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O massacre de Oslo e a decadência capitalista
por : Claudia Cinatti

02 Aug 2011 | No último 22 de julho a Noruega se viu sacudida pelo massacre mais horroroso desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Primeiro, uma bomba destruiu um edifício governamental no centro de Oslo

No último 22 de julho a Noruega se viu sacudida pelo massacre mais horroroso desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Primeiro, uma bomba destruiu um edifício governamental no centro de Oslo, deixando pelo menos sete mortos. Poucas horas depois, um homem vestido de policial e fortemente armado assassinava 68 jovens que participavam de um tradicional acampamento de verão do Partido Trabalhista (partido que está a frente do governo federal) na ilha de Utoya. Era esperado o primeiro ministro - Jens Stoltenberg participaria do acampamento - como normalmente fazem os principais dirigentes trabalhistas. Como disse o diário Le Monde, este evento é um dos pilares “da vida política da noruega” e simboliza o modo que se produz a elite política de um dos principais partidos nacionais, o que amplifica o impacto do ataque.

Imediatamente, e sem nenhuma evidência, a imprensa local e internacional responsabilizou grupos islamistas pelos atentados. Contudo, pouco depois descobriram que quem perpetrou este ataque não foi nenhum membro da Al Qaeda nem partidário da “jihad”. O assassino tem nome “ocidental”, se chama Anders Behring Breivik, e é um jovem de classe média nórdico, loiro e bem educado, ex-membro do direitista Partido do Progresso, cristão fundamentalista, raivosamente anti-muçulmano e simpatizante da extrema direita européia e norte-americana.

Todavia não se sabe se atuou sozinho ou contou com a colaboração de outros indivíduos ou organizações. Mas esse não é o único questionamento. Ao longo dos dias proliferam as teorias da conspiração, que envolvem desde as forças de segurança locais até serviços secretos de outros países, como o Mossad israelense, embasadas no fato de que Breivik contou com uma hora e meia para levar adiante seus planos sem que nada o detivesse e pelo fato de que no acampamento se discutiria o apoio ao boicote internacional contra Israel.

Embora em maio deste ano os planos de Breivik tivessem sido anunciados pela compra de uma grande quantidade de fertilizante – utilizado para fabricar explosivos –, e que tivesse sido detectada uma crescente atividade de uma nova extrema direita anti-islamista, similar ao que vem surgindo em outros países europeus como a Liga de Defesa Inglesa, para a polícia norueguesa a principal ameaça de segurança vinha de grupos muçulmanos radicalizados (Avaliação Anual de Risco 2011).

Como é de costume nestes casos, as principais corporações midiáticas que alimentam o racismo e não se cansam de agitar o fantasma do “terrorismo islà¢mico” como o principal inimigo dos “valores democráticos ocidentais”, tentam explicar o ocorrido dizendo que Breivik é um psicopata solitário.

Mas o que é certo é que Breivik levou anos planejando meticulosamente esta ação, que tem um objetivo político claro e deixou como testemunho um manifesto de cerca de 1500 páginas onde expõe abertamente uma ideologia racista e xenófoba que se nutre das políticas anti-imigração e beligerantes dos estados capitalistas “democráticos”.

Imperialismo, racismo e xenofobia

Nas últimas duas décadas diversos grupos da extrema direita européia vêm aumentando sua influência. Embora alguns tenham discursos populistas e “anti-establishment”, estes partidos são completamente funcionais aos interesses da burguesia, já que com o racismo e a xenofobia evitam o questionamento ao capitalismo e desviam o ódio social para os trabalhadores imigrantes, sobretudo os provenientes dos países mais pobres da África e do mundo muçulmano.

Este fenômeno deu um salto com o estourar da crise econômica internacional, que golpeia principalmente os países centrais e que deixa os trabalhadores imigrantes em uma situação de extrema vulnerabilidade.

Alguns exemplos que mostram o ascenso eleitoral da extrema direita são o Partido do Progresso norueguês, que se transformou na segunda força parlamentar com 23% dos votos em setembro de 2009; os Democratas Suecos que obtiveram pela primeira vez representação parlamentar com 5,7% no ano passado, o Partido da Liberdade na Holanda que obteve em 2010 15,5% com uma campanha agressiva contra os imigrantes, e na França a Frente Nacional de Marie Le Pen que não deixa de subir nas pesquisas para a eleição presidencial do próximo ano. A esses se somam os Verdadeiros Finlandeses, o Partido da Liberdade da Áustria ou o Partido do Povo Dinamarquês, sem contar os grupos neonazistas mais tradicionais na Europa Oriental.

