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Dilma, de visita nos Estados Unidos

Uma relação entre iguais?

13/04/2012

Um dos fatos de relevância desta semana foi a visita Dilma Rousseff, presidente do Brasil, aos Estados Unidos. Algumas expectativas se gerarm em torno ao encontro entre as duas principais economías do hemisfério, mas as agendas políticas finalmente geraram pouco entusiasmo.

Os dois mandatários mostraram-se de acordo em não tocar profundamente os temas mais controversiais, como as sanções ao Irã pelo seu programa nuclear e o repúdio ao regime sírio de Bashar-al-Asad.

Reconhecimento pelos serviços prestados

Dilma recebeu importantes elogíos. A secretária de Estado, Hillary Clinton, considerou que o Brasil "é um ator responsável". Além do tom menos confrontativo que o governo de Dilma tem demonstrado sobre tudo em temas sensíveis para os Estados Unidos, Obama reconheceu o papel importante que o Brasil vem cumprindo como aliado na América Latina. Como diz o jornal Folha.com, “foram ressaltados as ações conjuntas na América Latina, Caribe e África, demonstrando satisfação na estabilidade política do Haiti e no desenvolvimento de uma rede de monitoramento integrado do cultivo de folhas de coca na Bolívia.”.

De fato, Brasil tem liderado as tropas latinoamericanas de ocupação no Haiti, as Minustah, com as que tem conseguido impedir que exploda o descontentamento popular depois de anos de fraudes políticas e necessidades insatisfeitas da população, principalmente depois do terrível terremoto de 2010, e tem garantido certo grau de reorganização do regime imposto pelos imperialismos norteamericano e francês graças ã repressão.

Cumpriu tambiém um papel chave (junto ao resto dos presidentes da UNASUR) na estabilização do regime hondurenho logo do golpe cívico-militar que derrubou o presidente Manuel Zelaya e depois com o reconhecimento do ilegítimo governo de Porfírio Lobo.

Também vem sendo prestados importantes serviços ao governo pró-imperialista da Colombia, custodiando suas fronteiras, aportando helicópteros da Cruz Vermelha nos resgates de reféns, atuando como "mediador" confiável para Bogotá, deslocando por completo o Chávez.

Barganha comercial

Para Dilma a agenda comercial foi central. Acompanhada de uma importante comitiva de empresários de primeira linha, falou diante da Câmara de Comércio norteamericana, onde questionou o protecionismo que dificulta o ingresso de produtos brasileiros ao país do norte.

Dilma se queixou também do protecionismo monetário que impulsam os Estados Unidos e outras potências como o objetivo de melhorar a sua competitividade de forma artificial, desfavorecendo a dos países emergentes. Esta competência de moedas, que gerou atrito também entre os Estados Unidos e a China, é um dos importantes sintomas da crise econômica capitalista.

Se bem é mutuo o interesse por ampliar os 74 bilhões de dólares de intercâmbio comercial ao que chegaram em 2011, a realidade é que mais de 11 bilhões são deficitários para o Brasil. Sua taxa de crescimento está bem por baixo que o resto dos países da região e vem descendo nos últimos meses, o que podería mostrar a fragilidade de um esquema baseado no abuso das baixas taxas de interesse que gerou o "círculo virtuoso" da entrada de capitais, financiamento e crescimento dos últimos anos. Somado ã perspectiva da crise capitalista, isto motiva o questionamento ao protecionismo e ã desvalorização monetária encoberta dos Estados Unidos.

Um resultado bem popular

Um dos principais acordos da cúpula foi facilitar a obtenção de vistos para que os empresários brasileiros possam realizar suas viagens de negócios e férias nos Estados Unidos, para o qual conseguiu-se a instalação de dois novos consulados em importantes capitais do Brasil.

No tinteiro

A venda de aviões por cerca de trezentos e cinqüenta milhões de dólares que havía sido adjudicada ã brasileira Embraer e que retrocedeu para a proteção da indústria local irá novamente à licitação. Estados Unidos vem pressionando por uma definição em seu benefício na compra de 36 aviões pelo valor de 5 bilhões de dólares que estão em disputa entre a norte-americana Boeing, a francesa Dassault e a sueca Saab, no marco da modernização das Forças Armadas brasileiras, estimada em 35 bilhões de dólares nos próximos anos. Em compensação, Obama ofereceu um novo status beneficioso para a cachaça brasileira. Além disso, manifestaram a intenção de cooperação nas áreas aeronáutica e energética.

