FT-CI

A um ano de sua asunção

Obama frente ao desgaste de seu governo

29/01/2010

Há apenas um ano, mais de dois milhões de norte-americanos enchiam as ruas de Washington para presenciar a ascensão de Barack Obama, o primeiro presidente negro da historia do país. As expectativas na “mudança”, que havia prometido em sua campanha, eram enormes e sua popularidade rondava 80%, sobretudo entre os trabalhadores, os jovens e as minorias oprimidas.

No entanto, seu primeiro ano ã frente da Casa Branca foi suficiente para dissipar as ilusões de que o governo de Obama iria realizar um giro profundo com relação ás políticas neoliberais que são aplicadas desde a presidência de Reagan, e uma ruptura com a orientação guerreirista dos governos de Bush.

Na política interna, continuaram os resgates aos bancos e aos monopólios, e a reforma do sistema de saúde continua sem ser aprovada, apesar das enormes concessões de Obama ás exigências dos republicanos, dos democratas “moderados” e do lobby da indústria da saúde. Na política exterior, Obama continuou a política guerreirista de Bush: ordenou incrementar a presença militar no Afeganistão, que passará de 30.000 a 100.000 soldados, estendeu o conflito armado ao Paquistão e após o falido atentado do Natal em um vôo norte-americano, retomou a retórica da “guerra contra o terrorismo” e o “combate ã Al Qaeda”, que agora tem como alvo o Yemen.

A promessa de uma “relação de respeito” com a América Latina afundou com o apoio ao golpe de Estado em Honduras, com as sete novas bases militares na Colômbia e agora com a ocupação militar do Haiti, por trás do terremoto que destruiu o país.

Esta enorme desilusão se refletiu primeiro nas derrotas eleitorais que sofreram os democratas na Virginia, Nova Jersey e Nova York no fim do ano passado, e mais recentemente no triunfo republicano nas eleições especiais de Massachusetts, realizadas em 19 de janeiro para cobrir a bancada que por 47 anos o senador democrata Edward Kennedy, falecido em agosto de 2009, ocupou.

Com esta derrota, o Partido Democrata perdeu sua maioria de 60 senadores, o que o permitia controlar as leis, tornando impossíveis as manobras da oposição para impedi-los. Este resultado põe em questão a aprovação da reforma do sistema de saúde, um dos principais objetivos da agenda doméstica da administração Obama.

O já conhecido “efeito Massachusetts” aprofundou as divisões nas fileiras dos democratas e abriu a crise mais séria para Obama desde que assumiu a presidência, diante do temor de um triunfo republicano nas eleições de meio prazo que se realizarão no próximo novembro.

Descontentamento

O desgaste do governo de Obama, que tem o recorde de haver perdido em seu primeiro ano de gestão 30% do apoio com o qual havia assumido, se deve sobretudo ao descontentamento estendido entre amplos setores de assalariados e famílias de classe média baixa que perderam seus empregos, suas casas, ou que viram ser reduzido drasticamente seu nível de vida, como conseqüência da crise econômica que colocou o país na pior recessão desde a década de 1980, e que viram ser frustradas as suas expectativas depositadas nas promessas de mudança e de criação de emprego de Obama.

Apesar do fato de que nos últimos dois trimestres do ano passado a economia norte-americana registrou uma leve recuperação, pela primeira vez nos últimos 26 anos o desemprego superou 10%, e sobe para 17% se se levar em conta as pessoas sub-empregadas, com trabalho “part time” ou quem deixou de buscar emprego.

Longe das ilusões alentadas pelos setores progressistas do partido democrata de que Obama poria em marcha um tipo de New Deal, ou seja, uma política ativa de intervenção estatal para a criação de empregos, sua política foi manter a linha republicana de resgatar com dinheiro público os grandes bancos, os mesmos que contribuíram em grande medida para gerar a crise, demonstrando que seu governo está a serviço da oligarquia financeira de Wall Street. A indignação com esta política de salvamento dos ricos foi ainda maior quando os bancos que receberam dinheiro do programa de resgate estatal, conhecido como TARP, tornaram públicos os seus lucros e os títulos de milhões de dólares que pagaram aos seus executivos, enquanto cada vez mais norte-americanos passaram a depender dos vales de comida e outros programas de assistência.

No plano interno, o outro grande motivo de descontentamento é a reforma do sistema de saúde proposto por Obama, que ainda que nunca tenha chegado a ser uma prestação universal de saúde para os mais de 40 milhões que não tem nenhum tipo de proteção, começou como uma promessa para estender a cobertura da segurança social, o que incluía a prestação estatal para aqueles que não tivessem cobertura privada. No entanto, por trás das sucessivas negociações no Congresso -tanto com o bloco republicano como com a ala direita do partido democrata - terminou sendo um plano desenhado ã favor das grandes companhias de saúde e farmacêuticas, que obriga a todo indivíduo a contratar um plano de saúde privado caro e de má qualidade, não contempla a opção estatal e além disso, inclui um recorte importante no programa de assistência aos idosos, conhecido como Medicare. A reforma do sistema de saúde deu lugar a uma oposição de direita, organizada pelos republicanos, que chegaram a acusar Obama de “nazi” pela ingerência estatal na vida privada dos cidadãos, e a um descontentamento dos setores progressistas que viram como a administração democrata cedia ã agenda conservadora.

