FT-CI

Brasil: Economia

O mito dos “fundamentos sólidos” da economia brasileira

29/01/2008

Reservas de mais de 180 bilhões de dólares, empresas lucrativas e valorizadas, bancos fortes e mercado interno aquecido. Se apoiando nesses elementos, muitos analistas econômicos, além é claro do governo Lula e do sempre otimista ministro da economia Guido Mantega, têm feito eco aqui no Brasil das teses do “descolamento”. Descolamento da economia mundial em relação ã economia dos EUA, que se apoiando no crescimento da China e dos países emergentes poderia manter o crescimento econômico mundial até que a economia americana se recupere da recessão em que está entrando. O Brasil neste contexto estaria particularmente bem posicionado, dizem.

É claro que se a tese do “descolamento” estivesse certa, valeria também para o Brasil, não por nenhuma particularidade da economia nacional, muito pelo contrário. Mas na realidade, como refletem as bolsas de valores de todo o mundo, a recessão nos EUA vai ter conseqüências profundas para a economia mundial, e a posição do Brasil é tão frágil quanto o discurso do Sr. Guido. Três fatores têm sido fundamentais para o crescimento econômico brasileiro, que é bom lembrarmos, esteve abaixo da média mundial nos últimos anos. Todos eles dependentes da dinâmica da economia mundial.

O primeiro deles, o saldo positivo na balança comercial graças ã expansão da demanda por matérias primas, as commodities. É essa expansão que tem garantido ao governo os dólares suficientes para acumular as tão comemoradas reservas de US$ 180 bilhões, reduzir a proporção dívida pública/PIB e realizar os “investimentos sociais”. O crescimento das exportações tem um importante efeito sobre o mercado interno, em parte responsável por abastecer o setor exportador com insumos e máquinas.

O segundo é a forte corrente de investimentos estrangeiros que o Brasil tem recebido, que chegou a US$ 90 bilhões ano passado. Esse forte fluxo de investimento externo é o principal motor no enorme crescimento do mercado financeiro no Brasil, em especial da Bolsa de Valores que se valorizou (em dólar) nos últimos anos em cerca de 400%. Isso com fluxo diário de negócios muito maior do que em qualquer outro momento da história. Um número recorde de empresas lançou ações na Bovespa nesse período, se aproveitando da grande liquidez de capital em nível internacional para fortalecer seus negócios no Brasil. Em 2007, 75% das chamadas IPO (sigla em inglês para oferta inicial de ações) foram compradas por fundos de investimentos estrangeiros.

O terceiro dos fatores, também relacionado com a grande liquidez internacional, foi o maior acesso de empresas e consumidores ao crédito barato. As grandes aquisições feitas pelas empresas brasileiras em várias partes do mundo se apóiam de um lado na valorização do real e de outro na possibilidade de conseguir empréstimo a juros baixos fora do Brasil. Isso entre outras coisas possibilitou enormes ganhos pegando emprestado lá fora, para reemprestar aqui dentro recebendo juros bem maiores. Seja emprestar para o governo, comprando títulos da dívida interna, seja para emprestar ao consumidor, o que explica os enormes prazos oferecidos pelos bancos e pelas financiadoras. Isso tem permitido o aquecimento do mercado interno, especialmente o mercado automobilístico e da construção civil.

Nenhuma razão existe para acreditar que o Brasil terá alguma força especial no contexto de crise mundial. Ao contrário, o Brasil continua sendo um dos elos mais débeis da economia mundial. Um estudo recente [1] tenta demonstrar que os indicadores econômicos brasileiros melhoraram em comparação aos períodos anteriores, porém mantendo ou diminuindo sua posição relativa em comparação com os outros países do mundo. Independente disso, como os principais motores do crescimento econômico brasileiro se baseiam na dinâmica da economia mundial dos últimos anos, isto é, o aumento das exportações, o fluxo de capital para a Bolsa de Valores e acesso a crédito barato e abundante, se estes fatores se esgotarem, como está acontecendo em função da crise financeira gerada pela explosão da bolha imobiliária nos Estados Unidos, o Brasil se verá fortemente atingido [2].

Os efeitos para a economia brasileira não serão imediatos, mas começarão a ser sentidos ao longo do ano. Sem entrar numa análise mais profunda das possíveis conseqüências econômicas que a recessão dos EUA pode trazer para o Brasil, conseqüências essas que podem incluir cenários catastróficos de quebradeiras generalizadas na economia nacional se uma fuga maciça de capitais ocorresse, não é difícil prever que as empresas e o governo Lula irão descarregar sobre as costas dos trabalhadores os custos da crise econômica. Antes mesmo de que qualquer crise se instale os trabalhadores já sofrerão as primeiras conseqüências pois é provável que as empresas parem de conceder aumentos salariais acima da inflação, além de diminuir o valor pago na forma de Participação nos Lucros e Resultados (PLR). As pressões para aumentar a flexibilização das leis trabalhistas e realizar uma reforma da previdência que corte direitos vai aumentar nos próximos meses. O corte de gastos do governo já começou e vai atingir a saúde e a educação. Frente a estes cenários, a Conlutas necessita se antecipar e começar a preparar os trabalhadores, política e programaticamente, para os tempos difíceis que se avizinham.

  • NOTAS
    ADICIONALES
  • [1"A economia política do governo Lula”, Luiz Filgueiras e Reinaldo Gonçalves

    [2A Vale do Rio Doce, por exemplo, já começou a enfrentar dificuldades para realizar o empréstimo de US$ 50 bilhões com bancos europeus que permitiriam a compra da empresa chinesa Xstrata.

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