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A Frente de Esquerda e dos Trabalhadores na Argentina e algumas lições para a esquerda no Brasil
por : Thiago Flamé

03 Jun 2011 |

A situação argentina

As eleições nacionais na Argentina acontecerão em outubro, mas até lá vão acontecer eleições locais e estaduais em todo o país (lá as eleições estaduais e nacionais não acontecem ao mesmo tempo como aqui). A franca favorita é a atual presidente peronista (PJ) Cristina Kirchner, que continua o governo do seu falecido marido Nestor Kirchner, se apoiando no crescimento econômico, em programas assistenciais, e no apoio de uma desgastada burocracia sindical. Depois da derrota em Buenos Aires nas eleições de 2009, o governo se recompôs e o amplo espectro em que se dividem os setores de oposição burguesa ao governo não consegue encontrar um candidato unificado (vai desde os setores mais ã direita como Macri, prefeito de Buenos Aires), passando pelo que resta do tradicional radicalismo (UCR) e indo até os setores centro-esquerdistas, que ou se aliam com o governo peronista, ou com a oposição burguesa, como faz Pino Solanas do Proyeto Sur e a burocracia sindical oposicionista da CTA.

Apesar da situação de passividade e reformismo, em certos aspectos parecida com a que existe no Brasil, nos últimos anos tem se desenvolvido um profundo processo de ativismo operário anti-burocratico, que se enfrenta ã burocracia sindical peronista e ã patronal. O chamado sindicalismo de base, que se organiza fundamentalmente através das comissões internas, é hoje uma realidade na maioria das grandes fábricas argentinas. Tem protagonizado duras greves e lutado bravamente contra a perseguição política aos ativistas operários. A crise da burocracia sindical deu um salto de qualidade quando seus bate-paus assassinaram a tiros Mariano Ferreyra, estudante, militante do Partido Obrero (PO), durante um piquete na ferrovia em defesa dos terceirizados. Não só se abriu uma crise que afetou um dos pilares do governo que é a burocracia sindical, como a militância trotskista virou assunto em todos os jornais burgueses, enquanto o governo foi obrigado a efetivar os terceirizados. Pouco tempo depois, a morte de Nestor Kirchner gerou um sentimento de comoção e apoio que deu um novo fôlego para Cristina enfrentar o ano eleitoral. No entanto, apesar do favoritismo do governo nas eleições nacionais, a sociedade argentina passa por um amplo processo de politização e de duras batalhas entre o sindicalismo de base de um lado, e a patronal, o governo e a burocracia de outro.

A situação na esquerda argentina e a constituição da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores

Nas duas últimas eleições o PO se negou a participar da frente encabeçada pelo PTS e pela Izquierda Socialista (corrente ligada ã CST do Brasil), apesar dos nossos insistentes chamados, mas a correção desta política está se demonstrando agora. A constituição da FIT surge em primeiro lugar, como uma resposta defensiva. Foi aprovada uma legislação eleitoral proscritiva para a esquerda classista e revolucionária, que prevê um mínimo de 1,5% dos votos nas primárias partidárias obrigatórias que serão em agosto, para poder concorrer nas eleições presidenciais de outubro. Mas muito mais que isto esta frente constituída em base a independência de classe está se transformando num ponto de aglutinação para setores de intelectuais, estudantes e trabalhadores. O acordo a que chegaram expressa a defesa de uma política de independência de classe, de apoio ás lutas operárias, de luta em defesa dos direitos humanos contra a policia e as forças armadas, de luta contra a opressão sexual e ás mulheres, de denuncia do governo Kirchner e da política de conciliação de classe da centro esquerda e da burocracia sindical. Esta orientação da FIT permite não só aparecer a diversos setores de trabalhadores, da juventude e de intelectuais como de fato adotar uma campanha militante que seja um empurrão a organização política destes setores. Neste marco a discussão aberta e fraterna, das diferenças existentes entre os componentes da FIT, é um componente que ajuda a integrar a ampla rede de apoios que está sendo formada.

Um dos marcos da FIT é a entrada não só da esquerda organizada, mas também dos dirigentes operários da ocupação de fábrica de Zanon e do combativo sindicato ceramista, através da “Lista Marron” (agrupação que dirige o sindicato e a fábrica). Toda uma camada de dirigentes e ativistas operários que não são do PTS deram um passo além de sua exemplar experiência de controle operário que já dura dez anos. Começaram a ver a necessidade de se organizar politicamente para enfrentar de conjunto a burguesia, e vêm sua entrada nesta frente eleitoral como um passo tático nesta batalha estratégica.

