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Nova crise da dívida como em 1980, ou crise asiática ampliada?
por : Juan Chingo

08 Jan 2016 | O temor de uma aterrissagem brusca da China, ou a queda livre dos preços do petróleo apesar do salto da crise no Oriente Médio, junto com a deteriorização econômica dos chamados países emergentes confirmam nosso prognóstico, adiantado já em 2014: estamos decididamente na terceira fase da crise mundial aberta em 2007/08. Nova crise da dívida como em (...)
Nova crise da dívida como em 1980, ou crise asiática ampliada?

O temor de uma aterrissagem brusca da China, ou a queda livre dos preços do petróleo apesar do salto da crise no Oriente Médio, junto com a deteriorização econômica dos chamados países emergentes confirmam nosso prognóstico, adiantado já em 2014: estamos decididamente na terceira fase da crise mundial aberta em 2007/08. Nova crise da dívida como em 1980, ou crise asiática ampliada?

Neste marco, onde o preço das commodities e as moedas dos “países emergentes” se debilitam, fica mais difícil para esses países e suas instituições financeiras obter os recursos para pagar a enorme quantidade de dívida lastreada em dólar. A grande incógnita é se, no marco do fortalecimento do dólar, esse processo vai levar ao mesmo tipo de estresse que se viu na crise da dívida latino-americana da década de 1980; ou a uma crise como a da Ásia Oriental e da Rússia no final dos anos 1990.

É que apesar da acumulação de reservas do ciclo econômico ascendente anterior, que por outros motivos vêm se deteriorando rapidamente, os chamados mercados emergentes estão encubando uma enorme bolha de crédito de U$$9,1 Trilhões desde 2008.

Essa bolha está começando a estourar, devido tanto às condições internas (limites do modelo econômico chinês, dependência das matérias primas de outros países), como externas (fim da flexibilização quantitativa –QE– norte-americana, subida de juros do FED Americano, por menor que tenha sido), no marco do desaquecimento da economia mundial.

Este último elemento pode se ver pela queda do índice Baltic Dry( índice de transporte marítimo, utilizado como indicador do dinamismo comercial mundial) aos menores níveis em trinta anos. Sua queda ininterrupta desde seus pontos altos em 2008 mostra duas realidades preocupantes: a primeira, a crescente sobrecapacidade por excesso na construção de barcos (o que por sua vez pode provocar uma cadeia de quebras em uma industria que vinha apostando em absorção do excesso de capacidade há oito anos). A segunda é mais problemática: o comércio global vem mostrando crescimento muito pobre, e segundo a Organização Mundial do Comércio, há vários anos. O ano de 2015 foi um ano especialmente complicado pela recessão brasileira e a freada da China. Os indicadores mostram que para 2016 o mais provável é uma piora. Por sua parte, os dados econômicos publicados por China, EUA e Índia fazem duvidar das expectativas de crescimento global para 2016. O Banco Mundial já rebaixou para 2,9% sua previsão de crescimento mundial para 2016 e também 2017. Esse número é 14% menor que suas estimativas para 2016, realizadas em julho de 2015.

2016: um ano de calotes soberanos?

Antes de finalizar o ano, Carmen Reinhart escrevia um artigo em que chamava 2016 de “o ano dos não pagamentos soberanos”. Em dito artigo mencionava o que temos comentado desde o começo dos primeiros sinais da crise dos “emergentes”: a montanha de dívida acumulada, grande parte com vencimento em 2016 e 2017.

É certo que, diferentemente de outros episódios de endividamento externo, os governos têm menos dívida em dólar, porém a dívida em dólar das empresas ultrapassou e muito a dos governos nos mercado de bônus não bancários. O acesso sem precedentes nem restrições aos mercados mundiais de capital permitiu a empresas e bancos de países emergentes pedirem enormes somas de dinheiros a uma taxa de juros historicamente baixa (1%). Um instrumento financeiro que se desenvolveu especialmente foi a emissão de bônus em moedas estrangeiras, os quais eram arrebatados por gestores de ativos financeiros de riscos ocidentais, ávidos de grandes lucros. Estes títulos da dívida internacionais alcançam um valor de 2.6 trilhões de dólares, dos quais três quartos se emitiram em dólar, segundo informe do BIS.

No marco da queda brutal dos preços do óleo cru, junto com outras matérias primas, o impacto nas economias dos mercados chamados emergentes que já vêm sofrendo uma forte desaceleração ou mais agudamente em alguns casos como Brasil, Rússia e África do Sul, uma forte recessão, será já impossível sustentar. Isto provocaria seguramente que sua moedas caiam ainda mais, gerando fugas de capitais, freio no investimento, aumento da inflação e incapacidade de empresas e governos para financiar a dívida prévia.

