WEB   |   FACEBOOK   |   TVPTS

 
O que expressam os resultados das primárias nos Estados Unidos?
por : Claudia Cinatti

08 Feb 2008 |

As eleições primárias nos EUA têm demonstrado que os dois principais partidos capitalistas - o Partido Republicano e o Partido Democrata - ainda não resolveram suas diferenças internas sobre quem será o mais capaz para conduzir o imperialismo norte-americano numa situação na qual se combinam a pesada herança da política exterior de Bush, a ocupação do Iraque e do Afeganistão, com uma economia que está entrando em recessão.

Depois da chamada “super-terça” em 5 de fevereiro, na qual foram eleitos os delegados para as convenções de ambos partidos em 22 estados [1], a corrida pela nomeação ainda não se resolveu [2]. No Partido Republicano a disputa parece estar mais definida e mesmo que haja três candidatos o senador John McCain se coloca como o que obteria o apoio partidário sobre seus rivais: o empresário multimilionário mórmon Mitt Romney e o ministro Mike Huckabee.

No Partido Democrata o resultado praticamente empatado entre a senadora por Nova York e ex-primeira dama Hillary Clinton e o senador por Illinois e candidato afroamericano Barak Obama postergou a definição para as próximas semanas.
As questões de “gênero e raça” passaram ao primeiro plano da campanha. Enquanto Hillary obtém os votos das mulheres brancas, dos latinos e dos mais velhos, Obama tem sua base na comunidade negra e nos jovens, ainda que um setor importante de votantes brancos - principalmente da base eleitoral do ex-candidato John Edwards - deu seu apoio a Obama.

O ponto distintivo destas eleições é o fato de que o Partido Democrata pela primeira vez em sua história não tem um homem branco competindo pela nomeação [3], e que a batalha será definida entre uma mulher e um afroamericano.

A possibilidade de que Barak Obama triunfe nas primárias e consiga a maioria dos delegados eleitos para a convenção democrata em agosto, despertou o entusiasmo não só da minoria negra, mas também dos jovens que vêem em Obama um candidato oposto ã cúpula tradicional do Partido Democrata.

No entanto, tanto o resultado das primárias como o resultado eleitoral de novembro ainda são imprevisíveis. Até lá podem se desencadear acontecimentos que alterem as preferências políticas. É estimado que cerca de 2 milhões de norte-americanos percam suas casas por execução das hipotecas. A crise econômica já levou ã perda de 17.000 postos de trabalho só em janeiro, e os prognósticos de muitos economistas anunciam uma recessão prolongada. Esta situação transformou a economia no principal tema da campanha e fez com que Hillary Clinton apresentasse um programa econômico com algumas medidas como a suspensão das execuções das hipotecas por 90 dias, e o aumento de impostos aos mais ricos que tinham se beneficiado com Bush.

O que há por trás do “fenômeno Obama”?

Barak Obama se posicionou como o “candidato da mudança”, não por sua atuação política, que foi totalmente disciplinada -assim como de Hilary que votou a favor do aumento dos fundos ás tropas no Iraque - mas por sua origem afro-americana e por enfrentar os Clinton, que controlam o aparato partidário.

O peso simbólico que tem um homem negro estar aspirando ã presidência dos EUA é uma expressão da crise política na qual a presidência de Bush deixa o país, cuja taxa de aprovação atinge escassos 30% da população. Basta recordar que só em 1964 foi votada a lei de direitos civis [4] que punha fim ã segregação racial, ainda que isso não tenha posto fim ao racismo, e ao fato de hoje a minoria negra continua apresentando índices de pobreza e criminalização superiores ã dos brancos [5].

Isso tem contribuído para aumentar as ilusões de ativistas, de “progressistas” e da comunidade negra em Obama.

Porém, do mesmo modo que JF Kennedy não respondia aos interesses dos negros e dos trabalhadores, e sim as necessidades do imperialismo norte-americano, (e por isso mesmo invadiu Cuba em 1961) Obama não representa os interesses dos negros pobres, dos trabalhadores explorados nem dos jovens que querem acabar com a guerra no Iraque. Pelo contrário, representa os interesses de um setor da classe capitalista e de sua própria política, que vê com preocupação a situação e crê ser necessária uma mudança de rosto que garanta que o essencial permaneça o mesmo.
Como senador, Obama apoiou todas as votações para aumentar os fundos e as tropas norte-americanas no Iraque e no Afeganistão. Seu programa econômico é mais moderado que o de Hillary Clinton. Suas referências ã “mudança” não apresentou nenhuma medida que permita que não sejam os trabalhadores e os setores médios os que arquem com a recessão. Por isso recebeu o apoio de setores muito importantes do aparato democrata. Estes vão desde os setores que conservam algum traço progressista, como o chamado “clà Kennedy” [6], até o ex-candidato a presidente John Kerry, os editoriais de importantes jornais como The Boston Globe ou Los Angeles Times e de chefes das corporações midiáticas como Rupert Murdoch. Inclusive recebeu o apoio do ex-assessor de segurança nacional do governo de Carter, Zbigniew Brzezinski, um dos arquitetos da política dos Estados Unidos contra a ex União Soviética no Afeganistão, na década de 1980.