Para eles también há negócios

O setor privado norte-americano tem também interesses em jogo já que a realização da Copa e das Olimpíadas no Rio de Janeiro em 2014 e 2016 implicará investimentos, onde sua expectativa é obter frondosos contratos para a construção de infra-estrutura.

A isto se soma a outra coluna importante da cúpula, que esteve relacionada com a política de geração de dezenas de milhares de bolsas de estudo para a formação de profissionais em universidades de primeiro nível, com o suposto objetivo estratégico de elevar o nível dos recursos humanos do país. Além do acesso restringido, isto custará milhões de dólares ao erário público em benefício de universidades privadas fundamentalmente de países imperialistas e em detrimento da educação universitária pública brasileira, que já é de difícil acesso.

As grandes aspirações, pro bolso

Um assunto que podería ter sido objeto de controvérsia era a candidatura do Brasil a um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. O Brasil procura que seu destacado desempenho econômico, que o levou a ser a sexta economia do planeta, se traduza em reconhecimento político.

Porém, o apoio dos Estados Unidos se inclina para a India, outro país emergente cuja importância geopolitica eclipsa o menor tamanho de sua economía. Sua localização no olho da tormenta norte-americana, entre a China e o Paquistão, a foi transformando num aliado privilegiado entre os países emergentes.

Continuando com a lógica de "agenda pela positiva", o assundo ficou colocado em termos concensuados, como a necessidade de realizar mudanças "democráticas" no organismo.

Com amigos como este...

Outro assunto áspero pôde ser a participação de Cuba na próxima Cúpula das Américas, que será realizada na Colômbia no próximo final de semana. Apesar da retórica progressista, latino-americanista dos principais atores regionais, Dilma pôde lhe evitar qualquer custo político, e manifestou abstratamente seu respaldo mas adiantou que havia um concenso de que "esta seja a última Cúpula das Américas sem Cuba", poupândo-lhe ter que dar qualquer resposta.

O marco da cúpula

O Brasil vem ganhando notoriedade na arena mundial, atuando junto com a China, a Rússia a India e África do Sul para aproveitar a atual cojuntura de destempo enter a crise econômica nos países imperialistas e seu impacto nos países emergentes, buscando transformar as expectativas que sua economía vem gerando em vantagens na barganha com os países centrais. O baixo impacto do recente encontro dos BRICS expos os limites que estes países têm para se transformar num pólo político diante das potências imperialistas.

Os Estados Unidos, por sua vez, vem pilotando quatro anos de crise capitalista e encontra-se em plena campanha eleitoral. Tem importantes recursos de sua política exterior dirigidos ao Oriente Médi e norte da África, tentando realizar um retiro decoroso do Afeganistão, com a permanente tensão que supõe a ocupação da Palestina pelo Israel e onde a primavera árabe veio sacudir o tapete geopolítico. Neste marco, a importância da América Latina em sua política exterior é relativa. A estabilidade no seu "quintal", na que o Brasil tem um papel líder, é tranqüilizadora.

Perspectivas

Ao contrário do que pregou Dilma em sua visita, a relação entre os Estados Unidos e o Brasil não é uma relação "de igual a igual". Longe de ter uma política independente do imperialismo norte-americano, a liderança brasileira que segundo os progressistas ia ser um caminho ã América do Sul independente, capaz de colocar os seus próprios interesses no cenário internacional, mostrou-se falsa, pois o brasil é um fator chave de estabilidade na subordinação. Nesta medida, tenta tirar vantagem de seu servilismo enquanto a crise não pega de cheio.

Dilma governa para uma burguesia que está fazendo muitos bons negócios internacionalmente e que se desenvolveu graças ã exploração mais brutal dos trabalhadores da cidade e do campo, e não tem o menor interesse de levar adiante uma política independente. Por isso atuam como correia de transmissão da política norte-americana no conjunto da América Latina, mesmo que pela menor exposição dos Estados Unidos na região e sua decadência hegemônica tenha ganhado graus de autonomia que lhe permite barganhar as condições de domínio norte-americano. Ela é por tanto o oposto ao que precisamos os trabalhadores para tirarmos de cima o peso do imperialismo.

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