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Europa

Informe da França: Os docentes em meio a uma nova onda operária

26/02/2010

Num contexto de crise econômica que golpeia especialmente os países mais débeis da zona do euro, com milhões de novos desempregados em vários deles, a França presencia uma nova onda de lutas operárias, que vem se desenvolvendo desde meados de janeiro deste ano. O primeiro destes conflitos é o protagonizado pelos operários da Phillips em Dreux, que ante o plano de fechamento patronal decidiram por a fábrica para produzir para demonstrar que esta podia seguir funcionando, e assim conservar seus empregos. Após dez dias de controle operário, lamentavelmente a luta foi desviada pela burocracia, o que abriu a porta a uma ofensiva patronal de lockout que terminou com a demissão de todos os trabalhadores. Porém, hoje a luta continua fora da fábrica. O segundo conflito é a greve de 48 horas de 7000 trabalhadores das cinco refinarias do gigante petroleiro francês Total iniciada em 17/02 em apoio a seus 370 companheiros da fábrica de Dunkerque, que ocuparam as oficinas dos diretores em defesa de suas fontes de trabalho, ameaçadas de fechamento. Para os ministros da economia e chefes de Estado dos países integrantes da União Européia a única “saída” ã crise é a implementação de reformas draconianas e planos de ajuste com devastadores efeitos nas áreas da saúde, educação, pensões e no setor público, e subseqüentes recortes como os que se votaram na Grécia. Frente ã perspectiva de ajuste dos patrões e seus governos, esta nova onda de lutas poderia abrir espaço para o avanço da subjetividade, passo necessário para apresentar uma alternativa dos trabalhadores ã crise capitalista. As lutas dos trabalhadores franceses mostram que os trabalhadores têm uma saída a oferecer ante o panorama de crise capitalista. Em seguida queremos refletir com mais detalhes a luta dos professores da área N93 e do bairro de Paris VIII, que é parte dos fenômenos já mencionados, com uma crônica de Ciro Tappeste, militante da tendência CLAIRE do NPA (Novo Partido Anticapitalista) da França. A greve desta vez parece ter começado bem e começa a se estender. Ainda que os meios de comunicação nacionais se esforçassem por fomentar a confusão sobre o movimento de greve do departamento N93, enquanto exageravam cotidianamente os episódios de violência, nos quais os alunos e os trabalhadores foram as primeira vítimas, o movimento de 93 parece ir além do que os jornalistas dizem. Entretanto, nada parecia anunciar semelhante mobilização. Apesar da eliminação dos postos de trabalho ter sido anunciada previamente, o regresso ã sala de aula havia sido particularmente sombrio. Os sindicatos docentes consentindo, como de costume, chamar uma tradicional jornada de ação para este outono esperaram até 24 de novembro antes de chamar uma greve de 24 horas. Já se passaram dois meses entre esta data e a nova jornada de mobilização de 21 de janeiro, chamada pelos sindicatos da Função Pública, que precedeu a manifestação nacional dos docentes no sábado, 30/01. Estas jornadas tiveram um êxito muito relativo por diferentes razões. É inegável que, sobre os empregados estatais em geral e os docentes em particular, influiu o peso do refluxo após o resultado do ciclo de lutas que vimos na primavera de 2009. Ademais, em alguns trabalhadores do setor público, os mais ativos ou mais militantes, a idéia de que a participação em jornadas de ação sem continuidade não tem outro sentido que o de se deixar enganar pelas direções sindicais, paradoxalmente, contribuíram para frear a mobilização. Não faltam motivos de descontentamento para que os docentes expressem sua raiva. Basta pensar nos 16.000 postos eliminados para o próximo início escolar (80.000 em cinco anos) nas reformas da educação, na anunciada supressão das creches, na crescente precarização, enquanto os salários seguem estancados, e tantos ataques que tornam ainda mais difíceis as condições de trabalho e anunciam um fortalecimento do caráter já profundamente desigual da educação proposta aos jovens. Bastou a determinação de alguns estabelecimentos de dar continuidade ã greve de 21 de janeiro para que o conjunto de La Seine-Saint-Denis entrasse em luta. Finalmente, após o chamado realizado em 1 de fevereiro pela Cité scolaire Henri Wallon d’Aubervilliers, um certo número de estabelecimentos nas áreas limítrofes começou a construir o movimento, alguns deles vinham já de uma experiência embrionária de coordenação e da Assembléia Geral da cidade: Saint-Denis, Pantin, Épinay, etc. Em 4 de fevereiro, 150 docentes que vinham de 11 estabelecimentos em greve se manifestavam em Aubervilliers. Alguns dias mais tarde, eram 800 nas ruas de Saint-Denis, antes de uma Assembléia Geral de 250 pessoas que representam 53 estabelecimentos em luta. Em 11 de fevereiro foram mais de 1.500 os que se apresentaram em Paris para uma nova jornada de greve seguida de uma nutrida assembléia geral, na qual estavam representados 75 estabelecimentos mobilizados, dos quais 63 estavam em greve parcial ou total. Um chamado ã greve, apoiado agora pelos sindicatos, foi feito para os dias 16 e 18 de fevereiro. A rápida extensão da greve não se deve só ã estruturação da Assembléia Geral da cidade ou ã implementação de “equipes móveis de grevistas” que, retomando a idéia das greves “itinerantes” percorrem os estabelecimentos de um mesmo setor para explicar as razões do movimento a seus colegas e a ajudá-los a entrar