FT-CI

Mitos e realidade da China atual

01/09/2004

O extraordinário crescimento sustentado da economia chinesa por mais de duas décadas é, sem lugar a dúvidas, uma das maiores transformações da economia e da politica internacional. Seu desenvolvimento econômico, utilizando como “vantagem comparativa” enormes reservas de mão de obra barata, a converteu num centro, por excelência, da produção manufatureira a nível mundial, sendo considerada como a “oficina do mundo” como se denominava a Inglaterra depois da Revolução Industrial. No ano passado, esses êxitos e o espetacular aumento de suas importações, que cresceram em 40% ao longo do ano, converteram-na em um dos dois motores da re-cuperação da economia mundial marcando decididamente a emergência da China como um ator a levar em conta no cenário internacional.

Tais resultados deram lugar a todo tipo de especulações e prognósticos sobre o futuro. Os mais otimistas a apontam como a futura potência hegemônica do século XXI baseados em que seu desenvolvimento econômico e abundante população, lhe permitiriam repetir uma irrupção tão extraordinária como a dos Estados Unidos a mea-dos do século XIX. Outros arriscam que a China pode se converter no novo “El-dorado” da economia mundial capitalista, abrindo para ela um novo auge expansivo.

Nesta nota vamos discutir estas perspectivas demonstrando como o atual “milagre chinês” não contradiz a tese marxista sobre a impossibilidade das economias de-pendentes transformarem-se em novas potências capitalistas competidoras numa economia mundial dominada pelos grandes países imperialistas e suas transnacionais. Ainda que não se possa descartar a potencialidade da China para atuar como pulmão de uma nova divisão do trabalho da economia mundial, este processo encontra-se ainda em seus estágios iniciais e está submetido a enormes desafios tanto externos como internos que fazem da possibilidade de fortes estalos e convulsões uma alternativa altamente plausível. Em outras palavras, que a complexidade de seus pro-blemas sociais e econômicos e a resistência ã mudança política podem desviar seu curso ascendente e dar lugar a uma China totalmente distinta da que o Ocidente co-nheceu nas últimas décadas e que retorne ao padrão de instabilidade que esse país conheceu durante a maior parte do século XX.

Capítulo I

As vantagens do atraso

Só é possível entender o desenvolvimento da China tomando em conta que se trata tanto de uma economia atrasada, que compartilha toda uma série de problemas similares aos de muitos países semicoloniais da América Latina, como uma economia em transição de uma planificação burocrática ao capitalismo, processo similar ao de todos os ex-Estados operários deformados e degenerados. È esta combinação de processos que faz da China, ademais de sua população de 1,3 bilhões de pessoas e de seu vasto território, um caso excepcional nos processos de restauração capitalista que sacudiram aos chamados ex-países comunistas.

Temos aqui um paradoxo: no marco do retrocesso histórico representado pela restauração capitalista, a economia tem se beneficiado - contraditoriamente - com as “vantagens do atraso”, que lhe permitiram um importante desenvolvimento ainda que desigual e dependente, ao contrário da Rússia e dos países do leste europeu onde, desde o início, a volta atrás de um modo de produção superior significou ape-nas a mais brutal destruição de forças produtivas e um enorme retrocesso econômico, social e cultural. Não se trata de que esse último processo não se dê na China, mas sim que ele é ocultado e compensado em termos globais, ou melhor ainda con-trabalançado momentaneamente, pelo fenomenal processo de industrialização. Isto é o que afirma o economista chinês Fan Gang:

Na realidade, a natureza excepcional do caso chinês - a imbricação dos pro-blemas econômicos de um país em desenvolvimento e de um país em tran-sição - é a fonte de suas dificuldades, mas também a razão pela qual a China é capaz de levar adiante suas reformas constantemente e manter o crescimento. As economias da Rússia e da Europa do Leste eram altamente industrializadas e altamente nacionalizadas quando as reformas começaram, mais de 90% de sua população eram trabalhadores em empresas de propriedade estatal e 100% deles desfrutavam de benefícios sociais. Na China no início das reformas, 80% da população trabalhava na agricultura. Era basicamente uma sociedade agrícola naquele tempo, com um produto interno bruto per capita de apenas 100 dólares estadunidenses. Menos de 20% do povo gozava de benefícios sociais... À medida que a China não era uma economia altamente industrializada ou nacionalizada, foi muito mais fácil proceder com as reformas e proporcionar um crescimento na renda e na economia de conjunto, reestruturar ao mesmo tempo em que se desenvolvia.1


Êxitos econômicos fenomenais...

Desde que iniciou suas reformas em 1978 o progresso da economia chinesa tem sido extraordinário. Nos últimos 25 anos seu produto interno bruto se expandiu a 9% por ano, o crescimento de seu comércio exterior cresceu 15% ao ano desde 1978 e o superávit comercial com os Estados Unidos é agora duas vezes o do Japão. Tudo is-so é uma mostra da maior integração da economia chinesa ã economia mundial, sendo hoje a sexta economia do mundo com um PNB de 1, 4 trilhões de dólares. Uma mostra disso foi que em 2002, Shennzhen superou a Roterdã e Los Angeles, con-vertendo-se no sexto porto do mundo.

O excepcional desenvolvimento industrial tem levado muitos analistas a denominá-la como “nova oficina do mundo”. Assim, o Financial Times sustenta:

Hoje, as cidades florescentes do delta do rio Pearl na China converteram-se na nova oficina do mundo. Shunde se auto-intitula a capital do forno de mi-croondas, com 40% da produção global que se realiza em apenas uma de suas fábricas gigantes. Shennzhen, a zona econômica especial, diz fabricar 70% das fotocopiadoras do mundo e 80% das árvores de natal artificiais, Dongguan tem 80 mil pessoas trabalhando numa só fábrica fazendo sapatos para os ado-lescentes do mundo. Zhongshan é o lar da indústria de eletricidade mundial. Zhuhai, até há pouco uma cidade costeira rodeada de campos de arrozais, está ganhando terra ao oceano para fazer mais espaço para fábricas que já dominam a cadeia global de qualquer coisa desde consoles de videogames a clubes de golfe.2

E mais adiante o mesmo artigo agrega:

O delta do rio Pearl - uma área do tamanho da Bélgica que contorna o interior de exportações e Hong Kong através de uma série apertada de ilhas - produz 10 bilhões de dólares de exportações e atrai um bilhão de investimento estrangeiro ao mês. 30 milhões de pessoas já trabalham aqui na manufatura, todos os dias milhares mais descem dos trens vindos de terras mais ao norte. Assim como Friedrich Engels escre-veu que ‘a arte moderna da manufatura alcançava sua perfeição na Manchester de 1845’, também as multinacionais do mundo estão levando suas técnicas mais avan-çadas de produção para tirar vantagem da força de trabalho barata e dos baixos cus-tos no último grande estado comunista do mundo. As reluzentes fachadas da Mi-crosoft, BP, Honda ou General Electric tiram todo sentido do estereótipo de que a China não exporta nada além de brinquedinhos de plástico.

A base desse desenvolvimento está em que a penetração do capital estrangeiro usufruiu a desigualdade entre a economia mundial e o nível atrasado da China. Nas palavras de um economista da Morgan Stanley:

As brechas entre a China e as economias desenvolvidas com relação ã pro-dutividade do trabalho e ã riqueza estão se expressando através de uma rápi-da relocalização das economias maduras em direção ã China, e o conseqüente crescimento rápido das exportações.3

O motor fundamental são os baixos salários, como se pode perceber no seguinte exemplo que compara as condições do processo de produção fabril de sapatos e sa-patilhas da Dr. Martens em Northampton, uma região tradicional da Inglaterra, acos-tumada a ser sinônimo da indústria de calçado, com a produção chinesa nas em-presas de Pou Chen, companhias taiwanesas que se mudaram para o continente para tirar vantagem dos custos trabalhistas mais baixos. O Financial Times afirma:

As plantas de Pou Chen, uma em Zhuhai e outra em Dongguan, empregam 110 mil pessoas e produzem em série 100 milhões de pares de sapatos ao ano para Nike, Adidas, Caterpillar, Timberland, Hush Puppy, Reebok, Puma e outras. A produção a esta escala requer construções que teriam desafiado aos mais ambiciosos proprietários de Lancashire durante a revolução industrial inglesa. Dezenas de milhares de jovens mulheres contratados de todo o campo chinês trabalham em barulhentas linhas de produção que serpenteiam por uma série de grandes edifícios de cinco andares. A fábrica da Dr. Martens em North-ampton usa pequenos grupos de trabalhadores montando sapatos completos para reduzir os custos de inventário. Pou Chen usa técnicas de produção em massa pouco mudadas desde os tempos de Henry Ford. A Dr. Martens paga a seus 1.100 trabalhadores do Reino Unido cerca de US$ 490 por semana e construiu um estádio para o clube de futebol local. Pou Chen paga ao redor de 800 renminbi (US$ 100) ao mês, ou 36 centavos por hora, para mais de 69 horas por semana e provê dormitórios para os trabalhadores imigrantes que deve obedecer a estritos toques de recolher.

