FT-CI

Bolivia

Depois da intentona autonomista

20/09/2008

Depois da intentona autonomista

Diálogo abençoado pela Igreja e pela Unasul favorece a oligarquia da “meia lua”

A intentona autonomista da semana passada foi o ponto mais alto na escalada reacionária lançada desde meados de agosto, buscando bloquear a tentativa do MAS de habilitar o referendo sobre a nova Constituição Política do Estado (CPE), iniciativa que o governo queria tratar no Parlamento para chamar as eleições no próximo 25 de janeiro.

Os prefeitos e comitês cívicos da “meia lua” [1] utilizaram os pretextos de “resistência civil”, “autonomia” e “recuperação do IDH” para seus departamentos lançando uma campanha de “locautes” cívicos, bloqueios, ocupação de repartições e instituições, aeroportos, instalações petrolíferas e outros ataques que paralisaram metade do país durante mais de duas semanas e desarticularam o aparato do Estado nacional em nível local, buscando avançar na linha de “autonomias de fato” como trincheira de seus interesses.

Dentre eles, está o inconciliável tema da terra. Os “cívicos” temiam não poder impedir que a nova CPE fixe um limite entre 5 e 10 mil ha (hectares) ã propriedade privada da terra. Isto nada tem a ver com liquidar a propriedade latifundiária, mas afeta interesses dos grandes clàs empresariais e latifundiários do Oriente, para os quais o ilimitado monopólio de terras ás custas dos camponeses e dos povos originários, a pilhagem dos recursos naturais e a superexploração da mão-de-obra são condições essenciais de acumulação. E mais do que está escrito na CPE, o que temem é que as massas despossuídas e oprimidas do Oriente queiram tornar efetivas suas reivindicações de terra e território.

Por isso querem impor seus “estatutos autônomos” para aumentar o poder dos governos locais, capturando atribuições do Estado nacional e buscando recuperar sua fatia na renda do gás através do IDH [2] para financiar as autonomias e nutrir os negócios empresariais locais.

Com estes objetivos é que largaram a violenta campanha em toda a “meia lua”, utilizando bandos fascistas e grupos armados para semear o terror, tentando dobrar os setores populares que resistem ás suas imposições ou que simpatizam com o MAS.

Os grupos fascistas e o massacre de El Porvenir

A “vanguarda militar” desta ofensiva foram os grupos de choque como a União da Juventude Cruzenha (de Santa Cruz de la Sierra) e seus similares em Tarija, Beni etc. Os bandos fascistas se nutrem de jovens universitários e lúmpens e são financiados pelos “cívicos” e pelas prefeituras. Junto com eles atuam paramilitares dos proprietários de terra, como em algumas províncias cruzenhas e Pando (onde é notória a atividade do narcotráfico).

Estes grupos tomaram dezenas de repartições nacionais, chocando-se ás vezes com a polícia e espancando e agredindo selvagemente mulheres, indígenas, gente simples do povo ou dirigentes de massas.

Mas foi em Pando onde a intentona teve sua expressão mais brutal, com o massacre de El Porvenir de quinta-feira, dia 11, quando uma marcha camponesa e indígena que seguia para Cobija foi atacada a tiros por pistoleiros do aparato da prefeitura dirigida por Leopoldo Fernández, deixando um saldo de quase 20 mortos, vários desaparecidos e meia centena de feridos.

Este ataque abriu um quadro de virtual guerra civil em nível local, sintoma da explosividade da crise nacional, e foi um alerta para o governo e para a oposição sobre os riscos de um recrudescer incontrolável nos enfrentamentos.

O governo respondeu declarando o estado de sítio no estado, impondo a mobilização militar em Cobija, enquanto iniciava alguns movimentos preventivos de tropas do Ocidente em direção ã “meia lua”. Os prefeitos resolveram encomendar ao prefeito Cossio (de Tarija) iniciar um “pré-diálogo” com o governo nacional em La Paz.

A política do MAS

Diante da investida autonomista, o governo se viu obrigado a um “endurecimento tático”, pois ceder a suas exigências equivaleria praticamente a uma rendição incondicional, em momentos em que se sente fortalecido por 67% dos votos positivos no referendo de 10 de agosto e necessitava avançar com a nova CPE.

