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Internacional

A crise econômica mundial se transforma em crise geopolítica

25/11/2014

A crise econômica mundial se transforma em crise geopolítica

A persistência da crise econômica está avivando velhas e novas tensões imperialistas internacionais no teatro geopolítico mundial, deixando mal parados aos que deram como fora de moda a teoria do imperialismo. Assim a analisamos neste texto que é a segunda parte do artigo "Geopolítica da Crise Mundial".

Nos últimos meses se multiplicaram os rangidos e tremores na desgastada ordem do pós-guerra. A tendência ã coordenação das principais potências imperialistas, que primou nos momentos catastróficos de 2008/2009 ("momento Lehman"), está ficando para trás. Assim, a eurocrise se converte num lugar de enfrentamento - ou de guerra financeira- e, de maneira mais enrustida, tem se convertido também numa guerra econômica entre as principais potências do Ocidente, entre o dólar e o euro, entre o eixo das finanças de Wall Street/City de Londres e o pólo financeiro em torno de Frankfurt e a predominância europeia.

Toda visão provinciana desta crise, como a que tem a maioria da esquerda europeia, perde de vista esta realidade essencial: que frente ao programa de um novo ciclo de endividamento europeu comandado por Wall Street, o governo alemão se opõe - sem querer ainda entrar em choque aberto com Washington - uma linha mediadora. Ou seja, uma política de austeridade tão imperialista e inimiga da classe operária como as políticas de estímulo econômico que propõe os EUA e alguns governos europeus, mas por distintos meios. Merkel aponta para uma distribuição concertada de partes dos ’excessos’ de dívida e créditos existentes enquanto busca preservar sua base industrial e seus vínculos econômicos com a Rússia e a China. O que está em discussão é uma reestruturação da relação entre produção e financeirização da economia, mecanismo fundamental para saber quem arca com a desvalorização da enorme massa de capital fictício criado nestas décadas, entre os principais centros imperialistas.

Contudo, é na Ucrânia, um dos ’cinco pivôs geopolíticos’ da Eurásia segundo Zbigniew Brzezinski em seu livro O grande tabuleiro Mundial: A supremacia estadunidense e seus imperativos geoestratégicos (*) onde a crise econômica está se transformando em crise geopolítica, convertendo deste modo este país da periferia da Europa em uma nova fronteira de guerra. Ali, da mesma forma que na ex-Iugoslávia durante a década de 1990, ainda que num contexto distinto, depois de anos de desgaste da velha ordem mundial do pós-guerra e o fim do intervalo de duas décadas que seguiu ã queda do Muro de Berlim, Alemanha e EUA de fato marcham juntos, mas perseguem objetivos divergentes no longo prazo. Para Berlim, o cenário ucraniano é a continuidade de sua política de expansão para a Europa Leste iniciada em 1989 pela capital alemã com o objetivo de conquistar novos mercados para seus bens e, sobretudo, de adquirir mão de obra qualificada a baixo custo.

O elemento novo é que esta saída de capital alemão choca com a Rússia, já que esta tenta preservar uma certa base industrial muito deteriorada inclusive durante os anos do Putin e necessita para isso um "ambiente protegido", em realidade este é o significado na União Aduaneira proposta por Moscou. Contudo, que Alemanha tente avançar não significa que esteja disposta a arriscar sua relação com a Rússia, o que busca é pressionar esta a uma relação subordinada, avançando de fato por outras vias numa semicolonização. Desta forma, o fim da posição intermediaria que a Ucrania gozou nos últimos anos gera curtocircuitos na relação de "bom vizinho" da Alemanha com a Russia. Mas Berlim não tem outra alternativa frente ã continuidade da crise já que não tem nenhuma possibilidade de sobrevivência para o capitalismo europeu, por trás da hegemonia alemã, se não consegue conservar uma Europa unida como grande área regional, mantendo sua forte produção industrial, dado o pouco ou nenhum poder financeiro e militar que tem frente aos Estados Unidos, a falta de energia barata e a necessidade de manter uma localização central dentro da concorrência capitalista, que não permite que apenas conserve as posições conquistadas.

Ao mesmo tempo, a Alemanha mantém uma relação privilegiada com Pequim e a mera perspectiva de um espaço geoeconômico que una estes dois pólos da grande massa euroasiática via Moscou,surrupiando por sua vez o domínio marítimo dos EUA, seria um cenário de pesadelo para a hegemonia norte-americana. Diga-se de passagem, que a existência de fortes atritos entre Berlim e Moscou torna gráfica que a possibilidade de um eixo desde a Alemanha até a China através da Rússia somente poderá avançar de forma conflituosa, descartando deste modo toda ideia peregrina de que é possível conseguir uma multipolaridade norte-americana harmônica sem que se desestabiliza o sistema global, tal como levanta Giovanni Arrighi em seu livro Adam Smith em Pequim. O mesmo é válido para as relações entre Rússia e China que tem dado um salto nos últimos meses como subproduto da conflituosa situação da primeira com a União Europeia (UE).

