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Crise no governo de Alan García

Peru: entre mobilizações e jornadas de protesto

16/07/2009

No último dia 8 de julho em meio a uma jornada de protesto que incluiu paralisações de professores e de trabalhadores dos transportes, greves regionais com importantes adesão no interior do país, o primeiro-ministro peruano Yehude Simon apresentou sua renúncia. No dia seguinte o presidente Alan García anunciou a formação de um novo gabinete, o terceiro no seu mandato, com a intensão de por um freio aos protestos e garantir o rumo neoliberal de seu governo.

A mudança de gabinete se produz a um mês do massacre de Bagua no qual um violento operativo a mando do governo de Alan Garcia deixou o saldo de mais de 30 mortos, centenas de feridos e um número indeterminado de desparecidos.

O repúdio massivo ao massacre fez cair a popularidade do governo mais de 10 pontos em apenas um mês, atingindo uma média abaixo de 23%. Isso junto ao aumento dos conflitos sociais, a convocatória a novas mobilizações e jornadas de protesto como as da semana passada e os dados que mostram os primeiros efeitos da crise econômica no país, aceleraram a decisão da mudança ministerial.

Ainda que a queda do gabinete tenha se produzido em meio a esta situação convulsiva e de crise, a designação dos novos ministros parece responder ás necessidades do governo e da burguesia de garantir o rumo econômico, avançando para um maior ajuste e disciplinamento dos setores que estão lutando, frente a um cenário de anos de crescimento recorde.

As declarações de vários dos novos ministros já se encarregaram de deixar isso claro. O novo primeiro-ministro, Javier Velásquez, membro do governante partido aprista, homem de confiança de García e do ex-presidente do Congresso (uma das instituições mais desprestigiadas do país), aclarou que chega para fazer cumprir o “princípio de autoridade” e que se deve imopr “a constituição e a lei”em clara referência aos protestos que percorrem o país. Por sua vez, o novo ministro de Defesa declarou que o governo tem o dever de acabar com os bloqueios de ruas, enquanto que o ministro da Justiça disse que “trabalhará para impor a ordem”.

Para além das aspirações do governo de Alan García ainda está por ver-se se esta política pode resistir ao embate da crescente conflitividade que já soma mais de 300 conflitos e protestos abertos em todo o país num marco de um governo debilitado e com os efeitos da crise econômica no horizonte.

O fim do “milagre econômico” peruano?

O crescimento econômico recorde dos últimos anos se sustentou em um extraordinário fluxo de capitais em troca da entrega dos recursos do país ás transnacionais e um aumento da exploração dos trabalhadores cujos salários estão congelados há uma década, enquanto os lucros das empresas que operam no país cresceram acima dos lucros das 500 companhias mais importantes do mundo.

Este “milagre econômico” foi a base de sustentação do governo de Alan Garcia durante os últimos anos que apesar do aumento brutal da desigualdade social gerava ilusões em uma “distribuição” dos lucros da burguesia para os setores mais empobrecidos.

Este crescimento extraordinário é o que lhe permitiu ao governo manter uma política abertamente neoliberal enquanto que em nível regional aparecia como um aliado incondicional do imperialismo norte-americano, enfrentando- se aos governos da Venezuela e a Bolívia e avançando em um Tratado de Livre Comércio com os EUA que não significava mais que um salto na entrega e subordinação do país ao imperialismo.

Agora, os primeiros efeitos da crise econômica lançaram um sinal de alarme no governo e na burguesia peruana. Os prognósticos mais otimistas anunciam que o crescimento do PIB se contrairá até só 3%, que ainda que seja melhor que a média regional, se trata de uma queda brutal em comparação com o crescimento de 9,8% do ano passado. Se calculam em mais de 200.000 as demissões desde o início da crise, o que junto ã deterioração das condições de vida vem provocando um aumento da conflitividade social que mostra que o fim do “milagre econômico” peruano pode vir acompanhado de um aumento de um aumento exponencial das ações operárias, indígenas e camponesas.

Do masacre de Bagua ás jornadas de julho

Os trabalhadores indígenas, camponeses e o povo peruano vêm de protagonizar todo tipo de ações em resistência ã política econômica de Alan García.

ás greves gerais e jornadas de protesto dos últimos anos se somam os 60 dias de greve e bloqueios das comunidades indígenas, durante os últimos últimos meses, contra as chamadas “leis da selva” que pretendiam entregar as terras e os recursos naturais da Amazônia ás transnacionais. Estas ações que terminaram no massacre de Bagua em 5 de junho mostrando que o governo de Alan Garcia não tem problemas em utilizar os métodos de terrorismo de Estado, como já havia feito em seu governo anterior, provocaram uma indignação generalizada fazendo com que os protestos dessem um salto. As mobilizações massivas de 11 de junho que pediam a cabeça de Alan García, forçaram a burocracia sindical da CGTP a convocar uma jornada de protestos de 3 dias que se realizaram entre o 7 ao 9 de julho e terminaram com a mudança de gabinete da semana passada.

Ante a escalada de protestos todos os partidos burgueses de oposição sustentaram o regime e o governo de García, incluindo o movimento de Ollanta Humala que apesar de sua demagogia nacionalista só pediu uma mudança no gabinete e se negou a qualquer saída antecipada do governo, anunciando que sue projeto é se preparar para as eleições presidenciais de 2011.

Por sua vez, a CGTP e as principais organizações sindicais e de massas mantiveram uma política conciliadora, negando-se a unificar e desenvolver uma grande mobilização nacional para derrotar o governo. Nem sequer ante o massacre de Bagua chamaram a uma greve geral unificada, pelo contrário, trataram de diluí-la em jornadas de protesto nas quais a própria CGTP se encarregou de aclarar que não se tratava de uma greve.

Ninguém pode negar o ânimo e a disposição para a luta dos trabalhadores, comunidades indígenas e do povo peruano, mas a burocracia sindical e a oposição burguesa vem fazendo todo o possível para manter o governo de Alan García e o conjunto do regime. Projetos como o de Ollanta Humala não buscam mais que frear e desviar o processo de mobilizações em curso chamando ã calma até as eleições de 2011 para levá-los detrás de uma nova variante burguesa que terminará frustrando suas legítimas aspirações.

Mas o horizonte das próximas eleições parece cada vez mais longe e com o aprofundamento da crise econômica, a burguesia peruana aprofundará os ataques sobre os trabalhadores e o povo pobre.

Frente a este cenário é necessário avançar em um caminho independente das variantes burguesas e numa coordenação das lutas em curso para desenvolver um verdadeiro plano de luta nacional, que unifique as forças dos trabalhadores, camponeses e do povo pobre das regiões, para derrotar decisivamente a política do governo de Alan García, começando pela derrubada dos pacotes de leis que aprofundam a TLC (Tratado de Livre Comércio) com os EUA e pelo cumprimento das demandas indígenas e o pleno respeito a seu direito ã terra e ao território, contra as demissões, a precarização e a carestia de vida, pela nacionalização sem pagamento de indenizações e sob controle dos trabalhadores dos hidrocarbonetos, minérios, e de todos os recursos naturais.

Para que a crise seja paga pelos capitalistas é necessário que as próximas ações não fiquem isoladas e que os bloqueios, greves regionais e jornadas de protestos desemboquem numa greve geral de tempo indefinido na perspectiva de acabar com o governo de fome e repressão de García e abrir o caminho para uma saída operária, camponesa e popular.

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