O enorme excedente em mão de obra e o baixo nível de riqueza permitem uma fonte que pareceria inesgotável para novas áreas de extensão do capital, que pres-sionado pela competição e pela forte redução das margens de rentabilidade, tem uma insaciável sede de salários mais baixos ainda que os baixos salários do sul da China, que é o que explica a relocalização interna de muitas firmas no interior da China con-tinental onde o valor da força de trabalho é de 30 a 50% menor que no caso do delta do rio Pearl que nomeamos.

O capital internacional está usufruindo as bondades de uma força de trabalho de um nível de qualidade e de dedicação que dificilmente se encontram em outro lugar. Isto é produto de uma nova força de trabalho, moldada numa economia agrícola intensiva, resultado de um balanço desfavorável entre a superpopulação humana e a existência de terra que preparou os músculos de milhões de camponês que agora migram para as cidades para submeter-se ã exploração do capital4. É uma espécie, poderíamos dizer, de renda diferencial, não da terra mas da força de trabalho, com a qual o capital internacional se encontra e tira proveito não só da intensidade como também da oferta quase inesgotável de força de trabalho. Este último fator permite evitar a inflação salarial ao contrário de outras economias agrícolas atrasadas que se industrializaram como é o caso de Cingapura, Malásia e outras economias do sudeste asiático, o que outorga ao fenômeno não um caráter passageiro mas sim de mais lon-ga duração que em relocalizações prévias do capital partindo dos Estados Unidos ou do Japão para essa região do globo, cujos ciclos duravam ao redor de 10 anos.

...porém, unilaterais e insustentáveis a longo prazo

Não há dúvida sobre o caráter espetacular do crescimento chinês nas últimas décadas, sobretudo desde o começo dos anos 90. Porém esse crescimento explosivo deu lugar ao mesmo tempo a um desenvolvimento unilateral, arriscado e insustentável a longo prazo. Não apenas ele exacerbou o risco de superinvestimento em muitas áreas, como o nível de subutilização do capital é enorme, somente sustentável no curto prazo como conseqüência de uma exploração desenfreada dos recursos naturais da China ã custa de hipotecá-los para as futuras gerações.

Em outras palavras. Pode-se conjeturar, e apesar das diferenças, que esta busca “voluntarista” de crescimento econômico a todo custo pela direção do Partido Co-munista Chinês (PCCh), com o objetivo de manter sua legitimidade, poderia terminar num novo “Grande Salto para Frente”5 - ainda que com uma orientação ideológica oposta - ou seja, num fracasso econômico estrepitoso com enormes conseqüências sociais e políticas. Essa é a grande questão do “milagre econômico chinês”, que angustia também ã atual quarta geração de líderes do PCCh, que sob o novo governo de Hu Jintao, pôs mais ênfase e esforços em equilibrar e consolidar o desenvolvimento.

Uma mostra disso é que durante 2003 o crescimento do investimento capitalista fixo atingiu o índice espetacular de 30%, dando conta de 47% do PNB. Segundo a revista The Economist, citando dois técnicos do FMI, Paul Heytens e Harm Zebregs,

[...] três quartos do crescimento chinês provêem da acumulação de capital, apesar de que o fator total de produtividade - uma medida da eficiência econômica - cresceu apenas dois por cento ao ano entre 1995-99. Mesmo para uma economia em desenvolvimento, o nível de investimento na China é excepcionalmente alto. A Coréia do Sul em seu período de rápido crescimento nos anos 1970 e 1980 tinha altos níveis de investimentos próximos a 25% do PNB. Mas a maior preocupação é que o crescimento da China é assombro-samente desperdiçador. Enquanto nos anos 80 e 90 custava de US$ 2 a US$ 3 de novo investimento para produzir |US$ 1 de crescimento adicional, agora são necessários mais de US$ 4. Mesmo a Índia, muitas vezes comparada ã China de maneira desfavorável, é agora mais eficiente em tal medida; apenas uma alta taxa de poupança doméstica - ao redor de 40% da renda dos lares - e a incontrolável exploração de seus recursos naturais pode permitir ã China gastar capital em tal escala. Porém tampouco isso é sustentável. Com a pouca oferta de previdência social por parte do Estado, os chineses necessitam poupar para assegurar-se a si mesmo. E a degradação ambiental e a poluição nociva são custos que estão se armazenando para o futuro.6

Se estes dados são confiáveis, a China estaria repetindo no terreno industrial o padrão involutivo de atraso econômico de sua economia agrícola nos tempos de Mao, processo por enquanto mascarado pelo fenomenal crescimento econômico. É assim que

[...] a era maoísta na agricultura foi testemunha da diminuição da produ-tividade por hora/homem, inclusive apesar do aumento tanto do trabalho in-vestido como no produto obtido. A análise devastadora de Philip C. C. Huang (1991) arremata esta terrível conclusão afirmando que em seu conjunto as três décadas de administração agrícola maoísta simplesmente perpetuaram a in-volução de seu desenvolvimento econômico. À medida que a população crescia, os agricultores aumentavam sem parar sua produção total de grãos, porém somente ã custa de reduzir constantemente a taxa de retorno por hora de trabalho. Tinham que correr mais rápido apenas para permanecer onde estavam.7

É surpreendente o paralelismo entre este padrão de desenvolvimento e os dados que cita The Economist sobre o aumento da quantidade de capital investido por igual quantidade de produto, ou as recentes investigações de dois economistas, Hu Angang e Zheng Jinghai, que sugerem que o boom de investimentos levou já a um declínio no crescimento da produtividade. Segundo dados citados pelo Financial Times, a produ-tividade caiu de uma taxa anual de 3,3-4,6% antes de 1995 a apenas 0,3-2,3% de 1995 a 20018. Apesar de que uma parte importante desse aumento de capital poderia cor-responder a obras de infra-estrutura, é fato que a enorme competição das firmas es-trangeiras que não podem deixar de estar no mercado chinês, junto ao fato de que todo negócio rentável é rapidamente seguido e replicado por dezenas de firmas alen-tadas pelas administrações e burocracias locais, está dando lugar a uma estrutura econômica onde existe uma baixa concentração econômica e pouca racionalização por ramo de produção, proporcionando uma sistemática má distribuição dos recursos.

Em outras palavras estamos em presença de uma engenharia econômica e social, produto da coincidência da necessidade do PCCh de manter-se no poder garantindo o crescimento, e da necessidade das transnacionais imperialistas de baixar seus cus-tos para sobreviver na dura competição desatada num mercado mundial cada vez mais estreito, que está dando lugar no terreno econômico a contradições explosivas, em que o alento ã penetração imperialista por parte da burocracia criou uma super-produção prematura enorme (comparada com as necessidades insatisfeitas na China), ou seja, uma massa de empresas que enfrentam mercados saturados e acumulam mer-cadorias invendíveis, no marco de uma acumulação fenomenal de dívidas incobráveis por parte dos bancos que financiam esta desenfreada acumulação de capital, que não está em correspondência com a taxa de rentabilidade, e de uma constante entrada de capitais que pressiona no sentido da desvalorização do yuan (que é detida pelo temor de que desse lugar ã quebra de seu sistema financeiro ainda imaturo), con-tradições que em algum momento podem alcançar um ponto de não retorno. Nesse momento se verá se o descalabro econômico dá alento a um salto na restauração ca-pitalista ou, pelo contrário, é o impulso para um grande levantamento contra a buro-cracia e o capital nacional e imperialista que liquide a restauração antes que essa se consolide.

Capítulo II

Uma das novidades da atual restauração capitalista na China é que enquanto as forças estruturais da penetração imperialista e do atraso tecnológico (e por fim da produtividade do trabalho) empurram a República Popular da China em direção ã semicolonização, no momento o Estado chinês goza de margens de autonomia sem precedentes para uma nação semicolonial no hierárquico sistema mundial dominado pelo imperialismo.

O forte peso e o papel da penetração imperialista e as vulnerabilidades do modelo exportador

O milagre chinês é um subproduto da relocalização das multinacionais imperialis-tas em determinadas áreas da periferia capitalista como conseqüência da renovada e intensificada competição entre os monopólicos pelos mercados e margens de lucro. A aceleração desta tendência desde o início dos anos 80 até hoje, como resposta ã crise de acumulação capitalista iniciado nos anos 70, pode ser avaliada nas seguintes cifras da UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre o Comércio e o Desen-volvimento), que mostram que a China com sua fonte inesgotável de mão de obra ba-rata como o destino privilegiado por excelência:

O estoque global de investimentos estrangeiros diretos (IED) saltou mais de dez vezes entre 1980 e 2002 para 7,1 trilhões de dólares, como produto da ex-pansão dos sistemas de produção e distribuição em todo o mundo das com-panhias transnacionais. As cifras mostraram a China alcançando rapidamente os Estados Unidos como o destino mais popular a nível mundial para os in-vestimentos estrangeiros. Os Estados Unidos encabeçam a tabela da liga do destino dos investimentos estrangeiros com um estoque de IED de 1,35 tri-lhões de dólares. Mas o estoque da China totalizou 448 bilhões de dólares, acima dos apenas 25 bilhões em 1990. Combinado com o estoque de 433 bi-lhões de dólares de Hong Kong, a grande China obtém o segundo lugar na li-ga... ano passado alcançou um recorde de 52,7 bilhões de IED - mais do que qualquer país...9

Com estas cifras, não surpreende a magnitude da dependência da China com respeito ao capital estrangeiro para expandir sua produção e a crescente importância do setor de investimento externo em sua economia10, onde se converteu no melhor ativo industrial contribuindo com 20% da arrecadação estatal, 50% das exportações e criando 23 milhões de postos de trabalho.

