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ESQUERDA

Para onde vai o PSOL?

16/11/2014

Para onde vai o PSOL?

O PSOL conseguiu crescer eleitoralmente este ano. Seu crescimento no Rio foi o que conteve o crescimento do voto nulo. Atraiu em todo país uma parcela, em geral ainda bem minoritária, especialmente nas grandes cidades, de jovens e trabalhadores que se identificaram com sua defesa do direito ao aborto e direitos LGBT. Em alguns lugares como o Rio, foram também expressão de uma alternativa aos principais candidatos do regime.

Sua retórica em todo o primeiro turno foi de independência de Aécio e Dilma (“linha auxiliar, uma ova!”). No entanto, a maioria do partido, com os parlamentares e figuras públicas ã frente, se jogaram na campanha de Dilma com tudo. Se jogaram tanto que chegaram até a desrespeitar resoluções de plenárias (como no Rio) que proibiam fazer campanha, e foram tão longe que até hoje a maioria sequer emitiu uma crítica sequer, mesmo com todos os “ajustes” contra os trabalhadores que estão sendo aplicados (tais como o aumento de tarifas de energia, gasolina, cortes no seguro desemprego).

Este passo de indiferenciação com o petismo e o voto “anti-direita” chega ao extremo de Jean Wyllys (RJ) afirmar que “não tem diferenças ideológicas com o PT”, mas somente “diferenças pontuais”, e até cogitar em entrevista ã TV-IG participar do governo (ver a partir do minuto 5 do link acima). Outros parlamentares como Ivan Valente (SP) têm tecido chamados a Dilma e o PT (ver a partir do terceiro minuto) a mudarem os rumos e tomar o rumo das mobilizações. Estão procurando compor contra a direita (Wyllys) ou disputar os rumos do governo (Valente), variações do que toda a esquerda petista sempre fez.

Este rumo semi-governista é um traço conjuntural ou de longo prazo deste partido?

As posições teóricas e internacionais apontam para uma consistência neste caminho de indiferenciação com o PT e se preparar para passos maiores de reformismo. Ou seja, retórica socialista, mas defesa da propriedade privada e do regime em vigor, tal como fazem na prefeitura de Macapá.

As posições internacionais do PSOL apontam seus rumos nacionais

O PSOL é um partido de tendências, seus posicionamentos sobre temas internacionais divergem. Porém, pode-se traçar uma linha geral a partir de ver as principais posições. Todas elas convergem no distanciamento a uma posição anticapitalista. Convergem em se identificar com os partidos de esquerda que em outros países buscam ser parte ativa de governos burgueses alternativos aos vigentes, como o Syriza na Grécia e agora o “Podemos” no Estado Espanhol.

Esses partidos fogem como o diabo da cruz de enfrentar temas anticapitalistas ou mesmo temas democráticos decisivos em seus países, como o direito a autodeterminação das nações no Estado Espanhol no caso do Podemos. (Para uma crítica mais aprofundada ao Podemos ver este artigo e este outro artigo, para uma crítica a como até intelectuais do PSTU estão embarcando nos elogios a este partido ver aqui).

Por um lado, a tendência “Unidade Socialista” de Randolfe e Valente busca reeditar o projeto petista de “governo democrático e popular” e tem como modelo países que eles chamam de resistentes ao neoliberalismo e ao imperialismo como Venezuela e Bolívia. Ela reivindica de forma acrítica o Syriza e o Podemos. Seu norte não é a revolução socialista, é criar “resistências institucionais” nos marcos da administração do capitalismo. Coerentes seu ceticismo em relação ao potencial revolucionário da classe trabalhadora, “montam trincheiras” institucionais que os levam a reprimir greves de professores como ocorreu em Macapá.

À esquerda da “Unidade Socialista”, a segunda maior corrente interna é o MES de Luciana Genro. Segundo esta correntee, em balanço datado de 10/11 “O conjunto da esquerda precisa discutir e solidarizar-se com esses dois processos [Syriza e Podemos], de longe os mais avançados em se tratando de recomposição da esquerda e dos interesses da classe trabalhadora, não livre de pressões, dificuldades táticas e estratégicas.”

Esta corrente remarca que há limites, mas sequer menciona quais eles são. Não fala que o Syriza toma como modelo o governo Evo e o governo Dilma e Lula. Seu líder Alex Tsipiras reuniu-se com Dilma em 2012 para mostrar ã burguesia internacional como não era anticapitalista, seria tão de esquerda como Dilma...

O Syriza não defende sequer o não pagamento da dívida da Grécia. Quer salvar o capitalismo grego e europeu defendendo uma utópica humanização da União Europeia que “negocie” com a Grécia termos menos desfavoráveis de sua espoliação.

Já o Podemos, que tem crescido em meio ã crise do bipartidismo espanhol, tem ligação com várias lutas do funcionalismo daquele país e se define como além das definições ideológicas de “esquerda ou direita”. São uma alternativa reformista (se tanto) que renegam qualquer perspectiva anticapitalista. Este é o modelo que o MES visa seguir. Sua divergência com a tendência Unidade Socialista se dá em como seguir os baluartes do Podemos, Syriza e Evo Morales.

