FT-CI

Brasil

O Brasil alcança o sexto lugar na economia mundial, posto que já era seu a muito tempo em violência urbana, acidentes de trabalho...

08/01/2012

Nos últimos dias de 2011 o jornal britânico The Guardian publicou uma notícia onde afirmava que a economia brasileira, em termos de seu Produto Interno Bruto (PIB) havia ultrapassado a britânica. Esta notícia ganhou a capa de jornais em todo o Brasil e lugar destacado em vários jornais de todo o mundo. A presidente Dilma também aproveitou a ocasião para fazer declarações de rádio do sucesso do “modelo brasileiro” e na voz de Guido Mantega, poderoso ministro da área econômica, afirmava que em 10 ou 20 anos o Brasil não só teria se consolidado como quinta maior economia do mundo (ultrapassando a França e a Alemanha, mas sendo ultrapassado pela Índia) como alcançaria um padrão de vida europeu.

Não há nada mais longe da realidade do que as declarações de Mantega sobre o “padrão de vida europeu” (salvo se estiver falando em alcançar uma Grécia onde vai crescendo a pobreza e a fome). No entanto para mostrar sua falácia é preciso primeiro reconhecer o notável crescimento econômico dos últimos anos, para, feito isto, mostrar as bases instáveis sobre as quais se constrói e, como este crescimento econômico não tem nada a ver com um desenvolvimento social e humano. O Brasil segue sendo um país profundamente desigual, muito menos industrializado que os Europeus e seu desenvolvimento técnico e científico - muito mais ainda social - fica terrivelmente aquém da comparação que o governo Dilma pretende fazer.

Um notável crescimento – notavelmente dependente de capitais estrangeiros, exportações a China e endividamento dos trabalhadores

2011, segundo as projeções da maior parte dos analistas que colocam o crescimento do PIB do país em 2,8%, será o primeiro ano desde 2004 que o país crescerá menos que a média mundial. Nos anos anteriores, incluída a recessão de 2009 (menor que a média mundial) o país destoou do mundo, crescendo notáveis 7,5% em 2010 – nível absolutos que não se alcançava desde 1986. O PIB per capita (o PIB dividido pela população) nunca cresceu a estes espantosos 6,5% ao ano salvo alguns anos do “milagre brasileiro” durante os anos de 70-74. O nível de desemprego, oficialmente em 5,2% nunca esteve tão baixo, o acesso ao crédito e ao consumo nunca estiveram tão fáceis não só ã classe média tradicional e aos trabalhadores qualificados, mas a todo um estendido setor da classe trabalhadora precária e terceirizada, chamados ideologicamente pelos analistas nacionais de “nova classe média”[1].

A venda de automóveis ultrapassou a alguns anos a marca dos três milhões de carros e tem rondado a casa dos 3,7 milhões[2]. O real valorizado tem feito setores da classe trabalhadora realizar viagens nacionais e internacionais. Todo um boom de consumo. E com ele expectativas reformistas, de melhoras graduais na situação econômica e pessoal – linha condizente com o discurso do governo e da burocracia sindical, e algumas medidas de valorização do salário mínimo e um pacto social que tem garantido todos os anos aumentos salariais ligeiramente acima da inflação (mas notavelmente abaixo dos ganhos de produtividade do capital).

Debaixo dos holofotes destes dados e dos anúncios de sexta maior economia mundial escondem-se as condições econômicas e sociais que lhes permitem ocorrer. 2011, como outros anos recentes, o crescimento esteve puxado sobretudo pelo consumo das famílias, que estima-se que tenha expandido em 4,2%. Esta contribuição sozinha garantiu 2,5% dos 2,8% da expansão do PIB segundo a Confederação Nacional da Indústria. Este consumo por sua vez é altamente dependente do crescente endividamento das pessoas. A expansão do crédito as pessoas físicas diminuiu fortemente em 2011 comparado com 2010, ficando em “somente” um crescimento de 13,9% (frente aos 22% que acumulava até fevereiro de 2011)[3]. Mesmo com esta queda o endividamento está crescendo em um ritmo 5 vezes maior que a economia.

A capacidade dos trabalhadores se endividarem por sua vez é dependente da expansão do emprego (o que segue ocorrendo mas mês a mês em ritmos menores). E a economia como um todo, e sua capacidade de empregar trabalhadores, é cada vez mais dependente das exportações de produtos primários e do comércio e serviços para esta classe trabalhadora endividada.

Este ano de 2011 também bateu-se um novo Record em exportações (US$ 256 bilhões) e em saldo comercial (US$ 29,8 bilhões), porém 88% do aumento nas exportações está explicado pelo aumento no preço das commodities exportadas como a soja e o minério de ferro[4]. Matérias primas com escasso valor agregado, que escancaram que, na “nova” divisão internacional do trabalho, a sexta economia mundial descansa sobre a primarização de sua economia, retrocedendo inclusive na participação percentual dos produtos manufaturados exportados ao que fora alcançado nos anos de industrialização pós 1950-60.