A abertura ao exterior foi se dando ao longo de três fases. A primeira (1979-85) desenvolveu-se através da formação de joint ventures, quer dizer, de uma associação entre os conglomerados estrangeiros e as empresas de origem chinesa. Na segunda (1986-91) suspendeu-se a restrição ao limite da participação do capital estrangeiro que ficou autorizado a participar em quantidades superiores a 50%, além de melhorar o já favorável tratamento fiscal, garantir aos joint ventures exportadores e tecnologi-camente mais avançados um tratamento mais vantajoso, como, por exemplo, o acesso privilegiado ao abastecimento de água e eletricidade, infra-estruturas e diversas faci-lidades de transporte. A terceira fase de 1992 em diante, depois da derrota da Praça Tiananmen e uma vez assentado o curso restauracionista, a chegada do capital es-trangeiro ã economia superou todas as expectativas: de 1990 a 2003 ingressaram mais de 480 bilhões de dólares, o que constitui 97% do IED desde 1979.

A presença de um forte setor imperialista e o papel que este cumpre no corpo econômico constitui um aspecto decisivo do processo de modernização capitalista chinês11. Esta é uma diferença central com o processo restauracionista russo no qual os investimentos estrangeiros diretos foram, a pesar de haver crescido nos últimos anos, qualitativamente inferiores. Esta maior presença estrangeira direta aumenta o poder social do capital e é o fator central que empurra a uma modificação radical do conjunto da estrutura econômica no sentido de um domínio absoluto da lei do valor. Ao mesmo tempo esta estrangeirização da economia atua no longo prazo con-tra a possibilidade de que a China venha a emergir como grande potência ca-pitalista; antes disso, assinala pelo contrário um caminho oposto rumo a uma maior semicolonização.

Porém, a outra cara deste processo é que este modelo de desenvolvimento é es-pecialmente vulnerável aos vai-vens da economia mundial. Do ponto de vista externo, a continuidade do mesmo depende de um entorno internacional favorável, expansivo, que fomente o crescimento dos intercâmbios comerciais chineses - especialmente suas exportações - e o prolongamento do fluxo de investimentos estrangeiros. Uma forte recessão da economia mundial e sobretudo o aumento das travas e barreiras protecionistas podem ser seu calcanhar de Aquiles.


O atraso tecnológico com respeito ás potências imperialistas

Uma das chaves para entender o atraso semicolonial é a produtividade do trabalho com respeito ás potências imperialistas. O aumento do rendimento do trabalho na in-dústria se leva a cabo por dois meios: a assimilação da técnica mais avançada e a me-lhor utilização da mão de obra. Devido ao baixo nível do ponto de partida, a partir da implementação das reformas capitalistas, a China incrementou sua sofisticação tecnológica. Mas nos perguntamos: este encurtamento temporário da distância tecno-lógica entre a China e as potências imperialistas e os espetaculares índices de cres-cimento econômico estão apontando a que nas próximas décadas a China se converta na nova “capital tecnológica” do mundo, como incita grande parte da mídia imperialista, baseada em que muitas plantas assentadas na China captaram vários segmentos do mercado global de eletrônicos para o consumo e que também é alimentado pelas grandes ambições dos funcionários e burocratas de Pequim?

O mais benévolo que podemos dizer é que estes sonhos são ao menos prema-turos, para não dizer, mais corretamente, totalmente infundados. Uma das revistas imperialistas mais sérias sobre o gigante asiático, a China Economic Quarterly sustenta que:

Enquanto esse artigo estava sendo escrito, a cápsula espacial Shenzhou V entrava em órbita levando o “Taikonauta” Yang Liwei, transformando a China no terceiro país do mundo a lançar um aparato espacial tripulado. Este era um ponto tecnológico decisivo, que muitos observadores dos países ricos vêem como um alerta de que a China já não está mais satisfeita em ser a “oficina do mundo” mas aspira a ser também um laboratório de investigação e desenvolvi-mento (R&D). Porém um olhar mais de perto sobre a estrutura do setor tecno-lógico chinês sugere que tanto a ansiedade dos países ricos como as ambições chinesas estão infladas. A base tecnológica chinesa continua sendo muito menor que a das economias desenvolvidas e as manufaturas de maior uso intensivo de tecnologia são estabelecidas e manejadas por estrangeiros. A China alcançou oportunidades na cadeia de valor da tecnologia global onde os custos trabalhistas importam mais signifi-cativamente; mas a infra-estrutura de capital necessária para alimentar uma tecnologia nativa avançada está ausente e vai levar muitos anos para ser desenvolvida.12

No mesmo sentido, o mesmo autor ilustra:

Desde que as reformas começaram em 1978, a sofisticação tecnológica da China aumentou. Isto se deve a que o ponto de partida era demasiado baixo. Hoje o grosso da produção chinesa continua sendo de baixa tecnologia e intensiva força de trabalho. Dos 325 bilhões de dólares de exportações chinesas em 2002, 68 bilhões de dólares, ou 21%, estavam listadas nas estatísticas chinesas como high-tech... Uma inspeção mais de perto das exportações high-tech descobre que não são muito high-tech - e tampouco muito chinesas. O topo da lista das exportações high-tech está dominado por peças e acessórios de produtos de tecnologia informática, e por produtos maduros como aparelhos de DVD e impressoras laser. Praticamente todas estas são mercadorias “commoditizadas” que competem com margens ultradelgadas, fazendo dessa maneira muito importante o trabalho barato chinês apesar do baixo componente do trabalho no custo final dessas mercadorias. Mais ainda, o alto valor agregado em matéria cin-zenta desses produtos - circuitos integrados - domina os postos do topo das impor-tações high-tech chinesas.

E sobre o enorme peso da produção e do controle estrangeiro na produção nes-se setor, agrega:

no que vai do ano até agosto de 2003, a China importou 71,6 bilhões de dóla-res em produtos de alta tecnologia. Deixando de lado por momento este défi-cit comercial tecnológico chinês de 9,5 bilhões de dólares, notamos que 52 bi-lhões de dólares de importações e 53 bilhões de exportações foram realizadas por firmas estrangeiras (ao redor de 70% e 85% das importações e exportações respectivamente). 50% das importações chinesas de tecnologia e 60% das exportações de tecnologia foram completamente realizadas por empresas intei-ramente estrangeiras. Esses números mostram a posição dominante dos es-trangeiros, e especialmente das empresas de completo controle externo, no comércio tecnológico chinês.

A enorme brecha tecnológica que ainda separa a China das potências impe-rialistas13 não permite pensar que a China ingressará na escassa hierarquia de nações que dominam a economia mundial como dizem os visionários, que prognosticam que a meados do século a China será a principal potência mundial, substituindo os Esta-dos Unidos. A grande diferença entre a China e estas nações imperialistas é a enorme acumulação ou estoque de capital que existe nos segundos e que permite a existência de capital financeiro ou de um sistema financeiro avançado do qual a alta tecnologia é ultradependente. As plantas e equipamentos modernos, o gasto em investigação e desenvolvimento e os componentes de serviços para subir na escala tecnológica são todos capital-intensivos.

Esta enorme desvantagem é o que permite prever que a China não será um “no-vo Japão” apesar de toda a histeria sobre o perigo amarelo que repete a propaganda antijaponesa dos anos 80. É que diferentemente do Japão, a segunda potência im-perialista mundial, o brilhante desenvolvimento chinês não superou ainda os estágios iniciais da evolução tecnológica14 e pela diferença estrutural que assinalamos é difícil que o faça nas próximas décadas. Mais ainda, a importância do capital financeiro no processo de industrialização leva a que, para subir novos degraus na escala tecno-lógica, a China deva submeter-se a maiores ditados do capital internacional, sobretudo no setor bancário, onde o Estado chinês mantém uma posição esmagadoramente do-minante, que pode significar um salto em seu processo de semicolonização.

Avanço restauracionista, porém conservando uma importante margem de autonomia estatal frente ã dominação semicolonial imperialista

Já explicamos como a China, diferente dos países da ex-URSS e da Europa do Leste, aproveitou as “vantagens do atraso” e pôde atenuar se não compensar pelo momento a destruição de forças produtivas que vai associada aos processos de res-tauração capitalista. Esta diminuição de sua base econômica e o retrocesso, não só relativo como absoluto, em sua localização dentro das hierarquias da economia mundial estão indissoluvelmente ligados ao processo de semicolonização ao qual se vêem submetidos, em maior ou menor grau, o conjunto desses países. Como demonstra-mos mais acima, a economia chinesa está submetida também ás mesmas forças estru-turais. O que nos interessa ressaltar aqui é que ao contrário do resto dos processos restauracionistas, na China o avanço da restauração se dá conservando uma impor-tante margem de autonomia estatal frente ã dominação semicolonial imperialista.