Por um lado a tendência de Randolfe vê somente os avanços institucionais destes processos “bolivarianos” e europeus. Já o MES vê a necessidade de combinar o avanço institucional com mobilização de rua e “ação direta”, como eles mesmos afirmam: “a combinação do apoio ás lutas e ã ação direta dos trabalhadores e da juventude com a representação radical no âmbito político está forjando uma nova esquerda, da qual nos consideramos parte. A perspectiva de um salto de qualidade em nossa influência guarda identidades com processos profundos como esses”.

Esta posição que tiram dos avanços eleitorais de Podemos e Syriza já era sua posição estratégica em seu documento “Um pouco do que somos e defendemos”. Neste afirmam o mesmo norte estratégico “europeu” à luz dos países ditos “bolivarianos”:

“A experiência da América Latina tem demonstrado que se pode ganhar eleições e promover profundas mudanças no Estado de natureza progressista. Em geral, não chegam a destruir o Estado burguês e construir um Estado democrático de novo tipo. Mas mudam questões fundamentais e, pelo menos nas experiências concretas de Venezuela, Equador e Bolívia, conquistam regimes políticos qualitativamente mais avançados. (...) Ou seja, nesses países os processos eleitorais foram fundamentais, mas se combinaram com fortes lutas sociais, com ação direta e confrontos.”

Para o MES, mesmo com toda uma retórica de “mobilização social”, trata-se também de fazer mudanças no Estado, mudanças que reputam progressistas (fechando os olhos para como esses governos favorecem a burguesia em detrimento da classe trabalhadora), e pouco importa derrubar este Estado com uma revolução.

Com um peso menor que o MES, outra corrente da esquerda do PSOL, a Insurgência, dos deputados estaduais eleitos Roseno (CE), Serafini (RJ) e do vereador carioca Cinco, também desloca-se a uma posição de apoio destes fenômenos, ainda que mantendo uma retórica mais anticapitalista, porém sem os contornos estratégicos claros que se expressam nas tendências majoritárias do partido.

Para a Insurgência, conforme se lê em sua tese ao Congresso do PSOL de dezembro de 2013, os governos ditos progressistas na América Latina não só teriam derrotado o imperialismo (ignoram as inúmeras concessões aos imperialismos tanto na Venezuela como na Bolívia), como para eles a Venezuela seria diretamente uma revolução socialista. Junto das outras correntes, apoiam todos os mesmos processos e “partidos amplos” como Syriza e Podemos.

Os muito influentes parlamentares do PSOL do Rio (Freixo, Wyllys, Alencar) não têm posições próprias sobre as posições internacionais e oscilam entre estas três posições citadas, com primazia de se aproximar das teses da Unidade Socialista, buscando afirmar que qualquer posição reformista hoje seria o mesmo que uma posição revolucionária, como Chico Alencar (deputado federal do Rio) costuma falar. Ou seja, a ideia que uma luta em defesa de alguma conquista seria o máximo que seria possível fazer em muito anos. As outras correntes, muito minoritárias, não tem peso para definir os caminhos do partido.

Uma amarração teórica que desarma os anticapitalistas

Em resumo, há muitos matizes, porém uma convergência em apoiar governos capitalistas que sejam distintos do modelo atual (ou anterior). Buscam todos ser alternativos ao governo vigente mas não alternativos ao capitalismo. Com esta “amarração” teórica e política internacional se entende o oportunismo frente ao PT da maioria e que todos se calem frente aos que são oportunistas ao PT. Pois trata-se de produzir um partido alternativo mas não anticapitalista.

Trata-se para todos de ganhar espaços institucionais (US), combinar o ganho institucional com mobilização para reformar este Estado (MES), de construir espaços de militância anticapitalista com ganhos institucionais a serviço disto (Insurgência), e para eleger seus parlamentares nada melhor que uma ajudinha de Freixo e Wyllys no coeficiente eleitoral...

Com estes rumos estratégicos e posições internacionais, mostra-se uma tendência a que PSOL se adapte crescentemente aos espaços da centro-esquerda de gestão do capitalismo, podendo até participar de governos como deixa em aberto Wyllys. Enquanto não houver uma ruptura mais decisiva de setores de massa com o PT, este espaço – diferente da Espanha onde o PSOE está em grave crise – se misturará ao do PT, e para isto, de acordo com suas posições estratégicas, estes parlamentares e correntes irão flertar com seu ex-partido como fizeram no segundo turno e seguem fazendo. Negam-se a combater por uma posição de independência de classe que exige denunciar o PT, seus ataques aos trabalhadores e intermináveis concessões aos capitalistas, aos reacionários.

Ou seja, o PSOL ruma a ser cada vez menos independente do PT e cada vez mais reformista. Cada vez mais o “socialismo” de seu nome ruma para ser mais um “s” entre tantos que existem no regime partidário brasileiro.

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