FT-CI

Economia

Summers, Yellen, Marx

28/02/2015

Summers, Yellen, Marx

A inversão como problema do capital e as questões de forma e conteúdo nas teses burguesas da “estagnação secular”. O discurso de Janet Yellen perante o senado norte americano. Os “tributos” reacionários.

Rebobinando alguns tantos anos, dos nossos dias até O Capital, é possível rastrear um conceito de autopoder explicativo para a realidade atual. Aqueles que destacam uma e outra vez as palavras de Marx que se referem ã discordância entre a forma e conteúdo. Encontrar a relação correta entre forma e conteúdo ou, dito em outros termos, compreender as leis do movimento da aparência, é o que permitiu a Marx superar os limites da economia política clássica.

Ora, Marx se ocupou em esclarecer – entre outras muitas coisas –, duas questões. A primeira delas é que as formas mais desenvolvidas permitem ao olhar científico elevar-se a uma compreensão superior não só das formas mais arcaicas, mas também, muito particularmente, da realidade presente. A segunda é que essas mesmas formas se encarregam de velar progressivamente o entendimento da realidade do olhar de um senso comum. Tanto este dualismo como a relação entre forma e conteúdo tornam-se sugestivos na hora de analisar fatores que se põem claramente em nossa contemporaneidade.

O investimento como problema

Dentro dos múltiplos movimentos que trazem a conjuntura de uma debilitada economia mundial, destaca-se a recuperação norte americana, não vigorosa, mas sustentável, frente a anemia europeia – com algumas desigualdades internas – e a debilidade japonesa. Sobressai-se também a crise russa - afogada pelas sanções, a queda do preço do petróleo e a guerra – assim como a ainda aberta discussão entre Grécia e a UE. Há que se ver em curto prazo a dinâmica da economia dos Estados Unidos pelo decréscimo de custos internos (salariais e energéticos) e prejudicada tanto pela dinâmica externa quanto pelo crescente fortalecimento do dólar.

Há muito coisa em jogo para Janet Yellen e para a economia norte-americana frente a um eventual aumento das taxas de juros ao longo do ano. Também há que se considerar os possíveis efeitos da queda aguda dos custos internos na Espanha e na Grécia, se finalmente o reacionário acordo com a UE terminar se consolidando. Sem embargo e mais além do curto prazo, as “questões de cursos” parecem ser insuficientes para reverter a situação econômica estrutural nos principais centros imperialistas. Com bom critério, Summers, Wolf e outros, colocam que as extremamente baixas – em termos históricos – taxas de juros que regem nos Estados Unidas, Europa e Japão, põem em evidência um excesso crônico do “arrocho” sobre o investimento. Em vários países centrais onde há taxas de juros de curto prazo resultam negativas em termos reais, o que na prática significa que os governos se vêm obrigados a prestar contas.

Em termos marxistas, esta situação significa que existe uma apropriação crescente de superávit que não se reverte produtivamente e que, portanto, não abona o processo de acumulação ampliada do capital. De fato, este problema é o núcleo duro das teses de estagnação secular.

Questões de conteúdo (ou certa sensatez burguesa)

De fato, um amplo espectro de teóricos e políticos econômicos da burguesia como Summers, Gordon, Eichengreen, Wolf, Davies, Krugman e outros mais afetados ás “causas nobres” como Piketty, já há algum tempo vêm colocando o problema do crescimento débil como grande dilema do capitalismo – focalizado fundamentalmente nos países centrais – e não só a partir da crise de 2008. Enquanto os distintos autores abordam o problema a partir de diversos ângulos, a maioria deles acaba verificando que o assunto central que explica este crescimento débil a longo prazo é um escasso investimento de capitais.

Alguns dos principais fundamentos dos autores consistem na diminuição do crescimento da produtividade, a redução de preço dos bens de capital, o declinante crescimento populacional, e por último o aumento da desigualdade como fator que opera debilitando a demanda.

Summers considera que estas dificuldades – que se evidenciaram durante os últimos anos -, resultam em realidade de longa data, ainda que as últimas décadas fossem mascaradas por um desenvolvimento financeiro insustentável. Daqui se depreende então a dicotomia “estagnação vs bolhas”, em que se debate o capital.

Tomando o primeiro termo da “equação” de Summers, a ideia de “estagnação secular” representa, caso se queira, uma “homenagem” que os teóricos da burguesia prestam ao marxismo, ao leninismo e em particular aos trotskistas, que há décadas nos mantivemos sustentando os limites – em sentido estratégico – da recuperação econômica capitalista que seguiu a crise da década de ‘70.

A recuperação da taxa de lucro que se produziu sob o neoliberalismo, assim como a reconquista da China e do leste europeu, resolveu apenas parcialmente e de uma maneira muito particular os problemas da acumulação de capital que se havia surgido naquela época. Retornando sobre a discordância entre forma e conteúdo enunciada no início, vale a pena remarcar que é o dilema do investimento ou nos obstáculos para a reprodução em escala ampliada do capital, de onde deve buscar-se os problemas de conteúdo, isto é, aqueles que afetam em nossos dias a produção de valor.