Mas o que sim é certo, é que se esta tentativa de regionalização econômica e política mais centrada no comércio e na indústria, e desligada das finanças internacionais controlada por Washington avançasse substancialmente, o sistema centrado nos Estados Unidos estaria em grave risco. Agreguemos que a fortaleza do sistema dólar/Wall Street já está sacudida pela crise da qual não pode se recuperar plenamente apesar de enormes injeções de liquidez. Para Washington somente a possibilidade desta entente é diretamente inaceitável. Deste modo enquanto EUA busca negar a Moscou a menor zona de influencia e busca lhe outorgar uma humilhação completa, seu segundo objetivo é Berlim, ou mais precisamente, as relações intrínsecas com Moscou e Pequim. Obama utiliza todo tipo de provocações para obrigar a Alemanha a eleger, como sucedeu depois da queda do avião de Malaysian Airways na fronteira russo-ucraniana e que foi rapidamente atribuido de maneira indireta a Russia pelo presidente norteamericano.

Até agora Merkel tem assumido uma posição intermediaria, mais aberta no que se refere ás condenações verbais ã Russia e aderindo ã primeira ronda de sanções, mas restringindo algumas das ideiais mais audazes dos falcões da OTAN. Frente ao perigo atual de uma nova guerra aberta no leste da Ucrânia, seu ministro de relações exteriores tenta mediar entre Kiev e Moscou, tratando de conter os russos, enquanto pressiona a Kiev (que depende de sua "ajuda" financeira) para buscar alguma reconciliação frente as demandas dos separatistas, de antemão vociferadas por Putin como a federalização do país. Tratando de conciliar os distintos interesses da UE, desde a belicosa Polonia até a conciliadora Itália, uma vez que mensura o preço que significa a ruptura de sua disciplina atlà¢ntica e desde aí suas vacilações, a chancelaria alemã não tem a intenção de desestabilizar a cooperação criada durante mais de quarenta anos de Ostpolitik. Enquanto segue crescendo em Berlim um debate, que apenas transcende aos meios de comunicação, sobre a necessidade de reformular o vínculo com os Estados Unidos. De sua parte, a política aventureira de Obama (ou de alguns de seus conselheiros mais neoconservadores no meio da desordem que reina em Washington) de apoiar aos insurgentes de Kiev para fazer retroceder Putin não antecipou o contragolpe da China e o acordo histórico firmado com a Rússia depois de anos de dúvidas e suspeitas entre Pequim e Moscou. Dito de outra maneira, apesar das fortes divergências entre uns e outros nestes novos realinhamentos da faísca geopolítica que está unindo a China, Russia e Alemanha é proporcionada (alimentada) pelos Estados Unidos e sua reticência em reconhecer o declínio de sua hegemonia e sua intransigente negativa de minimamente tolerar que o mundo não pode ser dirigido como antes. Esta é a fonte central que pode levar a novos choques entre as grandes potências.

Estamos chegando a um momento de desordem sistêmica: se estas tendências não são interrompidas ou redirecionadas a atual situação pode resultar numa progressiva alienação dos Estados Unidos da Eurásia com graves consequências para sua já maltratada hegemonia ou, de querer evitar tal ominoso cenário, deverá jogar com fogos e provocações cada vez mais arriscados e perigosos. Conjunturalmente, uma primeira resposta, mais de conteúdo simbólico que substancial, tem sido o recente acordo climático entre Obama e Xi Jinping na recente cúpula da APEC, concomitantemente buscou deixar no ostracismo a Rússia. A glorificação que fazem alguns analistas deste acordo, ao mesmo tempo que o coro da imprensa mundial sobre o isolamento de Putin é pura propaganda, terreno no qual os EUA buscam cada vez mais dissimular sua debilidade.

A política internacional está esfriando e as perspectivas cada vez mais ominosas se amadurecem sobre a humanidade. Hoje em dia a balcanização abarca todos os territórios que se desprendem da simultânea desintegração das ex-URSS e a Iuguslávia. Desde a fronteira ítalo-eslovena ã russo-ucraniana, de Trieste a Khárkov, desde o mar Adriático ao mar Negro, cem anos depois da queda do império dos Habsburgo, o otomano e o czarista, quase não tem fronteira que não esteja em disputa ou questionada. Ou seja, não faltam pavios que podem explodir. Os ares de guerra, por muito improvável que seja a vontade dos grandes jogadores, não são já uma questão de mera rememoração histórica, neste 2014 há cem anos da primeira grande carnificina interimperialista. EUA parece na atualidade ser estruturalmente incapaz de sobreviver a crise globais sem arruinar e desorganizar também aqueles estados que não são marginais com o fim de aprofundar sua rapina financeira em escala global. Europa, por outro lado, se não quer sair de um jogo que se torna cada vez mais difícil, está obrigada a seguir as linhas sugeridas pela Alemanha. Frente a semelhantes atritos geopolíticos o ressurgir do neo-harmonicismo parece haver sido só uma expressão do suposto sonho de uma globalização harmônica ou a mera ilusão dos primeiros momentos da crise condenados a ficar para trás. Só a teoria do imperialismo pode preparar conscientemente os trabalhadores e o povo para as catástrofes que se avizinham nos próximos anos e décadas.

(*) Para Brzezinski no novo mapa político da Eurásia podemos identificar cinco atores geoestratégicos França, Alemanha, Rússia, China e a Índia, e cinco pivôs geopolíticos Ucrânia, Azerbaijão, Coréia, Turquia e Irã. Sua definição de "pivôs geopolíticos" inclui os Estados cuja importância se deriva não de seu poder senão de sua localização, que em alguns casos lhes dá um papel especial já que para definir o acesso a áreas importantes ou para negar recursos a um jogador importante.

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