dizer, políticas semelhantes ás medidas tíbias adotadas por Obama, nos EUA. Lembremos que se quer uma política reformista qualitativamente mais audaz como a implementada pelo governo Roosevelt nos EUA a partir de 1933 conseguiu que economia norteamericana recuperasse seu nível prévio ã crise de 1929. Somente a preparação para a segunda guerra, com a montagem do aparato militar-industrial parasitando uma demanda garantida pelo Estado assinalou o início da verdadeira recuperação da economia norteamericana.

Contudo, a Grécia sairá mesmo da eurozona? Distintos analistas sustentam que o mercado vem se preparando para tal situação e que as medidas implementadas pelo BCE e pelo último “resgate” e reconstrução da dívida grega haviam delineado um panorama de relativa contenção pelo qual não necessariamente a saída da Grécia implicaria a desintegração da eurozona. Ainda que não se possa descartar essa hipótese, é preciso levarmos em conta que a agudização da situação na Espanha e também na Itália minam os alcances da dita contenção. Será que Merkel, hoje debilitada, deverá implementar algum tipo de flexibilização da sua política? Não podemos saber, o que é seguro é que, como bem coloca Krugman em seu último livro, a situação atual se assemelha a maneira a qual John Maynard Keynes descreveu a década de ’30: “estado crônico de atividade inferior ao normal durante um período de tempo considerável, sem tendência marcada para recuperação ou aprofundamento imediato” [5]. Se esse estado crônico afeta principalmente a Europa, também afeta a débil economia norteamericana e ameaça a, já não tão pujante, economia chinesa. Não há saídas tranquilizadoras para a pior crise da história depois dos anos ’30, na qual começam a despontar elementos de polarização política e na qual qualquer estratégia desenhada pela burguesia vai estar orientada a descarregar a crise de maneira mais ou menos evidente sobre as costas dos trabalhadores, preparando novas e piores catástrofes.

Notas

[1] Questões Estratégicas, Paula Bach. La verdade Obrera, n° 460.

[2] Postergam a bancarrota por medo que se afunde o euro, Juan Chingo. La Verdad Obrera, n° 464.

[3] Ver O triunfo do Partido Socialista, Juan Chingo e Eleições na Grécia: um rechaço aos partidos da austeridade, Alejandra Ríos. A estes resultados deve-se agregar a recente derrota de Angela Merkel e sua coalizão de governo, a CDU, na Renania do Norte-Westfalia nas mãos da Social-democracia, que foi considerado como um plebiscito nacional.

[4] Uma redução geral de salário encoberta pelo mecanismo inflacionário. Os aumentos salariais sempre estão abaixo do nível de inflação assim, o aumento real dos salários decresce, mas como numericamente aumenta, cria a ilusão de que está aumentando e isso estimula o consumo.

[5] ¡Acabad ya con esta crisis!, Paul Krugman, 2012, Editorial Crítica, Barcelona, España.

Notas relacionadas

No hay comentarios a esta nota

Jornais

  • EDITORIAL

    PTS (Argentina)

  • Actualidad Nacional

    MTS (México)

  • EDITORIAL

    LTS (Venezuela)

  • DOSSIER : Leur démocratie et la nôtre

    CCR NPA (Francia)

  • ContraCorriente Nro42 Suplemento Especial

    Clase contra Clase (Estado Español)

  • Movimento Operário

    MRT (Brasil)

  • LOR-CI (Bolivia) Bolivia Liga Obrera Revolucionaria - Cuarta Internacional Palabra Obrera Abril-Mayo Año 2014 

Ante la entrega de nuestros sindicatos al gobierno

1° de Mayo

Reagrupar y defender la independencia política de los trabajadores Abril-Mayo de 2014 Por derecha y por izquierda

La proimperialista Ley Minera del MAS en la picota

    LOR-CI (Bolivia)

  • PTR (Chile) chile Partido de Trabajadores Revolucionarios Clase contra Clase 

En las recientes elecciones presidenciales, Bachelet alcanzó el 47% de los votos, y Matthei el 25%: deberán pasar a segunda vuelta. La participación electoral fue de solo el 50%. La votación de Bachelet, representa apenas el 22% del total de votantes. 

¿Pero se podrá avanzar en las reformas (cosméticas) anunciadas en su programa? Y en caso de poder hacerlo, ¿serán tales como se esperan en “la calle”? Editorial El Gobierno, el Parlamento y la calle

    PTR (Chile)

  • RIO (Alemania) RIO (Alemania) Revolutionäre Internationalistische Organisation Klasse gegen Klasse 

Nieder mit der EU des Kapitals!

Die Europäische Union präsentiert sich als Vereinigung Europas. Doch diese imperialistische Allianz hilft dem deutschen Kapital, andere Teile Europas und der Welt zu unterwerfen. MarxistInnen kämpfen für die Vereinigten Sozialistischen Staaten von Europa! 

Widerstand im Spanischen Staat 

Am 15. Mai 2011 begannen Jugendliche im Spanischen Staat, öffentliche Plätze zu besetzen. Drei Jahre später, am 22. März 2014, demonstrierten Hunderttausende in Madrid. Was hat sich in diesen drei Jahren verändert? Editorial Nieder mit der EU des Kapitals!

    RIO (Alemania)

  • Liga de la Revolución Socialista (LRS - Costa Rica) Costa Rica LRS En Clave Revolucionaria Noviembre Año 2013 N° 25 

Los cuatro años de gobierno de Laura Chinchilla han estado marcados por la retórica “nacionalista” en relación a Nicaragua: en la primera parte de su mandato prácticamente todo su “plan de gobierno” se centró en la “defensa” de la llamada Isla Calero, para posteriormente, en la etapa final de su administración, centrar su discurso en la “defensa” del conjunto de la provincia de Guanacaste que reclama el gobierno de Daniel Ortega como propia. Solo los abundantes escándalos de corrupción, relacionados con la Autopista San José-Caldera, los casos de ministros que no pagaban impuestos, así como el robo a mansalva durante los trabajos de construcción de la Trocha Fronteriza 1856 le pusieron límite a la retórica del equipo de gobierno, que claramente apostó a rivalizar con el vecino país del norte para encubrir sus negocios al amparo del Estado. martes, 19 de noviembre de 2013 Chovinismo y militarismo en Costa Rica bajo el paraguas del conflicto fronterizo con Nicaragua

    Liga de la Revolución Socialista (LRS - Costa Rica)

  • Grupo de la FT-CI (Uruguay) Uruguay Grupo de la FT-CI Estrategia Revolucionaria 

El año que termina estuvo signado por la mayor conflictividad laboral en más de 15 años. Si bien finalmente la mayoría de los grupos en la negociación salarial parecen llegar a un acuerdo (aún falta cerrar metalúrgicos y otros menos importantes), los mismos son un buen final para el gobierno, ya que, gracias a sus maniobras (y las de la burocracia sindical) pudieron encausar la discusión dentro de los marcos del tope salarial estipulado por el Poder Ejecutivo, utilizando la movilización controlada en los marcos salariales como factor de presión ante las patronales más duras que pujaban por el “0%” de aumento. Entre la lucha de clases, la represión, y las discusiones de los de arriba Construyamos una alternativa revolucionaria para los trabajadores y la juventud

    Grupo de la FT-CI (Uruguay)