De maneira similar, o surgimento do Tea Party nos EUA expressa esta crescente polarização social e política, agudizada com a crise capitalista. Está claro que esta agenda anti-imigrante e em particular anti-islà¢mica, de nenhuma maneira é patrimônio da extrema direita, mas é política de Estado nos países da União Européia e EUA.

Quase uma década antes dos atentados de 11 de setembro de 2001, o cientista político norteamericano S. Huntington já havia inventado sua teoria sobre o “choque de civilizações” para fundamentar as políticas anti-imigrantes. A “guerra contra o terrorismo” de Bush transformou o islamismo no novo inimigo do imperialismo e serviu para justificar as guerras no Afeganistão, Iraque e estigmatizar as comunidades muçulmanas. Essas políticas militaristas continuaram com o governo de Obama com o ataque imperialista contra a Líbia e as ações no Paquistão e Iemen no plano externo e com o endurecimento das leis contra os imigrantes ilegais, como a chamada “lei Arizona”, no plano interno.

Na França, Sarkozy, com o apoio do Partido Socialista, proibiu as mulheres muçulmanas de usar o véu em instituições públicas, o que constitui um ato brutal de discriminação e opressão. E na intenção de recuperar a popularidade ordenou a deportação em massa de comunidades de ciganos, o que foi recebido com simpatia por Berlusconi.

Na UE tanto os governos social-democratas, como o de Zapatero na Espanha, como os de direita tradicional, vêm tomando medidas cada vez mais duras contra os imigrantes ilegais, transformando-os em criminosos, abrindo verdadeiros campos de concentração onde são detidos e mantidos presos antes de serem deportados a seus países de origem. Incluindo a chanceler alemã Merkel, junto com Sarkozy e Cameron, o primeiro ministro britânico conservador, teorizam sobre o “fracasso do multiculturalismo” para justificar suas políticas de mão dura.

Ante o fluxo de refugiados que chegam ã Itália e outros países fugindo desesperadamente dos bombardeios na Líbia, os governos europeus estão discutindo reimplantar os controles fronteiriços dentro da chamada zona Schengen, liquidando o princípio de livre circulação dentro da UE. Estas políticas policiais e racistas dos principais partidos da burguesia são o que alimentam o ódio de grupos e indivíduos como Breivik.

Um “paraíso perdido”?

As principais mídias capitalistas pretendem criar um senso comum de que a Noruega é a realização de um tipo de “utopia escandinava” onde é possível a prosperidade, a paz e a harmonia social sob o capitalismo, graças ás suas enormes reservas petrolíferas e aos governos social-democratas, que salvo alguns períodos de governos conservadores, se sucedem desde o fim da Segunda Guerra.

Ainda que a Noruega seja um país com uma grande riqueza petrolífera, o que lhe permite sustentar níveis de benefícios sociais maiores comparados com outros países europeus, está longe de ser um “paraíso” onde, como disse um artigo do Le Monde, “patrões e operários sabem conversar em nome do interesse coletivo”. Como em qualquer país capitalista, suas grandes empresas multinacionais privadas e estatais como a petroleira Statoil ou a química Yara, exploram milhares de trabalhadores na Noruega e em vários países do mundo. A greve de 20 mil trabalhadores da construção civil de abril de 2010 por salário e contra a flexibilização deixou descoberto como as patronais locais se beneficiam das condições de precarização em que se encontram a maioria dos operários poloneses empregada no setor, condições que se aprofundam com os efeitos da crise econômica que se sentiu, particularmente, em 2009.

Na política externa, Noruega é um aliado tradicional dos EUA: ingressou na OTAN em 1949, e com o Partido Trabalhista foi um dos principais baluartes contra o avanço do comunismo durante a Guerra Fria. Apesar da forte oposição interna, participou da guerra imperialista no Afeganistão (também participou no Iraque quando o Partido Conservador estava no governo) e seus aviões contribuem de maneira decisiva nos bombardeios contra a Líbia, onde tem importantes interesses petroleiros.

O fenômeno ascendente do Partido do Progresso e o horroroso massacre perpetrado por Breivik fizeram desmoronar a ilusão social-democrata de uma sociedade homogênea onde as contradições de classe se resolvem com o diálogo. Os atentados de Oslo iluminaram as tendências burguesas, que hoje têm como alvo principal os setores mais vulneráveis, mas amanhã se voltarão contra as organizações dos trabalhadores se estas tomam um curso revolucionário.

O surgimento da extrema direita em um pólo e o levante da luta de classes com as rebeliões no Norte da África, os “indignados” na Espanha e a resistência dos trabalhadores gregos aos brutais planos de ajuste, estão antecipando as batalhas futuras no marco da crise capitalista e mostram a urgência de colocar de pé partidos operários revolucionários que estão a altura desses desafios.

Traduzido por Alexandre C.

 

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