A base disso está nos seguintes elementos:

- a) A China beneficiou-se logo no início de seu programa reformista de um contexto interestatal ou geopolítico no qual a pressão imperialista estava dirigida fundamentalmente em direção ao “império do mal” da ex-URSS e sua órbita de in-fluência a partir dos anos 70 e mais tarde nos 80 sob o reaganismo. Mais ainda, a política exterior chinesa foi uma peça importante dentro desta estratégia norte-ame-ricana, começando com o encontro entre o presidente norte-americano Richard Nixon e Mao em 1972 que buscava debilitar a ex-URSS, a peça mais forte e centro indubitável do chamado “mundo ou bloco comunista”.15 Posteriormente,

as políticas de portas abertas de Deng Xiaoping precisavam de uma inserção muito mais profunda da China no mercado mundial. Como isso ocorreu? Um passo chave nesse processo foi a invasão chinesa do Vietnã em 1978. Uma das razões da mesma, que de outra maneira teria sido um ataque sem sentido a um pequeno vizinho, era o desejo de uma nova relação com os Estados Uni-dos. A invasão foi como uma oferenda política a Washington e converteu-se para a China no bilhete de entrada ao sistema mundial. Aqui o excesso de vio-lência era a condição prévia de uma nova ordem econômica. (“Fogo na Porta do Castelo”, Wang Hui em New Left Review).

- b) Posteriormente, em uma etapa mais avançada do processo reformista, a China beneficiou-se de dois elementos, um relacionado com a estrutura atual do sistema internacional e o segundo com a nova localização alcançada pela China na divisão mundial do trabalho, como centro manufatureiro mundial.

O primeiro processo de tipo estrutural a que nos estamos referindo é a crescente divisão imperialista, que no marco da vastidão dos recursos e o potencial mercado da China, permite a esta negociar a partir de uma relativa posição de força e melhorar os termos de intercâmbio com as distintas potências imperialistas, ao menos com-parada com um país semicolonial clássico. Além de possuir relações econômicas com os três principais pólos em que se divide o mercado mundial capitalista, a China utiliza estas negociações não apenas para obter vantagens econômicas como também para fazer avançar seus interesses geopolíticos, sobretudo frente ás potências im-perialistas mais hostis em relação a ela como são os Estados Unidos, que a definiram como o “competidor estratégico” no século XXI, e no plano regional o Japão, com quem possui uma animosidade histórica data desde as invasões japonesas nos anos 30 do século passado e a Segunda Guerra Mundial. É assim que

a China está se movendo para perto da União Européia por muito mais do que negócios, a pesar de que o rápido crescimento de seus intercâmbios comerciais vai logo superar o intercâmbio com os outros sócios da China. A Europa tam-bém está dando a Pequim um meio para contrabalançar os Estados Unidos... Em 2005, a União Européia se converterá no primeiro sócio comercial da Chi-na... Isto vai dar a Pequim uma maior margem de manobra tanto nos negócios como na política ã medida que a Europa desloca os Estados Unidos neste ano e o Japão em 2005 no comércio total com a China.16

No mesmo sentido, o atual Comissário de Relações Exteriores Européias, Chris Patten, quem foi o último governador britânico de Hong Kong, sustenta que:

Em termos geo-estratégicos, o que está sucedendo na Europa é de grande importância para a China. Isto inclui a ampliação da UE e do euro. Há interes-ses econômicos e também uma visão chinesa de conjunto do mundo multipolar na qual a Europa se ajusta muito bem.

Tal artigo segue diferenciando as ambições imperialistas européias das dos Estados Unidos, as quais repetem a fachada “pacifista” deste último no começo do século passado frente ás velhas potências colonialistas européias, afirmando que

Por exemplo, a Europa, por todas as suas ambições de segurança, não se vê a si mesma como competidora da China. Como um soft, poder não militar em seu próprio direito, a UE não vê a China como uma superpotência rival em po-tencial. Em troca, nas palavras de um paper da Comissão Européia de outubro do ano passado, a Europa vê o país como um “sócio estratégico” com o qual forjar uma “benéfica relação de iguais”, a UE, assim como os Estados Unidos, quer que a China evolua para uma sociedade mais aberta. Porém sem Taiwan e a rivalidade militar, os europeus têm menos enfrentamentos diretos. “A UE toma a visão de que tem mais sentido comprometer-se com a China... é dema-siado grande para usar de coerção” diz Brittan, vice-presidente do banco de investimento UBS.17

- c) O outro elemento a que fazemos referência, a nova localização alcançada pela China na divisão mundial do trabalho como centro manufatureiro mundial, ou em outras palavras seu ascenso relativo com respeito aos países semicoloniais depen-dentes da produção de matérias primas ou commodities para o mercado mundial, permite-lhe impor suas preferências e poder de negociação sobre estes, convertendo-se no último tempo no principal mercado, ou no mercado de maior crescimento, de muitos desses produtos primários ou bens intermediários que esses países exportam.

Por sua vez, para os países semicoloniais que vinham suportando uma queda abrupta dos termos de intercâmbio de suas mercadorias - o que foi uma das bases da recuperação dos países imperialistas, em particular dos Estados Unidos, depois da crise dos anos 70 durante a ofensiva neoliberal - e que encontram os mercados das metrópoles fortemente fechados ou protegidos para muitos de seus produtos - a menos que aceitem tratados comerciais leoninos como o Nafta, o sistema de Prefe-rências dos países africanos com a França ou os tratados bilaterais como o recente-mente assinado entre o Chile e os Estados Unidos - encontram na China uma saída alternativa, o que dá a esta última não só uma vantagem comercial mas certa influência política em regiões tão distantes como a América Latina, com implicações geopolíticas que afetam a determinados países imperialistas. A enorme repercussão que teve a re-cente viagem de Lula ã China é uma mostra do que dizemos. Alguns meios de comu-nicação referiram-se a esta da seguinte maneira:

A missão de Lula reflete um entusiasmo febril pela China dentro da comu-nidade de negócios brasileira. Mas também chama a atenção sobre uma tendência econômica com implicações geopolíticas potencialmente enormes. Os laços entre Brasil e China conectam as maiores economias emergentes do hemisfério ocidental e oriental. Nas palavras de Celso Amorim, o ministro de Relações Exteriores do Brasil, isto poderia ser parte de uma “certa reconfigura-ção da geografia comercial e diplomática”. Isto pode ser um desafio para a ad-ministração George W. Bush, com sua obsessão no Oriente Médio e sua mio-pia sobre os desenvolvimentos em seu próprio pátio traseiro.18

Mais ainda, o mesmo artigo agrega:

Países como México e Colômbia desfrutara laços preferenciais com Washing-ton como resultados de acordos comerciais ou considerações de segurança, mas as relações com outros países, incluindo Brasil, Argentina e Venezuela, têm-se deteriorado. A influência chinesa sobre este último grupo de nações ricas em commodities pode eventualmente agravar estas divisões e levar ain-da ã formação de novos blocos de poder dentro da região.

Capítulo III

Um desenvolvimento desigual e combinado exacerbado

O crescimento da China nas últimas décadas tem sido meteórico ainda que par-tindo - é importante não esquecer isso para toda comparação - de um país enor-memente atrasado e tão pobre. A maior rapidez de sua industrialização é o resultado de haver contado com as “bondades” do mercado de capitais e financeiro a nível mundial. Sem esta enorme entrada de capitais os ritmos de tal industrialização teriam sido impensáveis.

Muitos países experimentaram uma rápida industrialização impulsionada pelas exportações. Porém a escala e a rapidez dessa transformação na China é sem prece-dentes. Tomando os dados de 2002, o dragão asiático dobrou suas exportações em apenas cinco anos. Em contraste, a Inglaterra demorou doze anos para duplicá-las depois de 1838. Tardou dez anos para a Alemanha duplicar suas exportações nos anos 60 e sete ao Japão nos 70. Temos aqui uma aceleração dos tempos históricos, um resultado de que o capital internacional transladou importantes ramos de produção sobre este país economicamente atrasado, saltando uma série de fases técnicas e econômicas intermediárias levando a uma situação em que o capital pri-vado prospera, mas a formação de uma classe capitalista ainda é embrionária, já que o veículo central desta transformação foi a velha burocracia maoísta em decadência como parte de impulsionar uma modernização capitalista pelo alto, com a qual conservar seu domínio político.