É justamente com esta política que nossa organização irmã, o PTS, se orienta chamando todos os partidos que compõe a frente e ainda as organizações menores que se somaram a construir juntos comitês nos locais de trabalho e estudo. Concretizar uma campanha militante para expressar muito mais que eleitoralmente este espaço, expressar em organização estas experiências de luta política e independência de classe para que sejam um passo para a construção de um forte partido revolucionário baseado na classe trabalhadora e na juventude revolucionária.

Um debate com a esquerda brasileira a partir do exemplo da FIT

A FIT se coloca também como uma alternativa de esquerda classista e revolucionária em nível internacional. Entre as outras experiências da esquerda, como o NPA francês, o Respect Inglês, a Frente de Esquerda em Portugal, ou mesmo a Frente de Esquerda (que se formou no Brasil em 2006 e 2008), a FIT argentina é a única que não mistura os interesses dos trabalhadores com o de alguma variante burguesa ou reformista. Que coloca seu centro na organização dos trabalhadores, em aliança com a juventude e os intelectuais de esquerda, que proclama abertamente sua posição revolucionária. Com isso mostra que é possível participar das eleições burguesas sem abrir mão da estratégia da revolução operária e socialista.

Não que faltem na Argentina outras opções. No site do PSOL, não ã toa, podemos ler um artigo do MST, em que dizem que o Proyeto Sur de Pino Solanas “é a versão ’a la argentina’ de uma organização de novo tipo como o PSOL no Brasil e o NPA na França. Tem algo em comum com o que foi a Frente Ampla e o PT (brasileiro) em suas origens. É uma organização anti-imperialista e inimiga dos grandes grupos econômicos, com apelo forte democrático.”

Nenhuma surpresa. Os amigos argentinos do MES fazem na Argentina o mesmo que no Brasil. Lá é Pino Solanas, que primeiro iria ser o candidato a presidência como parte de um projeto mais amplo, mas que vai se lançar a prefeitura de Buenos Aires, onde acredita que tem chances de ganhar (até o fechamento dessa edição o site do PSOL estava desatualizado, chamando o apoio a Pino presidente). E se lança numa frente com o governador de Santa Fé, Hermes Binner, do mal chamado Partido Socialista, que participou da repressão ao movimento de massas em 2001, como parte da base de apoio do presidente De La Rua (UCR), que foi derrubado pelo movimento de massas. É esse senhor que o Proyeto Sur está buscando apoiar como presidente, enquanto o próprio Binner ainda negocia sua aliança com a decadente UCR.

Como diz a organização da LIT (página 5 do seu primeiro jornal), o PSTU/Argentina: “Pino Solanas também defende os interesses dos capitalistas. A tal ponto que ainda não descartaram entrar numa frente com radicalismo (UCR). É uma variante capitalista de centroesquerda: defende o pagamento da dívida externa, dizendo que é preciso investigá-la e não pagar sua parte fraudulenta; dizem que é preciso dar os recursos naturais aos capitalistas nacionais, e não ao controle dos trabalhadores; não luta contra a precarização, nem contra os fechamentos das fábricas.” Essas criticas caberiam integralmente ao PSOL no Brasil e como pergunta ao PSTU de porque sempre vota as mesmas propostas juntos do PSOL na CSP-Conlutas, como por exemplo implementar uma campanha pela auditoria da dívida ou pelo aumento do salário mínimo e não pelo salário mínimo do DIEESE.

A FIT demonstra que é possível a unidade entre diferentes organizações, a partir de um programa classista e revolucionário, sem limitar em nenhum aspecto a liberdade de critica e o debate público das diferenças. É o contrário do que faz o PSTU no Brasil, que se adapta sistematicamente ao PSOL, ao contrário de desmacarar a cada passo sua política de conciliação de classes, enquanto nega até mesmo a filiação democrática aos militantes da LER-QI, fazendo o jogo da lei eleitoral burguesa. As correntes do PSOL, como a CST, ou o PSTU, que fazem parte de correntes internacionais que na argentina integram a FIT, e não o Proyeto Sur de Pino Solanas, deveriam tirar todas as conclusões, pois é em função da política que as suas organizações vêm aplicando no Brasil, que carecemos de uma oportunidade como essa, de aglutinação da vanguarda e de debate com setores de massas, que se coloca hoje para a esquerda revolucionária argentina.

 

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