As contas nacionais quando se consideram também os serviços avultam um déficit de mais de 2,5% do PIB que só é fechado com a entrada de capitais, fazendo toda a economia depender de uns 60 bilhões de dólares de capital estrangeiro ano a ano para as contas fecharem sem aumentar o endividamento do país (para 2012 os analistas prevêem um déficit de US$ 65 bilhões).

Sob previsíveis impactos da crise capitalista mundial é difícil esperar a continuidade destes fatores, seja porque uma menor demanda chinesa derrubaria o preço das commodities, como também diminuiria o fluxo de capitais sob o impacto da crise na Europa, deste modo as contas externas bem como o valor do real serão golpeados e bases do “modelo brasileiro” que Dilma exalta estarão abalados. Quão mais agudos forem os próximos passos na crise mundial mais sincrônica será a resposta na economia brasileira, como foi nos primeiros meses de 2009 com a expressiva queda na indústria de mais de 10% e concomitante queda no emprego.

Um crescimento baseado no trabalho precário e na continuidade das terríveis situações de vida da classe trabalhadora

Ao contrário do discurso oficial o crescimento econômico do país mostra como este se apóia nas condições estruturais de trabalho e vida precárias no país. Antes de ostentar a marca de sexta economia do mundo, o país também já detinha a sexta maior marca de assassinatos por habitantes fruto da violência policial, que é responsável nas estatísticas oficiais - muito aquém da realidade - por um quinto dos assassinatos [5] e já era o terceiro colocado em acidentes de trabalho: a cada 30 minutos um trabalhador morre ou tem uma lesão permanente nos campos, fábricas e canteiros de obras (ou 2.712 óbitos e 14.097 lesões com incapacidades permanentes, nos dados oficiais)[6].

Com todo o crescimento lulista a média salarial (simples, ignorando as desigualdades de classe, raça, gênero e regionais) é de pouco mais de R$ 1650 (US$ 903)[7]. O salário mínimo oficial agora aumentado para R$ 622 (US$ 340) encontra-se muito abaixo de qualquer padrão europeu (o menor salário mínimo europeu é o português de 485 euros, ou cerca de R$ 1155) e mal ultrapassando um quarto do que calcula-se que é necessário para uma família viver (R$ 2349 – US$ 1286 – segundo o DIEESE).

O crescimento do emprego é baseado na rotatividade do trabalho. Todo ano dezenas de milhões de trabalhadores trocam de emprego. Segundo o DIEESE 53% dos trabalhadores registrados trocam de emprego todo o ano. Esta rotatividade herdada das reformas trabalhistas da ditadura segue vigente e é voltada contra os trabalhadores. Em 2010, último ano com estatísticas disponíveis, cada trabalhador admitido recebia em média 7,5% a menos que um trabalhador demitido. A terceirização, rotatividade do trabalho, trabalho precário e perigoso se apóiam em altíssimos índices de trabalho dito “informal” (sem registro, direitos) onde cerca de 48% da população economicamente ativa não tem nenhuma registro.

Esta continuidade de salários de miséria, mesmo com o aumento do emprego e ligeiros aumentos salariais acima da inflação nos governo Lula e Dilma são uma expressão da imensa desigualdade do país de um desenvolvimento capitalista baseado no trabalho precário, herdeiro da escravidão e do latifúndio. Baseado em dados do IBGE e análises do Le Monde Diplomatique (Ano 5, n. 53) é possível chegar a impressionante pirâmide de renda do Brasil retratada abaixo.

É com estes “handicaps” que a burguesia brasileira comemora seus dados econômicos e sua sexta economia mundial. Aos trabalhadores resta para depois do trabalho precário, terceirizado e rotativo outras continuidades de um Brasil que nada tem de desenvolvimento social europeu. Nas estatísticas oficiais do IBGE somente 11,4 milhões de pessoas (ou 6% da população) vive em favelas. Diversas favelas famosas de todo o país, como o Dona Marta no Rio de Janeiro, palco para a primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) sequer constam como favelas. Porém com os métodos que queiram para ocultar a moradia precária, ano a ano milhares de trabalhadores são afetados por tragédias naturais relacionadas a moradia precária, especulação imobiliária e um desenvolvimento urbano para favorecer os lucros capitalistas.

Mal passado um ano da tragédia que ceifou mais 900 vidas na região serrana do Rio de Janeiro a mesma região volta a ter bairros ilhados e pessoas deslocadas e em Minas Gerais diversas cidades estão isoladas, pessoas desaparecidas.

Sob os olhos de todos, o mesmo país que avança em suas estatísticas de crescimento do PIB, emprego e consumo, é um país que vai reproduzindo o trabalho precário, a moradia precária e outras desigualdades inerentes do capitalismo no Brasil herdeiro da dependência do capital estrangeiro, do latifúndio e da escravidão.


Notas

[1] Dados extraídos do site do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e da Confederação Nacional da Indústria (CNI).