Evo Morales acusou o movimento de “golpe cívico-municipal” e expulsou o embaixador americano Goldberg num ato elementar de resguardo da soberania nacional, denunciando os laços deste com os prefeitos e cívicos autonomistas.

Ao mesmo tempo, o governo apostou nas Forças Armadas e na Polícia Nacional para tratar de conter as regiões amotinadas e responder aos assaltos ás instituições (ainda que os policiais sempre acabassem cedendo terreno).

Ainda que o MAS tenha insinuado apelar aos “movimentos sociais”, deixando correr a mobilização de alguns setores, sua estratégia foi resolver a crise “por cima” sem permitir que as massas interviessem de maneira decisiva na mesma.

É que a todo o momento sua estratégia não era vencer a reação, mas convencer esses representantes dos empresários e proprietários de terras que chama de “golpistas” e “fascistas” a negociar e concertar; um levante das massas teria dificultado sua estratégia conciliadora.

Os militares dão “um passo ã frente”

Com o estado de sítio, o governo permite aos militares passar a cumprir um papel próprio e mais importante no cenário nacional, ao mesmo tempo em que os encobre sob um “verniz popular”.

Ao chamar a confiança neles para conter a intentona autonomista, o MAS oculta que foi esse mesmo exército quem realizou massacres no Outubro de 2003 e que, como instituição defensora da ordem burguesa, é a garantia em última instância dos interesses materiais das oligarquias da meia lua (As quais muitos oficiais estão ligados até familiarmente).

O general Trigo, chefe das Forças Armadas, em suas declarações para advertir e pôr um limite aos autonomistas, também se separou terminantemente do Comandante Chávez, que ofereceu apoio a Evo Morales. Com este posicionamento, o Exército anuncia que rechaça ser o “agente militar do processo de mudança”3 e começa a posicionar-se como instituição “de garantia da ordem e da unidade do Estado” para atuar como árbitro no caso de uma maior desestabilização, papel reacionário que será inevitavelmente dirigido contra o movimento de massas.

Setores de vanguarda começavam a enfrentar os reacionários

Perante os ataques racistas e fascistas, os setores mais organizados do movimento de massas no Oriente resistiram valentemente, como mostra a defesa do Plano 3.000 (bairro operário e indígena “colla” de 250 mil habitantes em plena capital cruzenha) ou os enfrentamentos no Mercado Camponês em Tarija.

Outros setores que estão na “linha de fogo”, como as organizações de colonizadores camponeses de San Julián e Yapacani, se mobilizaram para responder aos bloqueios dos cívicos cruzenhos. Também no Chapare iniciaram-se bloqueios, cortando a estrada para Santa Cruz em Bulo Bulo e outros pontos.

O massacre de Cobija fez ferver a indignação e a determinação de se defender. No sábado, dia 13, uma investida da juventude cruzenha contra o bloqueio camponês de Tiquipaya foi derrotado e estes elementos tiveram que se retirar com pelo menos 17 feridos (um faleceu depois). Em Cuatro Cañadas o bloqueio camponês mostrou seus facões, escopetas e outras armas para advertir os fascistas de que caso se atrevessem a vir voltariam para Santa Cruz “no caixão”. No Plano 3.000 se organizaram brigadas de autodefesa de jovens e moradores para se proteger das investidas da UJC.

Ao mesmo tempo, em La Paz e em todo o Ocidente, crescia a inquietude entre os trabalhadores, os camponeses e o povo, e as declarações de setores dispostos a se mobilizar. Nos dias 15 e 16, multitudinárias marchas foram realizadas em La Paz, convocadas pelas organizações altenhas COR e Fejuve, pelas universidades da UPEA e UMSA, pela COB e outros setores populares, gritando consignas contra o imperialismo norte-americano, as oligarquias do Oriente e seus grupos fascistas.