Sua campanha se é paga pelas grandes corporações que só em janeiro doaram em torno de 32 milhões de dólares.
A situação é tal que inclusive o Wall Street já optou por ajudar na campanha presidencial democrata, independentemente do candidato, e segundo a imprensa até 70% dos bancos de investimento apostam seu dinheiro contra Bush e os republicanos. É que nos governos democratas como o de Bill Clinton as empresas também obtiveram importantes lucros.

Bipartidarismo capitalista

O descontentamento com o governo de Bush já levou ao triunfo os democratas nas eleições parlamentares de 2006, dando-lhes a maioria em ambas as câmaras do Congresso.
Frente ã crise econômica milhões consideram que um governo democrata tomará medidas em defesa dos salários e dos direitos democráticos. Os latinos têm a ilusão de que um governo de Hillary Clinton freará as leis mais duras contra os imigrantes. Os que dependem da ajuda da seguridade social esperam que o gasto estatal não seja cortado. Muitos trabalhadores têm a expectativa de que um governo democrata lhes permitirá recuperar os salários e frear o avanço do desemprego, diante da perspectiva de perda de postos de trabalho que em algumas cidades como Detroit [7] golpeou duramente os operários da indústria automotriz.

Por outro lado, grupos de ativistas e militantes do movimento anti-guerra, como o MoveOn, considera que a candidatura de Obama é o canal de expressão da esquerda norte-americana e da luta contra a “guerra contra o terrorismo”.

Isso não é uma novidade. Historicamente o Partido Democrata cumpriu o papel de conter em seu interior os trabalhadores e setores “progressistas”, seja como o “mal menor” frente aos republicanos ou com a ilusão de mudança, quando surge em suas fileiras alguma ala de esquerda. Pela via da burocracia sindical da AFL-CIO e de sua retórica, que busca diluir as profundas diferenças de classe, manteve a classe operária subordinada ã burguesia imperialista.

A tão elogiada “democracia norte-americana” é a mais descarada ditadura dos monopólios e das finanças que, através das milionárias doações a ambos os partidos e de lobbies no Congresso, impõem as políticas que garantem a eles continuarem ganhando fortunas. Desde o início do século XX, quando o candidato socialista Eugene Debs obteve 6% dos votos, não houve “terceiro partido” que quebrasse o bipartidarismo republicano-democrata. A exceção foi, pela direita, a candidatura do empresário texano Ross Perot em 1992 e, pela esquerda, a de Ralph Nader pelo Partido Verde nas eleições de 2000, mas que expressava um projeto utópico de um capitalismo de pequenas empresas, comunitário e “não monopólico”.

Por isso, a única mudança verdadeiramente progressiva somente poderá vir se o poderoso proletariado norte-americano romper com os partidos de seus exploradores e conquistar sua independência política, como primeiro passo no caminho para enfrentar a burguesia mais poderosa do planeta, em favor de seu próprio interesse e dos povos oprimidos do mundo.

 

Receba nosso boletim eletrônico.
Online | www.ft-ci.org


Organizações da FT
A Fração Trotskista-Quarta Internacional está conformada pelo PTS (Partido de los Trabajadores Socialistas) da Argentina, o MTS (Movimiento de Trabajadores Socialistas) do México, a LOR-CI (Liga Obrera Revolucionaria por la Cuarta Internacional) da Bolívia, o MRT (Movimento Revolucionário de Trabalhadores) do Brasil, o PTR-CcC (Partido de Trabajadores Revolucionarios) do Chile, a LTS (Liga de Trabajadores por el Socialismo) da Venezuela, a LRS (Liga de la Revolución Socialista) da Costa Rica, Clase Contra Clase do Estado Espanhol, Grupo RIO, da Alemanha, militantes da FT no Uruguai e Militantes da FT na CCR/Plataforma 3 do NPA da França.

Para entrar em contato conosco, escreva-nos a: [email protected]