em greve. A razão desta aceleração do movimento também se deve ã relação existente entre os militantes e os sindicalistas mais ativos do departamento e dos jovens colegas que, alguns deles, estão em greve pela primeira vez, e são conscientes da necessidade de lutar por um serviço público de educação de qualidade, mas se encontram confrontados por condições de trabalho e de ensino extremamente difíceis. Esta mescla é a que explica a taxa de adesão ã greve de mais de 60% em alguns colégios e liceus, inclusive onde não há presença militante estruturada. Outros estabelecimentos estão, inclusive, totalmente paralisados, como o colégio Jean Vigo d’Epinay, 95% em greve, tendo sido votada a ocupação do prédio pelos docentes. Para além das especificidades de 93, um bairro em que os habitantes dos bairros populares, e em conseqüência os jovens, enfrentam todos os problemas aos que se encontram confrontados os trabalhadores da França (emprego, precariedade, moradia, repressão policial), o alcance do movimento supera e de longe as fronteiras do bairro. É neste sentido, por outro lado, que outros estabelecimentos da academia de Créteil também entraram em luta, como algumas escolas, colégios e liceus da academia de Paris ou de Versalhes que participarão nas greves das próximas semanas. Também neste sentido se coloca a questão da orientação das direções sindicais da Educação em nível nacional. Os principais sindicatos docentes da academia de Créteil (SNES, Sud e CGT) começaram a apoiar realmente o movimento de 9/2, mas oito dias depois o movimento de greve declinou. A SNUIPP, cujo peso é central nas escolas primárias, chama desde então os trabalhadores a unir os estabelecimentos mobilizados em 18/2. É provável que a Assembléia Geral dos grevistas dos estabelecimentos em luta coloque a questão da orientação dos sindicatos em nível nacional. Efetivamente, a zona lle-de-France entra de férias a partir do fim de semana, e a única solução para que o movimento se fortaleça seria que se estendesse progressivamente ás demais academias que voltam ás aulas para preparar um movimento nacional duro, contínuo e determinado, a partir de março. Não só se trata de uma perspectiva desejável para vencer o governo, como também uma necessidade. Tudo deveria ser feito a partir de hoje com o fim de debilitar Sarkozy quando este último anunciou querer se dedicar ao tema das aposentadorias a partir da primavera, enquanto que as confederações sindicais se reunirão em 15/02 em Élysée para receber sua orientação. Se os docentes conseguem fazer Sarkozy retroceder será um triunfo tanto desta luta, tanto para os trabalhadores do setor público como do setor privado, que estarão junto ã juventude em defesa de nossas conquistas. O movimento da educação onde os docentes de extrema-esquerda ás vezes jogam um papel dirigente, e onde há numerosos camaradas, começando pelos do nosso partido, deveria defender de maneira coordenada uma perspectiva de construção da greve pela base, de fortalecimento da Assembléia Geral em todos os níveis e de clara interpelação das direções sindicais. Em nenhum caso há que suscitar ilusões nos trabalhadores com respeito ás atuais direções sindicais. A única maneira de não fazer o jogo das direções e de evitar que utilizem o processo atual atribuindo a si a paternidade do movimento, e tratando de desmobilizar com jornadas de ação espaçadas a partir de março (este é o sentido da reunião de uma primeira intersindical nacional em 10 de janeiro), passa pela defesa de uma linha muito clara em relação aos sindicatos. Não há tempo a perder, é necessário estruturar a Assembléia Geral de grevistas de lle-de-France sobre a base da mobilização dos estabelecimentos e das assembléias gerais da cidade, permitindo-lhes definir uma plataforma reivindicativa que supere amplamente a ambigüidade sindical sobre muitos pontos (supressão de postos, precariedade, formação). Este é o meio para fazer do movimento docente atual um ponto de apoio no que deveria ser a prova de forças com o governo durante as próximas semanas, pondo em evidência a inconseqüência ou a cumplicidade dos burocratas sindicais nacionais. O Leste parisiense, que ultimamente viu a luta dos trabalhadores de Pier-Import e vive atualmente a luta dos trabalhadores da Ikea, onde um dos pólos mais combativos se situa precisamente no departamento N93, poderia ter um papel catalisador nesta situação. É por isso que temos que militar.

Último momento: vitória dos trabalhadores da Philips em Dreux, França

Enquanto fechávamos este jornal foi anunciada uma medida judicial revertendo as mais de duzentas demissões da Philips em sua fábrica de Dreux. A medida ainda estipulou uma multa diária de 25.000 euros por dia a empresa se não cumprisse a medida. E já no sábado 20/02 a patronal recuou de sua tentativa de fechar a fábrica e retomou a produção e os operários retornaram ao trabalho. Esta vitória contra esta poderosa patronal imperialista só foi possível graças a audaciosa luta desferida pelos mais de duzentos operários da fábrica que ocuparam por muitos dias ã fábrica e chegaram a retomar a produção sem os patrões e seus gerentes. Esta vitória pode servir de símbolo a outras fábricas na França e no continente europeu, e se soma a diversas lutas que tem ocorrido neste momento como as dos professores, das refinarias da TOTAL entre outros. Nós orgulhamos da intervenção feita neste conflito por nossos camaradas da tendência CLAIRE.

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