Entretanto, o Conalcam (que coordena os “movimentos sociais” camponeses, indígenas e populares que simpatizam com o MAS) e a COB (cuja direção cumpriu um papel lamentável na crise, sem dar nenhuma orientação ao movimento operário), se disciplinaram com a política negociadora do governo, canalizando a disposição de lutar em algumas manifestações sem continuidade.

Estas direções reformistas e burocráticas são as principais responsáveis de que o movimento operário, camponês e popular não pudessem se mobilizar de conjunto, somando-se aos setores avançados que resistiam no coração da “meia lua” para contra-atacar e infligir uma derrota incontestável ã intentona autonomista.

Nada de bom se pode esperar do diálogo

Durante o fim de semana a intentona começou a perder força e a tensão diminuiu sob a forte pressão internacional e de setores da classe dominante que queriam colocar limites ã crise e encaminhá-la ã negociação.

O papel assumido pela Unasul (ver nota) respaldando o governo de Evo Morales e “acompanhando” o diálogo com os autonomistas, e a gestão da Igreja. facilitaram o caminho a um “pré-acordo”.

Apesar de algumas tentativas e agressões ocasionadas por setores isolados de direita e por um primeiro rechaço dos prefeitos ã detenção de Leopoldo Fernández e outros cívicos pandinos responsáveis pelo massacre, se alcançou finalmente, na noite de terça-feira (dia 16), a assinatura do documento que foi elaborado nas reuniões preliminares entre o governo e o prefeito de Tarija Mario Cossio, como representante do Conalde.

Com a bênção da Igreja e os bons ofícios da Unasul, OEA e ONU, o novo “processo de diálogo” antecipa maiores concessões para a direita, e deste acordo os trabalhadores, os camponeses, os indígenas e o povo não têm nada de bom a esperar.

Se finalmente não se chegar a um acordo explícito - e não se pode descartar novos “curtos-circuitos”, rupturas ou enfrentamentos - será porque é difícil alcançar o “grande acordo nacional” (como pedem todos, desde o MAS até os cívicos) sobre os principais problemas do regime político-estatal que alimentam a crise política. Tudo isso seguirá condicionando os esforços para canalizar a crise ao terreno da negociação.

Uma severa advertência

Os acontecimentos de agosto e setembro constituem uma grave advertência para o movimento operário, camponês e popular, pois ratificam que não há uma verdadeira saída para a crise nacional senão através de grandes enfrentamentos da luta de classes. Isto domina as perspectivas estratégicas para as quais a vanguarda operária e popular tem que se preparar. A profundidade das contradições que ocorrem no país e do processo de massas aberto no Outubro de 2003 torna difícil chegar a acordos de fundo para reconstruir o regime político burguês.

Diante da crise há duas estratégias que, apesar de suas diferenças sociais e políticas, convergem no objetivo de afogar o processo de massas e frustrar as demandas do povo trabalhador.

A variante reformista que pretende o MAS em nome da “revolução democrática cultural” oferece algumas reformas parciais ao custo de renunciar ás grandes tarefas democráticas, nacionais e antiimperialistas, sem as quais não somente é impossível dar resposta aos problemas do povo trabalhador como derrotar a reação burguesa e latifundiária.

Entretanto, quanto mais êxito tem o MAS em conter o movimento de massas com sua estratégia de colaboração de classes com a burguesia, mais descontente e impaciente se sente a classe dominante com os custos políticos e econômicos que esta variante significa, e mais a reação levanta a cabeça.

O autonomismo é uma expressão avançada das forças reacionárias e pró-imperialistas. Se a contenção reformista mostra-se ineficaz para conter o processo tentarão as variantes da contra-revolução aberta. O governo frente-populista do MAS permite preservar-se e pressionar incessantemente, e pode terminar abrindo o caminho para a contra-revolução, como mostra a história boliviana (de Torres a Banzer em 1971), latino-americana (de Allende a Pinochet no Chile em 1973) e internacional de todo o século XX.

Só a força unificada da classe operária, dos camponeses, dos povos indígenas e do povo pobre das cidades pode esmagar a reação e abrir o caminho para uma solução de fundo aos problemas de libertação nacional e social na Bolívia. Mas isto exige superar as amarras que o nacional-populismo indigenista do MAS impõe ao desenvolvimento da mobilização de massas.