Este salto histórico transtornou por sua vez as características sociais próprias da China, uma antiga civilização auto-suficiente por longos períodos de tempo e que apesar das condições de pobreza que em que vivia sua enorme população camponesa foi capaz de desenvolver instituições sociais de uma enorme perfeição, baseadas num sistema familiar fortemente paternalista e de respeito aos mais velhos19, herança que - apesar das enormes transformações econômicas e sociais que significou a Re-volução de 1949 - não pôde ser liquidada, mas pelo contrário promovida pelo PCCh para facilitar seu domínio burocrático. A penetração massiva de capital em todos os poros da vida social com êxitos fundamentais mas de forma unilateral, como dissemos, significou a atual crise da sociedade rural deparando enormes conseqüências incon-troláveis para o futuro. Como aponta John King Fairbank em seu livro “China, uma nova história”:

O fato de viverem tão estreitamente vinculados a seus vizinhos e ao resto dos membros de sua família acostumou os chineses a uma forma de vida coletiva, em que em geral o grupo domina o indivíduo. Nesse sentido, até há pouco sua experiência vital quase não se diferenciava dos outros povos agricultores estabelecidos na terra desde um longo tempo. É o individualista moderno, seja marinheiro, colono ou empresário da cidade, quem constitui a exceção; possuir um quarto individual é um símbolo de um nível de vida superior, mais facilmente disponível no Novo Mundo do que no apertado Oriente. Assim, um dos lugares-comuns da sabedoria popular chinesa é a absorção do indiví-duo tanto no mundo da natureza como no da coletividade social.

Hoje a modernização está destruindo o equilíbrio entre este coletivismo da so-ciedade chinesa e seu belo entorno natural. Enquanto os produtos químicos indus-triais contaminam a água, o uso de lignito ou carvão como fonte de energia contamina o ar. Não se pode reprimir o crescimento de uma população predominantemente jo-vem e com uma crescente expectativa de vida. Porém, neste momento, o desfloresta-mento e a erosão - junto com a construção de estradas, casas e instalações - estão reduzindo cada vez mais a terra disponível para semear. O maior e mais povoado país do mundo dirige-se a um pesadelo ecológico, e será necessário um grande esforço coletivo para superá-lo.20

Por sua vez, esta rápida introdução dos avanços da economia capitalista inter-nacional, ao mesmo tempo em que fez os antigos laços sociais entrarem em crise, foi em última instância condicionada pela capacidade de assimilação econômica e cultural da China, tomando por tanto - não poderia ser de outra maneira num país de desen-volvimento tão atrasado - um caráter contraditório que se vê no amálgama de formas arcaicas e modernas, em outras palavras um desenvolvimento desigual e combinado exacerbado.

A modernização/restauração capitalista deu lugar a enormes contrastes não só entre a cidade e o campo, as zonas costeiras e o interior, mas também no interior dos próprios distritos como aponta o seguinte relato do Far Eastern Economic Review:

Olhemos mais de perto ao redor do distrito Tiexi e as divisões são claras. A região de negócios é um vai e vem de gente, os postos de mercado lotam as veredas e os comércios e restaurantes derramam-se no caminho dos pedestres. Mas caminhar até o que os locais ainda chamam de zona fabril da cidade é en-trar num mundo de silêncio. Fora das ruas principais em geral mal se pode ver um punhado de pessoas. Dá a sensação de um envelhecido subúrbio industrial da Europa e dos Estados Unidos nos anos 80. As fábricas estão desmoro-nando, os guardas de segurança olham através de portas acorrentadas e as veredas estão torcidas pelas raízes das árvores plantadas quando Tiexi era a vanguarda do giro industrializador dos anos 60. Mesmo neste ponto negro do desemprego, as autoridades locais poupam dinheiro usando trabalhadores das prisões para manter as vias.21

O Campo

Entre 1978 e 1983, a China eliminou suas granjas coletivas, criando ao redor de 200 milhões de granjas familiares operando sob o sistema de responsabilidade familiar. A antiga forma coletiva, geralmente nas aldeias, manteve a propriedade das terras, mas as famílias puderam passar a decidir o que cultivar, e vender no mercado uma produção superior ás cotas estabelecidas.

Estas reformas provocaram uma imediata melhora na produtividade e no bem-estar dos camponeses. Segundo a China Economic Quarterly, o produto bruto agrí-cola cresceu 86% entre 1980 e 1990, enquanto a renda per capita média dos lares cam-poneses cresceu 192%, em termos ajustados segundo a inflação, entre 1978 e 1988. O período mais importante de crescimento desenvolveu-se entre 1978 e 1984, o único período durante a era de reformas em que a renda no campo cresceu e superou a ren-da urbana.

Após esse período inicial, a produtividade e a renda se estancaram. A enorme carga fiscal reverteu os resultados positivos que as primeiras medidas reformistas haviam tido para o desenvolvimento agrícola. A crise do campo, sobrecarregado de impostos abusivos, está por sua vez relacionada com a crise das “empresas de po-voado e aldeia”22 que levou ao endividamento de milhares destas e hoje esta pesada carga é transferida aos camponeses pela via confiscatória de maiores impostos e tri-butos. Este confisco do ingresso agrícola por parte das burocracias locais tem dado lugar a numerosos levantamentos e protestos camponeses nos últimos anos.

Neste marco, a liberalização a que a China se comprometeu depois de sua entrada na OMC pode ser mortalmente crítica para milhões de camponeses na medida em que as importações baratas desloquem sua produção, diminuindo ainda mais a renda camponesa, aprofundando ainda mais a crise da sociedade rural.

No entanto, o novo começa a ser o desenvolvimento de um incipiente mercado de terras que busca permitir uma concentração da propriedade da terra. Até hoje, os camponeses podiam cultivar a terra, mas não lhes era permitido vender, comprar ou hipotecá-la. Na maioria dos lugares, os camponeses não realizavam investimentos de longo prazo devido a que as freqüentes e imprevisíveis “reapropriações” limitavam sua posse de qualquer terreno específico da terra23. A Lei Rural de Contratos Agrí-colas, adotada em agosto de 2002 pelo Comitê Permanente da Assembléia Popular Nacional, expande amplamente os direitos de propriedade agrícola, ainda que não entregue aos camponeses a propriedade total da terra. Confirma o termo de 30 anos de uso e o requisito de contratos por escrito. Porém o mais importante é que cria se-guros e direitos comercializáveis de propriedade ao proibir as reapropriações de ter-ras durante o prazo de 30 anos de duração do contrato. Estas medidas significam um salto nas reformas capitalistas no campo que já está dando lugar ã expulsão dos camponeses da terra, elemento que pode converter-se no próximo período na principal fonte das rebeliões no campo24.

Estas mudanças estruturais se dão num marco em que o campo chinês tem uma das mais altas proporções de trabalhadores em relação ã terra apta para o cultivo - ao redor de três pessoas por hectare - deixando o campo carregado com um excedente de 150 milhões de camponeses, de acordo com as estatísticas oficiais. Por sua vez, a produção de grãos vem declinando como produto da perda de cerca de 14 milhões de hectares de terras cultiváveis devido ao desenvolvimento e a desertificação durante a última década e meia. Os meios de informação chineses dão conta de uma escassez de 25 a 35 milhões de toneladas desde 200025. Todos estes elementos agravam as ten-sões na aldeia.


Os velhos e os novos proletários

O processo de modernização/restauração capitalista deu lugar a um desenvol-vimento contraditório de surgimento de um novo proletariado aglomerado em gigan-tescas concentrações operárias nos novos bastiões industriais por um lado, ao mesmo tempo em que significou o fechamento e/ou declínio dos velhos bastiões da antiga economia burocraticamente planificada pelo outro.

Esse processo dual tem dado lugar a duas atitudes - ao menos momentaneamente - com respeito ás reformas. Por um lado o novo proletariado, com características ain-da do tipo de trabalhador semiproletário, semicamponês produto da contínua afluência de novas fornadas de mão de obra do campo para as regiões industriais, que prove-niente e educado pelos duros e laboriosos trabalhos agrícolas e a forte disciplina so-cial da aldeia é uma força de trabalho maleável para uma brutal exploração capitalista comparável ã da Inglaterra no século XIX descrita por Marx. Este novo setor da clas-se operária considera inicialmente sua atual situação uma melhora relativa com respeito a suas condições de vida no atrasado campo chinês. Porém com o tempo sua crescente proletarização e enorme concentração em gigantescas unidades de produção o trans-formam no novo sujeito social revolucionário da revolução chinesa.

