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GRÉCIA

A crise do Syriza e sua ala esquerda

17/07/2015

A crise do Syriza e sua ala esquerda

A votação no Parlamento do novo memorando pactuado com a Troika escancarou a crise aberta no partido de Alexis Tsipras. 39 deputados do Syriza não votaram a favor do acordo (32 contra, 6 abstenções e dois ausentes). A crise do Syriza e o fracasso da estratégia de sua ala esquerda. A crise do Syriza e sua ala esquerda.

O novo resgate assinado por Alexis Tsipras é uma “humilhação para a Grécia”, afirmava na segunda-feira um editorial do site Iskra, que expressa as posições da ala esquerda do Syriza.

Panagiotis Lafazanis, referência da Plataforma de Esquerda dentro do Syriza e ministro de Reconstrução Produtiva, Meio Ambiente e Energia, dizia em uma declaração publicada na terça-feira (14) que o acordo era “inaceitável”.

“Os chamados sócios e em primeiro lugar a Alemanha, se comportaram frente ao nosso país como se fosse sua colônia e como chantagistas brutais e ‘assassinos financeiros’”.

Na quarta-feira, 109 membros do comitê central do Syriza (de um total de 201) emitiram uma declaração contra o acordo. Não todos são deputados, mas era outra mostra cabal da crise no interior do Syriza. E uma demonstração, por sua vez, da irrelevância destas declarações para as decisões do governo.

Na quarta-feira ã noite aconteceu a votação no parlamento, depois de uma jornada de greve dos empregados públicos e manifestações em frente ã Praça Syntagma onde a polícia reprimiu duramente os manifestantes que se opunham ã assinatura do acordo.

Como já se esperava, o novo plano imposto pela Troika e aceito pelo governo foi aprovado com os votos de uma parte do Syriza, Anel e a oposição de direita (com 229 votos a favor, 64 contra e 6 abstenções). Tsipras perdeu o apoio de 40 deputados do Syriza, de um total de 149: 32 votaram contra, 6 se abstiveram e 2 ausentes.
Alguns cargos públicos, como Nandia Valavani, vice-Ministro de Economia, se demitiu de seu cargo na quarta-feira pela manhã. Entretanto, vários ministros como Lafazanis asseguraram, apesar do acordo, que não deixarão seus cargos no governo, nem suas cadeiras de deputados. Lafazanis disse que "aqueles de nós que votamos não, continuaremos apoiando o governo e seus esforços para sair da crise".
O setor majoritário da Plataforma de Esquerda, dirigido por Lafazanis, está integrado por ex-militantes do Partido Comunista da Grécia, maoistas e nacionalistas de esquerda. Este grupo aposta em um “plano B” que começaria por uma saída do Euro, não pagamento da dívida e uma desvalorização da moeda. Propõem um programa de “recuperação da economia nacional” pelas mãos da burguesia grega, buscando o apoio de outros polos geopolíticos, como a Rússia e a China.

Sua perspectiva é uma “saída do Euro” em chave reformista e nacionalista, junto a setores da burguesia nacional (alguns reivindicam o exemplo da Argentina pós-2001 como o caminho a percorrer). Este setor fez críticas veementes ã direção do Syriza, mas até hoje (a maioria) se nega a romper ou deixar seus cargos de ministros, em um governo que capitulou escandalosamente frente ã Troika.

Esta atitude oportunista da ala esquerda do Syriza, para além de suas declarações e resoluções no CC do partido, mostrou sua completa impotência frente a um governo (do qual faz parte) que passou de ser “o laboratório da esquerda radical europeia”, ao “governo do terceiro memorando da Troika” em somente seis meses.

A tragédia do seguidismo aos reformistas

No segundo debate entre Stathis Kouvelakis e Alex Callinicos, líder do Socialist Workers Party (SWP) britânico, que aconteceu depois da votação no Parlamento e antes do acordo de Tsipras no Eurogrupo, retoma-se a polêmica sobre o Syriza.
Kouvelakis sustenta que é necessário evitar “repetir fórmulas pré-definidas e certezas que foram utilizadas em numerosas ocasiões no passado, algumas vezes de maneira justa e outras vezes não tanto.” Concretamente, diz que não serve falar de “traição” por parte do Syriza, e que tampouco serve “repetir velhas receitas”.

Este tipo de discurso, que rechaça como “dogma” toda a experiência da classe trabalhadora e o marxismo no século XX, é moeda corrente entre os militantes da esquerda europeia que se somaram com entusiasmo aos novos projetos reformistas como Syriza e Podemos. Entretanto, a crise grega confronta estes discursos com a dura prova da realidade.

Kouvelakis defende que não se pode caracterizar o Syriza como um reformismo “clássico” que busca “melhorar as condições da classe trabalhadora, e obter conquistas materiais para esta classe nos limites do sistema capitalista”, ao estilo da socialdemocracia na época do Estado de bem-estar social.

“O Syriza não tem o mesmo tipo de coesão. Podem gostar disso ou não, mas a identidade do Syriza é anticapitalista. É um partido que busca destruir o capitalismo mediante a transição ao socialismo, definindo socialismo como a socialização dos meios de produção.”