Nós, socialistas revolucionários, participamos sem sectarismo de toda unidade de ação de massas para enfrentar os ataques reacionários, mas denunciamos com todas as forças a política de diálogo e acordo do MAS e defendemos sempre a completa independência política perante o governo reformista, premissa para contribuir com todas as forças possíveis para que se possa constituir o “terceiro campo” revolucionário do movimento operário, capaz de orientar as massas a uma saída de fundo para a crise nacional.


Um primeiro balanço da intentona autonomista

Ainda que o MAS e seus seguidores tenham caracterizado a intentona autonomista como um “golpe-cívico-municipal” e sem dúvida muitos cívicos gostariam de se lançar por cima de Evo Morales, os objetivos práticos do movimento foram mais modestos e apontavam para restabelecer uma relação de forças favorável ã direita, em um esforço para reverter as conseqüências do triunfo eleitoral de Evo no referendo do dia 10 de agosto, com 2/3 dos votos nacionais e frear a nova CPE ou impor uma negociação em melhores condições.

É por isso que caracterizamos como uma “intentona autonomista” apoiada na ação de grupos fascistas como sua “vanguarda militar”. Apesar de sua violência (tentando compensar os limites sociais e políticos com a radicalização de seus métodos) os autonomistas não puderam superar os limites da “meia lua”, a direita está muito debilitada no Ocidente e no momento não contam com apoio suficiente entre os militares para objetivos mais ambiciosos. Além disso, não puderam reverter o enfraquecimento de seu domínio em sua “retaguarda departamental”,controle que vem se desgastando (como refletiram de forma distorcida os resultados eleitorais de 10 de agosto).

Também não é realista falar que a contestação tenha sido um levantamento ou insurreição de massas, comparável com os de 2003 e 2005. Devido ao papel do MAS e seus aliados, não houve uma intervenção de massas generalizada que golpeasse os autonomistas, ainda que estes, que “se lançaram primeiro” em suas regiões e massacraram em Pando, tampouco conseguiram derrotar os movimentos sociais mais combativos de Santa Cruz e outras zonas. Finalmente, os acontecimentos de Pando, comovendo a opinião pública nacional e internacional, se voltaram contra a própria “meia lua” quando a intentona autonomista já começava a perder força. Desde o ponto de vista político, o governo volta ã mesa de negociações numa posição favorável, enquanto os prefeitos do Conalde ficaram politicamente debilitados e perderam o controle de Pando.

Entretanto, o terreno do diálogo e o papel “facilitador” da Igreja e da “comunidade internacional” beneficiam os autonomistas para buscar nas negociações o que não conseguiram consolidar nas ruas, contando a seu favor com a política conciliadora do MAS, como adianta o documento do “pré-acordo”.

O MAS e seus aliados impediram que no momento culminante da crise o conjunto das massas irrompesse, o que poderia inverter o resultado a seu favor. Por isso, e ainda que não se possam descartar novos fenômenos da luta ou organização dos setores avançados, os elementos que possivelmente mais pesam na nova conjuntura são “pela direita”: o processo de diálogo buscando um “grande acordo nacional” com a reação, um papel mais ativo (e reacionário) das Forças Armadas, uma maior ingerência a serviço da ordem semicolonial através da Unasul, OEA e ONU; tudo em clima de “pacificação e diálogo” desmobilizador que tentam impor, desde a Igreja, a imprensa e TV até as ONG’s, com o aval do MAS, um giro mais ã direita possível do cenário de negociação.

A partir de agora, em que pese o diálogo, o conflito não pode se dar por fechado. A crise política é crônica e se alimenta das profundas contradições econômicas, sociais e políticas que levaram a situação de “regime fraturado” entre o poder central e os departamentos autonomistas; isto no marco da enorme polarização social e política nacional.