Enquanto os “progressistas”, que pediram confiança em Obama e nos setores liberais do Partido Democrata, estão em crise e continuam justificando seu apoio ao governo apesar de suas políticas guerreiristas, imperialistas e antipopulares; e a burocracia sindical da AFL-CIO segue negociando os cortes de emprego e salários com as patronais; surgiu uma oposição de direita com posições “populistas” contra o aumento de impostos e a ingerência estatal na atividade econômica que conta com uma ampla base social em setores da chamada “classe média”, na qual se insere desde operários brancos e assalariados até pequenos empresários. Os setores ativos deste populismo de direita estão organizados no movimento conhecido como “Tea Party”, que saiu à luz em abril de 2009 quando dezenas de milhares de pessoas se mobilizaram contra o aumento de impostos e o plano de resgate aos bancos, e depois o fizeram contra a reforma do sistema de saúde, dirigidos pela direita republicana e pelo canal de notícias Fox, com um programa baseado na defesa incondicional do livre mercado. Ainda que por hora seja capitalizado pela ala mais conservadora do partido republicano, não está descartado que este movimento busque uma expressão eleitoral própria disputando espaço com os republicanos.

Entre a retórica populista o ajuste fiscal

Obama acusou ter recebido uma mensagem das urnas em Massachusetts e optou por um giro a uma retórica “populista” para recuperar credibilidade nos setores mais castigados da sociedade norte-americana.

A somente dois dias da derrota eleitoral, reabilitou a iniciativa da reforma reguladora do sistema financeiro, com um discurso inflamado contra Wall Street e sua irresponsável especulação, seguido por um discurso sobre o emprego diante de um auditório operário em Ohio.

A reforma financeira proposta por Obama contempla certas restrições ao tamanho e ás atividades das instituições financeiras, como a proibição para os bancos comerciais de ter ou investir em fundos de cobertura ou fundos privados, a criação de um organismo para supervisar o grau de “risco sistêmico” que podem causar certas instituições, um imposto extra para reembolsar os fundos da ajuda estatal e uma garantia federal para os depósitos.

Mas por mais que sustente o seu discurso e suas denúncias ã “busca por lucros fáceis” dos banqueiros, a postura “anti-Wall Street” de Obama carece de toda credibilidade. Em primeiro lugar, esta reforma foi idealizada nada menos que por Paul Volcker, o chefe do Banco Central norte-americano nos governos de Carter e Reagan que produziu uma profunda recessão e a taxa mais alta de desemprego do pós-guerra até esta crise, com o aumento da taxa de lucro no começo dos anos 80. Além disso, a equipe econômica de Obama está integrada por ex-membros de direções de grandes bancos de investimento como Goldman Sachs e ex-funcionários do governo de Clinton, como Larry Summers, que foram os arquitetos da desregulamentação financeira das últimas décadas. Obama apoiou o plano de resgate dos grandes bancos sob o governo de Bush e agora o justifica dizendo que o povo norte-americano se viu obrigado a resgatar os milionários de Wall Street com dinheiro público para evitar cair em uma “segunda Grande Depressão”. E ainda que agora diga que é necessário limitar o tamanho dos bancos para que “o povo norte-americano não seja refém das instituições extremamente grandes para quebrar”, sob seu governo continuou a enorme concentração bancária como produto da crise, iniciada por Bush. Assim, o JP Morgan Chase se juntou ao Bear Stearns e ao Washington Mutual por um preço irrisório, enquanto o Bank of America comprou o Merrill Lynch. Como resultado, os quatro principais bancos concentram quase 40% dos depósitos.

Apesar do anúncio ter sido mal recebido por Wall Street e pelos bancos estrangeiros que operam no país, já que não está claro se são abarcados pelas novas normas, a reforma não afeta os grandes ganhadores da crise, e além disso provavelmente seus aspetos mais “reguladores” sejam limados durante a discussão parlamentar.

Este suposto giro “populista” tem sua contra-cara na proposta de Obama de congelar o gasto durante três anos, excetuando os gastos de defesa e segurança nacional, o que implica a redução ou a eliminação de programas sociais, respondendo ás preocupações de republicanos, democratas conservadores e setores burgueses pela avultante dívida estatal.

Esta foi a essência da política interna anunciada no discurso sobre o Estado da União, no qual Obama pretendeu combinar a promessa “populista” de criação de emprego com a política conservadora da “responsabilidade fiscal” e a garantia dos lucros capitalistas.

Os trabalhadores, os jovens, a comunidade negra, os imigrantes e os setores populares que “acreditaram na mudança” já fizeram uma primeira experiência com o governo de Obama. O que está colocado é que avancem ã sua independência política dos dois partidos da burguesia imperialista norte-americana.

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