Por outro lado, o velho proletariado das aproximadamente 350 mil empresas es-tatais, que hoje representam apenas 28% da produção chinesa frente aos 75% de fins dos anos 70, mas que empregam 44% dos trabalhadores nas zonas urbanas. Este se-tor, privilegiado nos tempos da economia nacionalizada, é profundamente hostil ás reformas, tem um enorme ressentimento contra a burocracia governante e tem sido a vanguarda da importante quantidade de lutas que têm se dado contra as conseqüên-cias das reformas. Seu estado de ânimo é bem refletido no seguinte artigo:

Como um antigo trabalhador industrial urbano, eles foram em algum momento a vanguarda do proletariado, diferentemente dos pobres rurais que sempre careceram de dinheiro e status. Sob a planificação central comunista, estes trabalhadores do aço, mineiros e petroleiros ganharam respeito e amplos benefícios de moradia, saúde e educação por meio século. Agora eles estão sendo empilhados com os escombros da história da mesma maneira que os trabalhadores da indústria pesada foram deixados de lado na Rússia pós-soviética. “Enquanto os quadros estão comendo e bebendo em hotéis e fazendo palestras estúpidas”, diz Xu Ming, 63, e despedido depois de trabalhar 40 anos na fábrica Tiexi, “este país não é de nenhuma maneira socialista - a brecha entre os ricos e os pobres é grande demais”.26

A mesma combinação de trabalhadores definhando na miséria e managers in-competentes e corruptos pode se ver nos seguintes casos citados por um investigador de Hong Kong:

Em uma recente disputa na Fábrica de Ferramentas de Medição e Corte de Pe-quim... cem trabalhadores estão condenados a perder seu emprego num pro-cesso de privatização que eles denunciam como corrupto até a raiz. No forte piquete organizado por 250 trabalhadores no dia 14 de agosto de 2001, um tra-balhador apontou o sentimento geral de sentirem-se abandonados: “Ninguém representa nossos interesses. Mesmo os chamados sindicatos estão em suas mãos. Enquanto isso estão usando a propriedade estatal para comprar carros, mansões e viagens ao exterior”. A companhia, que tem aproximadamente 1.250 trabalhadores nos livros, recentemente vendeu terra e está por se deslocar centenas de milhas para a província vizinha de Hubei. Aos empregados que não querem se mudar foram oferecidos 2.500 Rmb (renmibi, a moeda chinesa) em compensação por cada ano de trabalho na fábrica, mas o escândalo de corrupção era o que prevalecia na mente dos pi-quetes. Eles puseram uma fai-xa ao redor da fábrica dizendo “Vendam suas casas e limusines e nos dêem os meios para viver. 150 milhões de Rmb em ativos estatais, onde foram parar?”27

Se durante os primeiros anos das reformas ou mais tardiamente quando se ace-lerou a reestruturação das empresas estatais no início de 98, o desencanto podia ser contido pela criação de novos postos de trabalho, a maior lentidão desse último pro-cesso tem dado lugar a um crescente movimento de protestos. Como sustenta a ma-téria recentemente citada:

Nos primeiros momentos das demissões, era relativamente fácil encontrar no-vos trabalhos. Agora não é mais... O Banco de Desenvolvimento Asiático estima 37 milhões de pobres urbanos, ou 12% da população urbana... O resul-tado pode ser greves mais freqüentes e uma crescente desordem social. Os trabalhadores com queixas - salários tardios, pagamentos de aposentadoria e demissões - não estão se cansando, eles estão se organizando. Pela primeira vez na história recente, os trabalhadores na primeira metade do ano lançaram uma série de greves e manifestações aparentemente coordenadas em vários velhos centros industriais desde o nordeste até o sudoeste... Mais do que organizados por uns poucos intelectuais ou ativistas políticos, os protestos foram - para alarme do partido - organizados ao redor de temas como o pão e a manteiga e tiveram um amplo respaldo. “Os protestos massivos de traba-lhadores que tiveram lugar na primavera de 2002 foram todos motivados eco-nomicamente e a organização esteve baseada no lugar de trabalho”, disse o pesquisador Trini Leung em junho no Boletim publicado em Hong Kong... Não há estatísticas oficiais recentes sobre as disputas, greves e protestos trabalhistas. Em 1995, o comitê de arbitragem trabalhista do governo tratou de 23 mil casos. Este número saltou para 120 mil em 1999. Leung estima que a cifra para 2002 poderia chegar a 200 mil casos.28

Detenhamo-nos mais extensamente no caráter deste movimento de protestos pouco conhecido no Ocidente - que abarca outros setores sociais como os estudan-tes e as minorias étnicas - que revelará o desenvolvimento de um forte conflito para o controle policial da burocracia restauracionista e para o próprio futuro das reformas capitalistas. Um interessante artigo de Murray Scott Taner da Rand Corporation sus-tenta que:

Nas discussões internas, os analistas e funcionários do sistema de seguran-ça pública chinês estão repensando fundamentalmente as fontes de um levan-tamento numa sociedade em transformação e as formas como lidar com ele. Muitos no interior da polícia chinesa admitem agora francamente que as mu-danças econômicas, sociais e políticas, não as conspirações inimigas, subli-nham esta emergente crise da ordem. Alguns especialistas de segurança mesmo que cautelosamente afirmam que, a menos que a China realize uma séria reforma institucional, nem a coerção nem o rápido crescimento serão su-ficientes para conter o descontentamento.29

O dramático incremento dos protestos públicos, oficialmente denominados “inci-dentes de grupos massivos” e que hoje abarcam modalidades que vão de petições pacíficas de grupos pequenos até marchas e atos, greves trabalhistas, greves do co-mércio, manifestações estudantis, levantamentos étnicos e até lutas armadas e revoltas, pode ser medido pelas seguintes cifras:

A polícia admite um aumento em nível nacional dos incidentes de massas de 268% de 1993 a 1999 (de 8700 a 32000). Em nenhum ano durante esse período o protesto cresceu menos de 9%. A taxa deu um salto para cima de 25% e 67%, respectivamente, nos anos da crise financeira de 1997 e 1998, e cresceu mais 28% em 1999. A China observou mais de 30 mil incidentes de massas durante janeiro-setembro de 2000, uma taxa que leva a uma projeção anual estimada em mais de 40 mil incidentes e um aumento de 25% sobre 1999, de acordo com fontes policiais chinesas citadas pela imprensa de Hong Kong. Apesar da ausência de cifras nacionais depor de 2000, toda evidência indica que o protesto na China permanece alto até o dia de hoje, apesar de que não está claro se o número total de incidentes continuou crescendo ou diminuiu de alguma maneira ã medida que a economia começou a recuperar-se, ou se declinou em freqüência enquanto aumentou seu tamanho. Em todo caso, o problema continua sendo claramente sério.30

Vejamos um pouco a magnitude, o nível de organização e as razões que existem por trás destes protestos. Comecemos pelo primeiro aspecto:

[...] os relatos dos oficiais de segurança [mostram] uma clara tendência a manifestações cada vez maiores, muitas envolvendo centenas, milhares e até dezenas de milhares de manifestantes. Durante 2002-2003, os milhares de grevistas fabris em Liaoyang e Daqing assim como as manifestações es-tudantis na província de Anhui remarcam esta tendência... os problemas de Liaoning ofuscam as outras províncias, com as estimativas policiais de mais de 863 mil cidadãos que tomaram parte em mais de 9 mil protestos que ocorreram entre 2000 e 2002 - uma média de mais de 90 pessoas por incidente e um au-mento de mais de dez vezes no tamanho médio sobre os anos anteriores.

O nível de organização entre os participantes dos protestos

[...] está gradualmente melhorando. Apesar de determinados esforços para minar os laços organizacionais, a polícia informa que muitos dos protestos que enfrenta -certamente a maioria em alguns lugares - agora presumem uma elaborada organização, completados com líderes designados, “porta-vozes públicos”, “ativistas” e “grupos centrais clandestinos”. Para burlar as duras leis contra as “organizações ilegais”, muitos desses grupos militam ã custa de associações industriais legalmente registradas; sindicatos oficiais, asso-ciações de famílias e clàs (especialmente no campo); e grupos sociais, recrea-tivos e mesmo atléticos nominalmente apolíticos. Um oficial frustrado quei-xava-se de que os manifestantes locais agora mostram “que juntaram fundos para campanhas de petições, advogados contratados e convidado novos jornalista” ao evento... muitos informes recentes da polícia mostram que a co-ordenação está se tornando mais comum nos anos recentes. A polícia na pro-víncia central de Anhui, por exemplo, informou que 11 grupos da construção organizaram conjuntamente uma série de protestos em janeiro de 2002 que bloqueou os acessos das vias aos escritórios do governo na capital da pro-víncia. Os manifestantes chineses estão se provando também como astutos aprendizes, exibindo uma impressionante sofisticação tática e técnica. Telefo-nes celulares, mensagens de texto, a Internet e o e-mail permitem organizações mais rápidas e flexíveis. A polícia se queixa de que os protestos agora brotam de repente, com ações simultâneas, coordenadas, que irrompem em localidades distantes que superam rapidamente a ca-pacidade da polícia de responder adequadamente. Demonstrando uma ha-bilidade para o teatro de rua, muitos dos líderes dos protestos agora rotineiramente põem cidadãos idosos, mu-lheres e crianças ã frente de suas mobilizações, dissimulando os objetivos de seus protestos e paralisando a po-lícia. A frustração policial com esta tática é palpável... A resistência violenta está crescendo claramente... As mortes po-liciais em exercício, que atingiam uma média notavelmente baixa de 36 ao ano entre 1949 e 1978, saltaram para 450-500 por ano, várias vezes mais que o nú-mero de mortes policiais nos Estados Unidos, que têm uma sociedade forte-mente armada. Ainda que muitas das fatalidades sejam resultados de acidentes de trânsito e brigas com criminosos melhor armados, também estão crescen-temente respondendo ã supressão com violência.31