A forma (e as palavras de Janet)

Summers sustenta que sem as bolhas sucessivas dos anos ‘90 e 2000, o nível de crescimento econômico daquelas décadas haveria resultado “inadequado” como consequência da insuficiência tanto da demanda de investimento quanto do consumo.

Acontece que as “bolhas” especulativas – o segundo termo da equação de Summers -, constituem a forma particular e que se evidencia um conteúdo determinado de produção de valor, definido pelas dificuldades para a reprodução ampliada de capital.

Assim, a deslocalização da produção nos países centrais, a ida para regiões de alta valorização, a escassa acumulação como na China, a luta “incansável” pelo superávit absoluto com todas as expressões políticas dela derivadas, a liberação e internacionalização do capital, a reincidência de compra de ações entre as mesmas empresas como contratada dessa escassa acumulação ampliada, os créditos massivos ao consumo como novidade histórica – e como punção dos bancos sobre o superávit – entre outros vários aspectos, se encontram na base do modo cada vez mais enganoso em que o valor se apresenta através da forma de preço.

Dito de outro modo, a forma preço que habita nas massas de capital denominado fictício, se distancia cada vez mais de sua substância, o valor. E a propósito do mundo das formas e das aparências, a presidente do Federal Reserve acaba de enviar uma mensagem ao senado norte-americano. A palavra “paciência” se converteu no eixo dos editoriais de vários jornais do mundo. Assim como em um jogo infantil, Janet avisou que “tudo” depende do dia em que ela e a Reserva Federal retirarem a palavra “paciência”.

Neste dia, os “mercados” saberão que faltariam duas reuniões para que o Fed tome a decisão fatídica de aumentar as taxas de juro. A “videoeconomia” e as palavras atuam claramente sobre a conjuntura mexendo nas “expectativas” e, portanto, nos movimentos de superfície dos grandes capitais. Seria falso dizer que esta “economia vídeo”, não é real, mas o é em um grau impensável desde a ótica de poucas décadas atrás. E é nestas formas em que se apresenta tal conteúdo.

De fato a introdução no mercado de quantidades gigantescas de dinheiro (uma injeção de puros preços ou, como quiser, de pura forma, abusando um pouco dos termos) evitou que a crise de 2008 seguisse o curso da crise dos ‘30, ainda que claramente, sem resolver a fundo o assunto. Mas “o lobo” existe, a lei do valor ou a “regra” opera em última instância e assim acontece nas crises quando os preços das ações, dos derivados e de todo o tipo de ativos caem e se aproximam progressivamente aos valores.

A lei do valor ou o conteúdo apresentam-se então tal como se impõe a lei da gravidade – como diz Marx – quando a casa cai. A dicotomia “bolha vs estagnação” é em última instância expressão da relação específica entre forma e conteúdo do capital no nosso tempo presente.

“Homenagens”

Esta questão da forma e conteúdo recai sobre o que se designou “homenagem” da burguesia ao que por anos viemos sustentando desde o trotskismo.
A burguesia costuma fazer homenagens tardias e reacionárias de um tipo semelhante ao que dizia Lênin que os monopólios prestam ao socialismo. Chama a atenção que Piketty acabe reivindicando de fato – não intencionalmente, é claro – Rosa Luxemburgo há quase 100 anos de seu assassinato. É uma lástima que queiram nos seduzir com a ideia de que a mesma coisa que provocou guerras mundiais, revoluções, crises violentas e massacres, possa se resolver agora com um ou outro imposto.

Chama a atenção que Krugman, Summers e o próprio Piketty, entre outros, descubram justamente agora as virtuais propriedades “benéficas” das guerras. Não é uma novidade, já havia advertido Keynes em seu tempo. E, a propósito, Keynes prestou “homenagem” ã teoria de Lenin e Trotsky assimilando em grande parte (para seus fins, é claro) o conteúdo da época. A busca dos resultados da “guerra sem guerra” é, de fato, um paradoxo da teoria econômica burguesa.

Deriva da impossibilidade de compreender que um conteúdo tal se manifeste necessariamente sob esta forma. Este “desejo”, além de sua imagem “pacifista”, é profundamente reacionário. Em sua impossível intenção reformista em grande escala e longo prazo, em sua naturalização fanática do capitalismo, nega a verdadeira natureza do capital abrindo caminho finalmente ás guerras. Deriva em última instância da – sempre impossível – busca do conteúdo sem a forma.

É provável que esta desvinculação entre forma e conteúdo que invariavelmente leva os economistas – e lamentavelmente também, a grande parte da esquerda – a recriar fórmulas impotentes, tenha sua origem teórica na muito distante impossibilidade da economia política clássica de resolver o problema do valor, ainda que a esquerda havia colocado.

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