Esta sim é uma “ideia pré-concebida”, que não corresponde no mais mínimo ã realidade. O Syriza se comprometeu a pagar a dívida com a Troika, a permanecer no euro e “mitigar” a austeridade, jamais se propôs a questionar o capitalismo nem nada parecido. Pelo contrário, para o ex-ministro de finanças Yanis Varoufakis (agora apresentado por alguns como o “herói” de esquerda), o que se deve fazer é salvar o capitalismo europeu.

Toda a experiência concreta destes seis meses do governo demonstra a bancarrota do projeto de colaboração de classes que encarna o Syriza, começando pela aliança com a direita nacionalista e xenófoba do Anel, a assinatura do acordo de 20 de fevereiro, o abandono do já limitado programa de Tessalônica, as inumeráveis concessões ã Troika, culminando na assinatura de um pacto de “colonização”.

Se o Syriza se diferencia do “reformismo clássico” do pós-guerra não é porque seja “anticapitalista”, mas por outros motivos. Em primeiro lugar, porque nos marcos da crise capitalista mundial, a situação econômica não tem nada a ver com as condições de destruição em que se baseou o posterior boom do pós-guerra, no qual floresceu o reformismo. Mas, além disso, trata-se neste caso de um reformismo sem base orgânica na classe trabalhadora, que o transforma em um “reformismo sem reformas”, incapaz de lutar sequer por sustentar medidas que melhorem, ainda que seja parcialmente, as condições de vida da classe trabalhadora.

A necessidade de um programa anticapitalista e uma organização política revolucionária, independente de todo projeto reformista, longe de ser um “dogma” como sustenta Kouvelakis, é uma necessidade concreta frente ã crise do capitalismo atual. Esta é uma das lições da trágica situação que se vive hoje na Grécia.

O fracasso do Syriza e sua capitulação é também o fracasso das organizações da esquerda europeia que se integraram a organizações reformistas como Syriza ou Podemos, guiados por uma estratégia que supostamente buscava “combinar” a gestão do estado com a mobilização social, quando na realidade o que fizeram foi privilegiar o parlamentarismo e a gestão do estado capitalista, contribuindo para a passivização do movimento operário em oposição ao desenvolvimento da luta de classes.

Hoje na Grécia os trabalhadores começam a enfrentar por meio da luta as políticas de ajuste do governo Syriza. Seguir apoiando e integrando o governo, como defende Lafazanis, é uma impotência e seguidismo totais. Os setores críticos do Syriza, em especial aqueles que se reivindicam “anticapitalistas”, se fossem minimamente consequentes com a recusa ao plano de ajuste, deveriam começar por fazer um duro balanço do imenso fracasso de sua própria política.
Uma política oportunista de subordinação ã direção do Syriza e seu êxito eleitoral, pela qual se negaram a defender uma alternativa independente que enfrentasse a política de Tsipras. Ao contrário, perderam sistematicamente o tempo nos debates “parlamentares” – enquanto as condições para um inevitável enfrentamento com a Troika pioravam dia após dia – e seguiram semeando ilusões em que o governo Syriza-Anel podia “gerir a crise” e enfrentar os capitalistas. O que aconteceu foi exatamente o contrário e seu resultado pode levar a uma espantosa derrota da classe trabalhadora grega.

Por isto, apesar de suas críticas, enquanto a “esquerda do Syriza” continuar dentro do governo e do partido de Tsipras, seguirá sendo cúmplice de um governo de colaboração de classes que traiu abertamente a vontade popular, para adotar a agenda austeritária imposta pela Troika… e que está disposto a impô-la com repressão se necessário for.

A única política admissível é um balanço público de sua deriva oportunista e a ruptura completa e imediata com o Syriza e o governo, para impulsionar a mobilização independente e a frente única operária contra o novo memorando de Tsipras e da Troika. Uma frente única que precisará, para desenvolver, da criação de organismos de coordenação desde as bases dos trabalhadores e setores populares, em seus lugares de trabalho, em seus bairros e lugares de estudo, superando toda perspectiva sectária como a que expressam os stalinistas do KKE.

A esquerda anticapitalista grega que mantém uma posição independente do governo, contra a conciliação de classes e por uma perspectiva operária e revolucionária, grupos que integram a coalizão Antarsya e outros, têm colocada para si a abertura do debate sobre a necessidade de um partido revolucionário, ao mesmo tempo que busca o caminho para confluir com milhares de trabalhadores e jovens que, mais cedo que tarde, terminarão de desiludir-se com o Syriza e buscarão uma alternativa política. Um enorme desafio para o qual a solidariedade revolucionária e internacionalista será também fundamental.
Ao mesmo tempo, desde o Estado espanhol e todos os países da Europa temos que redobrar a solidariedade ativa com o povo grego. A direção do Podemos saiu a apoiar o acordo de Tsipras com a Troika. Os setores críticos dentro desta organização, junto com todas as organizações políticas solidárias com o povo grego, têm que colocar-se ã frente de uma grande campanha em apoio ao povo grego e pela anulação da dívida.

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