Ainda que finalmente se limpe o caminho ao referendo sobre a nova CPE, qualquer acordo com os prefeitos e a direita parlamentar seria sobre a base de fazer maiores concessões. Se não se chega a um acordo, a direita manterá as mãos livres para hostilizar o processo da nova CPE, e longe de “isolar a direita golpista” como o MAS pretende, o diálogo terá servido para legalizar as agressões da reação autonomista, lhe dar novo respiro e preparar novas ofensivas mais fortalecidas... como se deu até agora em dois anos de tentativas de conciliar.


Por um programa de ação para a bolívia

Os acontecimentos de setembro deixam importantes lições. A vanguarda precisa se dotar de um programa de ação e defendê-lo nas organizações operárias e populares.

1 Não podemos confiar nem apoiar o processo de diálogo entre o Governo e a direita. É uma armadilha que favorece a reação e busca desmobilizar a adormecer os trabalhadores, os camponeses e os povos originários.

2 Não ã impunidade! Punição ao massacrador Leopoldo Fernández e todos os agentes dos ataques fascistas, os da ação e os intelectuais, mediante tribunais populares.

3 Pelo armamento dos trabalhadores e do povo. O massacre de El Porvenir demonstra mais uma vez sua necessidade e urgência. Os exemplos de Tiquipaya, o do Plan 3000 e de Cuatro Cañadas mostram que setores avançados assumiam seu legítimo direito a se defender. Rechaçamos a hipocrisia da imprensa e da TV privadas, que colocam um sinal de igual entre a violência reacionária dos para-militares e fascistas e a violência legítima do povo pobre! Os grupos de choque autonomistas continuam armados. É preciso colocar de pé em todas as organizações de massas Comitês de Autodefesa e centralizá-los em milícias operárias e camponesas. Os “movimentos sociais” que querem defender o que consideram como seu governo, têm que exigir de Evo armas e treinamento eficaz, e que se abram os quartéis para isso!

4 Nenhuma confiança nas Forças Armadas e na Policia. O Estado de Sítio não desarmará os fascistas, ainda que alguns poucos fiquem presos, mas será usado pelo Exército para se perfilar como o “árbitro” defensor da ordem burguesa contra os trabalhadores e o povo. A COB e as organizações camponesas devem levantar uma política para quebrar o controle sobre a tropa pela oficialidade, casta reacionária “treinada” para massacrar operários e camponeses como em Outubro. Basta de maltrato aos soldados nos quartéis! Plenos direitos de organização e políticos ã tropa! Imediata retirada das tropas bolivianas que estão no Haiti!

5 É preciso golpear a reação onde mais lhe dói, o coração de seu poder econômico, social e político é a propriedade da terra, as empresas, os bancos e indústrias. Tinham razão as vozes que chamavam para ocupar os terrenos e empresas de Marinkovic, Dabdoub e demais. É preciso impor uma verdadeira reforma agrária, liquidando o latifúndio! Terra e território para nossos irmãos camponeses e indígenas! Nacionalização sem indenização e sob controle dos trabalhadores das empresas de todos os clàs burgueses e latifundiários!

6 Fora o imperialismo! A expulsão de Goldberg é um gesto de dignidade nacional, mas completamente insuficiente para frear a ingerência imperialista. Fora as transnacionais! Não pagamento da dívida externa! Nacionalização 100% do gás, do petróleo e demais recursos naturais sob controle operário coletivo. Não ã “amistosa” intervenção da ONU, OEA e UNASUL! Pela solidariedade dos trabalhadores e dos povos de toda América latina com a luta do povo boliviano contra os ataques da reação pró-imperialista!

7 Somente a força dos trabalhadores, dos camponeses, dos povos originários e dos setores populares pode derrotar a reação e seus grupos fascistas!

8 Por uma grande frente única para a luta dos trabalhadores e das massas de todo o país. Os “movimentos sociais” integrados no CONALCAM simpatizam com o MAS e têm ilusões na nova CPE como forma de resolver suas demandas. Dizemos-lhes para que não confiem no diálogo e na concertação com a direita, mas somente em suas próprias forças e na mobilização. É preciso impor ã COB uma orientação para chamá-los a lutar unitariamente contra a reação e por demandas operárias, camponesas e populares. Este seria também o melhor caminho para começar a preparar política e praticamente uma Assembléia Popular que concentre as forças operárias, camponesas, indígenas e populares, abrindo o caminho para uma saída operária e camponesa para a crise.