[2] Dados da Carta 307 da ANFAVEA (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores), disponível em seu site.

[3] “Economia Brasileira”, ano 27, n.4, publicação da CNI, disponível em seu site.

[4] idem

[5] O Globo, 30/12/2011

[6] Anuário Estatístico de Acidentes de Trabalho do INSS, 2010. Disponível em seu site.

[7] Todas cotações de dólar e euros referem-se ás 10hs do dia 04/01/12

Notas relacionadas

No hay comentarios a esta nota

Jornais

  • EDITORIAL

    PTS (Argentina)

  • Actualidad Nacional

    MTS (México)

  • EDITORIAL

    LTS (Venezuela)

  • DOSSIER : Leur démocratie et la nôtre

    CCR NPA (Francia)

  • ContraCorriente Nro42 Suplemento Especial

    Clase contra Clase (Estado Español)

  • Movimento Operário

    MRT (Brasil)

  • LOR-CI (Bolivia) Bolivia Liga Obrera Revolucionaria - Cuarta Internacional Palabra Obrera Abril-Mayo Año 2014 

Ante la entrega de nuestros sindicatos al gobierno

1° de Mayo

Reagrupar y defender la independencia política de los trabajadores Abril-Mayo de 2014 Por derecha y por izquierda

La proimperialista Ley Minera del MAS en la picota

    LOR-CI (Bolivia)

  • PTR (Chile) chile Partido de Trabajadores Revolucionarios Clase contra Clase 

En las recientes elecciones presidenciales, Bachelet alcanzó el 47% de los votos, y Matthei el 25%: deberán pasar a segunda vuelta. La participación electoral fue de solo el 50%. La votación de Bachelet, representa apenas el 22% del total de votantes. 

¿Pero se podrá avanzar en las reformas (cosméticas) anunciadas en su programa? Y en caso de poder hacerlo, ¿serán tales como se esperan en “la calle”? Editorial El Gobierno, el Parlamento y la calle

    PTR (Chile)

  • RIO (Alemania) RIO (Alemania) Revolutionäre Internationalistische Organisation Klasse gegen Klasse 

Nieder mit der EU des Kapitals!

Die Europäische Union präsentiert sich als Vereinigung Europas. Doch diese imperialistische Allianz hilft dem deutschen Kapital, andere Teile Europas und der Welt zu unterwerfen. MarxistInnen kämpfen für die Vereinigten Sozialistischen Staaten von Europa! 

Widerstand im Spanischen Staat 

Am 15. Mai 2011 begannen Jugendliche im Spanischen Staat, öffentliche Plätze zu besetzen. Drei Jahre später, am 22. März 2014, demonstrierten Hunderttausende in Madrid. Was hat sich in diesen drei Jahren verändert? Editorial Nieder mit der EU des Kapitals!

    RIO (Alemania)

  • Liga de la Revolución Socialista (LRS - Costa Rica) Costa Rica LRS En Clave Revolucionaria Noviembre Año 2013 N° 25 

Los cuatro años de gobierno de Laura Chinchilla han estado marcados por la retórica “nacionalista” en relación a Nicaragua: en la primera parte de su mandato prácticamente todo su “plan de gobierno” se centró en la “defensa” de la llamada Isla Calero, para posteriormente, en la etapa final de su administración, centrar su discurso en la “defensa” del conjunto de la provincia de Guanacaste que reclama el gobierno de Daniel Ortega como propia. Solo los abundantes escándalos de corrupción, relacionados con la Autopista San José-Caldera, los casos de ministros que no pagaban impuestos, así como el robo a mansalva durante los trabajos de construcción de la Trocha Fronteriza 1856 le pusieron límite a la retórica del equipo de gobierno, que claramente apostó a rivalizar con el vecino país del norte para encubrir sus negocios al amparo del Estado. martes, 19 de noviembre de 2013 Chovinismo y militarismo en Costa Rica bajo el paraguas del conflicto fronterizo con Nicaragua

    Liga de la Revolución Socialista (LRS - Costa Rica)

  • Grupo de la FT-CI (Uruguay) Uruguay Grupo de la FT-CI Estrategia Revolucionaria 

El año que termina estuvo signado por la mayor conflictividad laboral en más de 15 años. Si bien finalmente la mayoría de los grupos en la negociación salarial parecen llegar a un acuerdo (aún falta cerrar metalúrgicos y otros menos importantes), los mismos son un buen final para el gobierno, ya que, gracias a sus maniobras (y las de la burocracia sindical) pudieron encausar la discusión dentro de los marcos del tope salarial estipulado por el Poder Ejecutivo, utilizando la movilización controlada en los marcos salariales como factor de presión ante las patronales más duras que pujaban por el “0%” de aumento. Entre la lucha de clases, la represión, y las discusiones de los de arriba Construyamos una alternativa revolucionaria para los trabajadores y la juventud

    Grupo de la FT-CI (Uruguay)