Por último os motivos dos protestos são analisados com indissimulável simpatia por cada trabalhador e camponês manifestante que os policiais são chamados a su-primir. Em seus escritos

caracterizam os manifestantes como “explorados”, “marginalizados”, “so-cialmente desprivilegiados”, “vítimas” e “perdedores” na competição eco-nômica, conduzidos ao protesto pela desconfiança social e a “falta de coração” do livre mercado. Eles francamente admitem que muitos dos que protestam são vítimas de administradores inescrupulosos que levaram suas fábricas ã bancarrota mediante acordos ilícitos ou daqueles que fugiram com os ativos da companhia... Muitos especialistas policiais têm um receio especial pela crescente distribuição desigual da renda. Eles sugerem, de maneira quase hu-morística, que mesmo depois de 25 anos de reformas pró-mercado, a força po-licial chinesa permanece crivada de “simpatizantes comunistas”... Com um criticismo sincero, um relatório de um policial de província argumenta que a desigualdade exacerba os protestos porque a maioria dos cidadãos nota que muitos dos novos ricos (nouveaux riches) chineses obtiveram sua riqueza através de empresas corruptas, ilegais, que realizam “lucros explosivos”.

e concluem:

[...] muitos policiais vêem uma nova lógica social que vai tomando corpo gra-dualmente, com cidadãos descontentes cada vez mais convencidos de que os protestos pacíficos são significativamente menos perigosos, e não só efi-cazes como também inevitáveis como um meio para ganhar concessões. Ro-tineiramente as fontes policiais comentam uma expressão popular: ‘Fazer um grande distúrbio produz uma grande solução. Pequenos distúrbios não pro-duzem nenhuma solução. Sem um distúrbio, não há uma solução’”.32

Todos esses elementos em que temos nos detido começam a assinalar uma cres-cente recuperação das massas chinesas, em que os protestos e as greves dos traba-lhadores têm um protagonismo central, com respeito ao período de auto-restrições que assumiu o descontentamento das massas depois da importante derrota da Praça Tiananmen em 198933. Frente a um duro agravamento do ciclo econômico - como pre-vêem alguns analistas - ou uma eventual divisão na cúpula da burocracia restaura-cionista, estes elementos indubitáveis de recuperação do protesto social podem emergir com toda a sua força transformando-se em um dos principais obstáculos, se-não no maior, para os grandes desafios que as reformas pró-capitalistas ainda devem passar para se consolidar.

Capítulo IV

A unidade reacionária da burocracia pós Revolução Cultural

De uma maneira distinta da ex-URSS onde o domínio da burocracia se consolidou com uma contra-revolução interna nos anos 30 e depois se aprofundou e fortaleceu após a Segunda Guerra Mundial, na China o domínio da burocracia sempre foi mais tênue devido a sua debilidade interna, a seu caráter pós-revolucionário e em boa me-dida aos vai-vens da situação internacional entre os quais um elemento chave era a relação com a própria burocracia soviética.

É neste marco que se deve analisar o acontecimento decisivo para a evolução da China atual que foi a Revolução Cultural. Este movimento iniciado como um con-fronto de tendência na cúpula e nos diferentes setores da burocracia - em que a fra-ção liderada por Mao apelou ás massas para pressionar o aparato estatal e o partido - foi-se transformando num conflito extremamente agudo que implicou a mobilização de setores sociais fundamentais, os estudantes, o campesinato - em menor medida - e fundamentalmente, em seu pico, os trabalhadores.34 Do ponto de vista da burocracia stalinista, este foi um fato enormemente traumático que fez em pedaços o monolitismo do Estado e do PC e quase pôs o seu domínio em questão.

Foi a Polônia35 da burocracia chinesa, que levou a uma mudança fundamental no domínio e na política da burocracia de Pequim em direção ã restauração capitalista. Não por casualidade, depois da instabilidade desse período, a China restabelecia re-lações com os Estados Unidos, sob a direção do próprio Mao que assinalava desta maneira o novo curso que tomaria a burocracia stalinista, questão que daria um salto com a morte do Grande Timoneiro e o breve interregno de confusão que a seguiu.

Com a posse de Deng Xiaoping, o verdadeiro pai das reformas, a burocracia alcança um novo consenso que contempla que a única forma de sair desse período turbulento e assegurar seu domínio era a manutenção do crescimento como base da estabilidade política. Este consenso pós Revolução Cultural que se mantém com altos e baixos até agora é o que permite o lançamento e posterior aprofundamento das reformas pró-capitalistas.

Durante os primeiros anos das reformas isso levou ã conformação de dois blo-cos burocráticos, um chamado reformista e outro conservador, que diferiam com res-peito ao grau de abertura econômica de liberalização política e ã justificação ideológica do novo caminho empreendido, e que ainda refletia alguns vestígios dos últimos anos da era de Mao.

Entretanto, com o temor gerado pelos levantamentos da Praça Tiananmen a ba-lança inclinou para uma orientação conservadora no terreno político enquanto se aprofundava a liberalização econômica. Efetivamente com a repressão de 1989 tornou-se evidente que os conservadores haviam tomado o poder. Porém estes negociaram com Deng Xiaoping que insistiu na continuidade das reformas. Ele elegeu Jiang Ze-min como ser sucessor, um político mais moderado que Li Peng porém mais duro que Zhao Ziyang36. Com o passar do tempo não houve mais setores que se opunham ás reformas nas estruturas de poder. O próprio Li Peng, como primeiro ministro, levou a cabo reformas drásticas na linha de Deng Xiaoping.

Em síntese, esta atualização do consenso burocrático pós 89 levou a um maior conservadorismo político37 que entra em contradição cada vez mais aberta com as vertiginosas transformações estruturais da economia e da sociedade. Ainda que a instabilidade de meio século de domínio burocrático e dos conscientes temores da revolução cultural e mais tarde da Praça Tiananmen na elite, tenham conduzido ma-joritariamente a esta opção, a falta de flexibilidade e inovação no terreno político e o arcaico controle burocrático por parte do PCCh é um dos calcanhares de Aquiles de todo o processo restauracionista, que privado de outras válvulas de escape pode le-var ã irrupção de forma repentina e violenta.

Esta última perspectiva não tem se materializado porque ainda se conserva a unidade da burocracia. Como aponta The Economist:

Enquanto haja uma relativa unidade entre os líderes principais do país, a Chi-na vai ser capaz de levar adiante um grau maior de instabilidade econômica e social e manter uma linha de política exterior em termos gerais pragmática. O levantamento de 1989 escapou do controle apenas devido ã disputa pela direção que havia se tornado altamente visível nos meses anteriores aos pro-testos. Os rachas ideológicos que causaram esta disputa foram amplamente eliminados. Existe hoje um amplo consenso sobre a necessidade de uma eco-nomia de mercado (ainda que não exatamente sobre como chegar a isso). Mas os líderes chineses estão também unidos em sua crença de que tolerar uma oposição política organizada poderia resultar em sua própria queda, e deve ser evitado a todo custo.38

Porém, se este consenso reacionário da elite é rompido ou se fragmenta, as enormes contradições do processo restauracionista podem emergir de forma aberta, seguindo a regra geral da história chinesa contemporânea na qual os levantamentos sociais das massas são disparados pelas lutas entre os de cima, porque os líderes ri-vais apelam abertamente ou de maneira encoberta pelo apoio da população.

Manter essa unidade frente ás enormes pressões do instável sistema interna-cional e, talvez de maneira mais importante, frente aos crescentes desafios econômicos e sociais internos, será sem dúvida alguma a grande prova da chamada quarta geração de líderes chineses que assumiu no final de 2002 e cuja figura mais visível é o novo presidente, Hu Jintao.

Nem bem assumiu, esta nova geração pôde contornar com êxito a crise gerada pela epidemia de pneumonia atípica. Porém, muito mais difícil será amortecer sem grandes traumas os enormes desequilíbrios do crescimento econômico, mais ainda como é de se esperar se tiver que enfrentar uma provável queda no próximo ano ou no seguinte. A crise asiática de 1998 já sacudiu a fé cega no mercado mundial e dei-xou os liberais na defensiva. Pior foi o golpe quando a OTAN bombardeou a embaixada chinesa em Belgrado e se desenvolveram mobilizações estudantis espontâneas, que chocaram com o pró-ocidentalismo de setores crescentes da elite de negócios, aca-dêmica e intelectual.

Nesse marco é possível entender porque os líderes chineses não necessitam de uma crise internacional para sacudir o equilíbrio interno alcançado na cúpula. Daí a linha dura com relação a qualquer passo que possa significar eleições democráticas em Hong Kong como vêm reclamando as mobilizações de dezenas de milhares desde o ano passado na ex-colônia inglesa ou a atenta vigilà¢ncia dos líderes chineses ante os movimentos pela independência do presidente de Taiwan, Chen Shui-bian. A Chi-na afirmou que se oporá a tais ações “a qualquer custo”, o que pode produzir uma cri-se devido a que 90% dos taiwaneses confiam em que os Estados Unidos estariam a seu lado numa eventual disputa, independente de se sestas são as reais intenções de Washington.