9 É urgente convocar o congresso da COB (que os dirigentes vem postergando há meses) para fazer o balanço dos recentes acontecimentos, adotar uma posição operária e definir os próximos passos para seguir, unindo o combate contra a reação à luta por salário e as demandas operárias e populares.

10 Os movimentos operário, camponês e popular precisam das mãos livres para abater a reação. Por isso, a preparação da luta é inseparável do combate na COB e nas organizações de massas pela independência política frente ao Governo tanto como frente aos empresários e seus partidos. Ao calor desta luta é preciso construir uma direção revolucionária para os sindicatos.

11 Nós, trabalhadores e estudantes que fazemos parte da LOR-CI participamos incondicionalmente em toda ação progressiva para enfrentar a direita com os métodos da mobilização de massas, mas sem conceder o menor apoio político ao governo e mantendo todas nossas críticas a seu gesto a serviço da colaboração classes com a burguesia, que somente tem servido e serve para fortalecer a reação e postergar as reivindicações dos trabalhadores e do povo.

12 A luta continua. Não baixemos a guarda! Reiteramos nosso chamando aos trabalhadores mineros de Huanuni, aos professores urbanos de La Paz, aos lutadores do Plan 3000, ã juventude que quer enfrentar a direita, ã esquerda operária e socialista, a impulsionar o quanto antes um bloco de luta e por uma política independente dos trabalhadores, para impulsionar sem demora essas tarefas desde as fábricas, minas, bairros, comunidades e locais de estudo.

A Liga Obrera Revolucionaria por la Cuarta Internacional (LOR-CI), é a organização irmã da LER-QI na Bolívia, e também faz parte da Fração Trotskista - Quarta Internacional.


A cúpula da UNASUL

Mantendo a “ordem” regional

Diante da convulsiva situação na Bolívia foi convocada uma reunião extraordinária da União das Nações Sul-americanas (Unasul) em Santiago do Chile. Assistiram ã mesma representantes de 12 governos da região, entre eles, o lacaio do imperialismo Uribe, “social liberais” como Lula e Bachelet, “progressistas” como Cristina Fernández e Lugo e os “nacionais populares” Chávez e Morales, além de Insulza, secretário-geral da OEA. O objetivo da reunião foi buscar uma “solução” política ao conflito na Bolívia entre o governo de Morales e os prefeitos da direita autonomista, pretendendo conter a crise e evitar maiores riscos para a “ordem” regional. A recém-criada Unasul, iniciativa do Brasil apoiada pela Venezuela para intervir ativamente na região, teve seu batismo de fogo, como afirmou a presidenta chilena Bachelet, tratando de “evitar a violência como forma de resolução dos conflitos na democracia”. Este organismo se propõe como garantia da ordem sul-americana, substituindo parte do papel que cumpria tradicionalmente a OEA. A chamada “Declaração de La Moneda” [palácio de governo chileno] não apresenta nenhuma resolução a favor do movimento de massas e suas reivindicações históricas, e não poderia fazê-lo, já que seu objetivo é manter a chamada “ordem institucional”.

Cabe lembrar que sob este mesmo pretexto os governos “progressistas” latino-americanos já atuaram de maneira “responsável” quando na reunião do Grupo do Rio deixaram sem nenhuma condenação a Colômbia após o criminoso bombardeio do governo pró-ianque de Uribe ao acampamento das FARC em território equatoriano, no início de março. Pior ainda, há quatro anos tropas da Argentina, Bolívia, Chile e Uruguai, lideradas pelo Brasil, mantêm uma ocupação militar no Haiti a pedido dos EUA que, longe da suposta “missão de paz” que dizem representar, têm sido acusadas de abusos, torturas e violações contra mulheres e meninas dos bairros mais pobres, enquanto cumprem uma função coordenada na repressão interna junto com a polícia nacional haitiana.