A China e o fracasso dos planos de estímulo interno: o fantasma da grande desvalorização do Yuan.

É evidente que o esfriamento da economia chinesa é muito mais severo do que os dados “oficiais” mostram. Porém o problema mais grave com o qual sua economia se enfrenta é que nestes dois anos não conseguiu se desalavancar: a dívida segue aumentando mais que o PIB nominal,e a sobrecapacidade segue gerando enormes problemas.

A realidade é que depois da crise do Lehman, a explosão de crédito e de dívida nos EUA e na China marcharam em paralelo. Com a dívida federal estadunidense subindo 150% em seis anos e o balanço do FED inflado em 400%, o excesso de dólares foi inundando o Banco Popular da China (BPC). Simultaneamente, o BPC deu livre acesso a uma histórica expansão do crédito interno chinês. Esse crédito alimentou aumentos históricos da capacidade manufatureira e da construção civil. Essa “bolha de crédito” por sua vez foi fundamental para a bolha dos mercados emergentes que tiveram um auge de financiamento barato, em economias relacionadas com matérias primas.

Este circuito foi facilitado pela forte ligação da moeda chinesa ao dólar. Sua moeda ancorada ao dólar (“dollar peg”) assegurava que quando os fluxos financeiros chegavam à China fossem facilmente convertidos no balanço em moedas locais do BPC, e em seguida reciclados imediatamente aos mercados de ativos (“securities”) norte-americanos. Esta forte ligação ao dólar também permitia importantes fluxos especulativos.

Porém a existência de fortes interesses criados assim, bem como o medo da burocracia de uma ruptura social, impede que essa burocracia assuma a necessária reestruturação das empresas ineficientes e siga mantendo-as artificialmente.

As distorções geradas são enormes: a sobrecapacidade alcança já 40% e em algumas indústrias até 50%, gerando um enorme problema para a economia. Primeiro, porque o capital circulante – o custo de manter a atividade – anula a geração de caixa e torna as empresas muito débeis. Segundo, porque o endividamento gerado pela construção de elefantes brancos – projetos desnecessários promovidos pelos governos locais ou nacional – contagia a outros setores que perdem acesso ao crédito, ao mesmo tempo em que o setor financeiro se debilita fortemente. Neste marco de massiva sobrecapacidade, uma reduzida margem de lucro e uma crescente tensão financeira, as manufaturas chinesas estão cada vez mais expostas à desaceleração mundial e a pressões competitivas de preços.

O setor financeiro chinês, ultra inchado, poderá ser ainda mais vulnerável. Os ativos dos bancos chineses alcançam níveis colossais, triplicando ou quadriplicando assombrosamente desde 2008, segundo algumas investigações autônomas. Isto se considerar o substancial “setor bancário na sombra” que tem sido aparentemente um bastião dos empréstimos de alto risco.

Neste contexto de crise de seu modelo de crescimento e com dificuldades crescentes a um reequilíbrio, o mecanismo do “dollar peg” dificilmente poderá se manter estável. De fato, ele é crescentemente disfuncional para a economia chinesa. Se sua moeda segue atada ao dólar, sofrerá uma valorização, o que redundaria em uma perda importante de sua competitividade internacional. Por isso, considerando o massivo setor exportador e a estabilidade social, é provável que China deva desvalorizar sua moeda, levando a um salto da atual guerra cambial, o que por sua vez agravaria a crise dos chamados países emergentes.

É essa perspectiva que faz caírem as bolsas de valores a nível mundial. É que ninguém está preparado para o efeito de uma desvalorização de 25-30% do Yuan. Menos de 10% de desvalorização e um aumento irrisório na taxa de juros nos EUA coincidiram com o colapso de quase 25% dos ativos de risco desde seus pontos máximos.

Imaginemos uma desvalorização como a que poderiam se ver tentados a realizar para solucionar o brutal aumento da dívida dos últimos 10 anos. Afetaria as matérias-primas, os setores de bens de produção cíclicos, a capacidade de pagar o enorme endividamento, e a solvência dos bancos – ao aumentar os empréstimos de difícil cobrança dos mercados “emergentes”.

Sem dúvida, o custo internacional deste movimento poderia ser muito alto para a burocracia de Pequim. Apesar de que seria o mais adequado para seu reequilíbrio interno, se Pequim permite uma revalorização de sua moeda, o custo imediato para o setor exportador geraria um forte deslocamento interna de difícil absorção para o sistema político.

Como vemos, a nova fase da crise mundial põe a burocracia chinesa em dilemas graves, que vão influenciar o futuro histórico deste país nos anos e décadas por vir.

 

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