Por isso, na reunião não se aprovaram mais do que afirmações gerais como o respaldo “constitucional” a Morales, respeito ã soberania, desconhecimento de qualquer golpe ou divisão do país, o fim da violência ou a condenação ao massacre em Pando. Também se votou uma comissão para o diálogo político (com os mesmos personagens reconhecidos como golpistas e fascistas que assassinaram os camponeses!), quando deveria ter exigido a prisão imediata dos responsáveis do genocídio. Não há resolução que possa conciliar os interesses dos assassinos e dos massacrados. Mas deve ficar claro que o argumento de defesa da “ordem institucional democrática” que agora se utiliza contra a direita autonomista no futuro será usado contra os trabalhadores, massas pobres urbanas e camponesas ante qualquer tentativa de querer desafiar a ordem burguesa em função de seus interesses fundamentais e históricos.

O balanço que faziam os insígnes representantes era de que “pela primeira vez na história os latino-americanos resolvemos nossos próprios problemas”, como afirmou Chávez no final do encontro, e no mesmo tom pronunciaram-se Evo, Lula e Cristina Fernández, dentre outros. Chávez em suas argumentações públicas em Caracas afirma que com a reunião da Unasul se colocou certo limite ás pretensões norte-americanas de apoiar mais abertamente as tendências mais direitistas. Mas o que não afirma - sendo corroborado por alguns analistas internacionais - é que com a Unasul ao mesmo tempo em que destaca o papel do Brasil e do Chile, que são vistos como interlocutores mais confiáveis pelos EUA, coloca limites ao papel de Chávez tal como se expressou na negativa por parte destes de que se fizesse referência explícita aos EUA (o que era pedido pela Venezuela), desconsiderando que a ingerência do imperialismo norte-americano foi clara e notória, a tal grau que chegou-se a expulsar da Bolívia e da Venezuela os embaixadores ianques.

Se bem é certo que a reunião desenvolveu-se sem a presença dos EUA, também é certo que as resoluções tomadas não apontam em nenhum sentido para a libertação da submissão imperialista sobre a Bolívia e o resto do continente.

A “integração” deste novo sul-americanismo, do qual se vangloriam todos os governos, nada tem a ver com os interesses dos trabalhadores e dos povos, e tampouco serve a algum tipo de emancipação. O objetivo principal dos governos reunidos na Unasul é desviar definitivamente a mobilização dos trabalhadores e do povo e preservar a “ordem” para garantir os negócios dos monopólios imperialistas e capitalistas locais. Por esta razão, apesar dos discursos “nacionais e populares”, não tocou-se em nenhuma das bases do atraso, da dependência e das enormes contradições sociais de nosso continente: um punhado de empresários e proprietários de terra concentram as maiores riquezas enquanto a maior parte da população vive na miséria. Os trabalhadores e os povos da América Latina não podemos esperar nada de reuniões como esta, tampouco de governos como o de Evo Morales que terminam amarrando os pés e as mãos da mobilização de massas, levando a um beco sem saída em nome da conciliação com os empresários e as transnacionais, impossibilitando uma luta séria contra a reação. Por isso, é mais importante do que nunca lutar para que os trabalhadores e os oprimidos latino-americanos nos armemos de uma perspectiva política independente, levantando nosso próprio programa e unindo, sob a direção da classe operária, os setores populares empobrecidos.

Só com a mobilização e a auto-defesa de massas podemos derrotar a direita “autonomista”. Hoje a solidariedade internacional é urgente e é a única que pode fortalecer a luta dos trabalhadores e do povo boliviano.

A Liga de Trabajadores por el Socialismo (LTS), é a organização irmã da LER-QI na Venezuela, e também faz parte da Fração Trotskista - Quarta Internacional.

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  • [1Meia lua ou Oriente é a região formada pelos estados (departamentos) do leste boliviano (Pando, Beni, Santa Cruz de la Sierra, Tarija, Chiquisaca e Beni).

    [2IDH: Imposto Direto aos Hidrocarbonetos. O governo mudou por decreto sua distribuição, cortando a cota dos estados e aumentando a dos municípios e do governo central para financiar o plano Renta Dignidad (benefício mensal aos idosos).

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