Contudo, ultimamente, tem começado a ventilar-se publicamente uma dura luta que vinha se dando em surdina em Pequim desde que Hu assumiu o governo em mar-ço de 2003, entre este e o antigo presidente e o ex-secretário geral do Partido Comunista e atual presidente da Comissão Militar Central, Jiang Zemin, pela máxima direção da China. Recentemente os motivos de disputa elevaram-se a importantes temas de go-verno como os controles na economia e as relações com Taiwan. No primeiro caso, dirigentes provinciais e municipais ligados a Zemin, cuja base de poder encontra-se nas zonas costeiras e em especial em Xangai, questionam as medidas do atual governo que buscam arrefecer o ritmo do crescimento econômico, questão que afeta a vários interesses burocráticos que enriqueceram fortemente nos últimos anos. Com relação a Taiwan, Jiang e o Exército vêm realizando uma forte retórica e manobras militares desde a reeleição do presidente taiwanês, Chen Shui-bian, que chegou a ponto de di-zer que a guerra é inevitável, questão que vem sendo diminuída por Hu que não quer um aumento do militarismo ponha em risco o crescimento econômico. Por ora esta crise é manejável, porém ante um salto na crise tanto sobre a economia como sobre Taiwan, a falta de consenso na cúpula poderia ser catastrófica.

A definição do Estado Chinês e o caráter histórico do processo de restauração

Ainda que as reformas pró-capitalistas tenham começado na China no final da década de 70, a derrota do levantamento da Praça Tiananmen em 1989 foi um ponto de inflexão que fortaleceu o processo de liberalização econômica e o controle político impulsionado pelo Partido Comunista Chinês (PCCh). Esta derrota das massas permitiu um enorme salto na restauração capitalista, como mostrou, ainda que depois de um interregno, a mudança qualitativa na política da burocracia em 1992 - data da famosa viagem de Deng ao sul da China39 -, assim como a fenomenal onda de investimentos estrangeiros diretos que continua até o dia de hoje, e que converteu a China no prin-cipal centro de acumulação de capital a nível mundial. Em outras palavras, como diz Wang Hui,

[...] após o esmagamento militar do movimento do 4 de junho, as pessoas perderam a oportunidade de protestar, e a reforma de preços introduzida sob a mira das armas converteu-se num êxito. A mercantilização total na China não se origina a partir do intercâmbio espontâneo, mas a partir de atos de vio-lência: a repressão estatal ao movimento social.

Tomando em conta este salto na orientação da burocracia, no número 8 da re-vista Estratégia Internacional, de maio/junho de 1998, dizíamos:

Se anteriormente o objetivo da burocracia central havia sido dinamizar a eco-nomia planificada através de medidas de mercado, o ano de 1992 marca um giro decisivo da burocracia no sentido de subordinar a mesmas ã economia de mercado. O “objetivo de criar uma economia socialista de mercado, con-cebida como uma economia na qual as forças do mercado cumprirão a função mais importante na disposição de recursos num contexto em que seguiria pre-dominando a propriedade estatal...” Este giro na política marca o giro com ar-mas e bagagens do conjunto da burocracia rumo ã restauração do capitalismo, e neste sentido, marca um salto de qualidade no caráter do Estado operário deformado, transformando-se num Estado operário deformado em decom-posição.

Hoje não pode restar a menor dúvida de que as reformas provocaram o desman-telamento do velho Estado operário deformado, do qual só resta a fachada para man-ter a estabilidade política e social. O veículo desta transformação foi a burocracia que se alça cada vez mais abertamente em defensora da propriedade privada capitalista, como vem se refletindo nas mudanças da própria Constituição desde 1982, na recente Assembléia Popular Nacional40 de março de 2004 que declarou os direitos ã propriedade privada como constitucionalmente invioláveis41. Previamente a burocracia havia tido êxito em incorporar o enclave capitalista de Hong Kong sob a fórmula de “dois sis-temas, um Estado”; Esta ênfase na promoção da propriedade privada por parte da burocracia e tomando em conta a continuidade do processo restauracionista faz com que nos pareça mais conveniente e adequado hoje em dia ressaltar na definição do Estado o caráter “capitalista em construção” da atual formação social chinesa em de-trimento de nossa prévia definição de “Estado operário em decomposição”, que ví-nhamos sustentando. Constatando que, seguindo as definições de Trotsky em “Es-tado Operário, Termidor e Bonapartismo”42, um “poder estatal que deseja o socialis-mo ou se vê obrigado a desejá-lo” está ausente na China há anos, o que interrompe a construção do socialismo e em vista de evitar a menor confusão de que ainda resta-riam traços do velho Estado operário, que como marxistas revolucionários estaría-mos obrigados a defender, definimos a China como um “Estado capitalista em cons-trução”.43

No entanto, afirmar este caráter do Estado e dar-se conta de que a burocracia vem avançando na destruição das velhas formas de produção da economia planificada burocraticamente e dando passos decisivos na restauração do capitalismo, significa por outro lado afirmar que o processo de restauração ainda não está assentado his-toricamente, que é a outra cara de nossa definição da sociedade transicional chinesa atual. Mais ainda, apesar dos enormes saltos dados em todos estes anos no caminho restauracionista, a burocracia ainda deve enfrentar seus desafios mais difíceis para consolidar uma economia de mercado, processo que só pode ser visto em termos históricos e portanto ligado ás perspectivas do capitalismo mundial e da luta de clas-ses no interior da China como no terreno internacional. Como diz Fang Gang, dire-tor do Instituto Econômico Nacional da Fundação para a Reforma Chinesa,

quando alguém se dá conta das dificuldades dos problemas chineses, torna-se evidente que não podem ser solucionados em um curto período de tempo. Levará mesmo um longo tempo para fazê-lo. Já são mais de 20 anos desde que a China começou as reformas. Mesmo se levar outros 50 anos para resolver os problemas, ainda seria um grande resultado em comparação com os Estados Unidos e a Europa, que gastaram de 300 a 400 anos na construção de suas economias de mercado.44

O papel da burocracia ou por que a China não é ainda um regime social capitalista plenamente consumado

Da perspectiva histórica anterior surge que ainda que nas últimas décadas, co—mo já dissemos, o capital privado prospere, ainda é embrionária a formação capitalista e a burocracia continua sendo o agente central do processo de restauração capitalista.

O papel de árbitro da burocracia continua sendo fundamental no corpo econômico não só para a aprovação e o impulso de novos negócios, como também em sua capa-cidade de reguladora da economia, devido ao fato de que o patrimônio estatal ainda supera o capital privado, sobretudo nos bancos.

A primeira função se vê na importância da burocracia para outorgar licenças, na cobrança ou isenção de impostos e em geral na sustentação de contratos privados com os empresários. Daí que a palavra central para o florescimento dos negócios na China seja o guangxi ou as conexões, uma prática antiqüíssima que foi preservada durante a época maoísta no campo45 e que desde o começo das reformas se multiplicou em todos os níveis desta economia em transição, passando ás cidades e entre estas e os distintos investidores capitalistas, e entre estes e a burocracia central em Pequim. Esta hipertrofia do sistema de clientelismo em todos os poros da sociedade é o que explica a enorme corrupção nas fileiras oficiais, que é um câncer que ameaça com a perda de toda legitimidade do Partido Comunista. O resultado da extensão desta prática é que os capitalistas dependem da aprovação ou cooperação oficial, dando por resultado um empresário que não tem espírito inovador e que não está disposto a assumir riscos. Por outro lado, a função da burocracia na administração econômica opõe-se ã operação plena da lei do valor, impedindo a desvalorização e expulsão da capacidade excedente, ao mesmo tempo em que tampouco é capaz de subordinar efe-tivamente todas as formas de trabalho social ã acumulação de capital. Uma mostra do primeiro é que durante os anos 90 a taxa de falência chinesa não foi mais do que 0,05% ao ano, vinte vezes menor que o nível dos Estados Unidos. A mostra do se-gundo é que o setor estatal ainda é vital para a economia chinesa e a estabilidade so-cial porque ainda emprega 45% da força de trabalho urbano e recebe a maior parte dos empréstimos bancários. Do ponto de vista do capital, a sobrevivência da buro-cracia é responsável pela montanha de maus créditos, ligado ao fato da obrigação dos bancos a apoiar companhias insolventes em muitos casos por motivos políticos. Em certa medida, a supercapacidade manufatureira é conseqüência destas práticas dando lugar a um endividamento dos bancos até limites insustentáveis (80% dos créditos bancários dirigiram-se ao setor público e mais de um quarto nunca foi pago). No mesmo sentido, os dois mercados acionários da China, que já estão abertos há mais de uma década, permanecem território quase exclusivo das empresas do Estado. A maioria das ações é possuída pelo Estado ou pelos funcionários, razão pela qual os acionistas ordinários não têm influência sobre o manejo das companhias. Segundo The Economist, um dos empresários privados chineses mais ricos que conhece estes mercados os considera “um bebê nascido congenitamente deformado depois da vio-lação do capitalismo pelo socialismo”.46

Em conclusão, podemos sintetizar que depois de mais de duas décadas de re-formas é evidente que há um processo de restauração capitalista em curso, orientado por um governo pró-capitalista e que se apóia num aparato estatal capitalista em for-mação mas que ainda não deu um salto qualitativo no sentido de estabelecer um re-gime social capitalista, ou em outras palavras, que apesar dos importantes avanços alcançados pela restauração capitalista em todos estes anos, esta ainda não se com-pletou.

Isto é o que afirmam os editores da China Economic Quarterly:

Porém, é um salto lógico absurdo afirmar que - porque não existe uma divisão absoluta entre as economias de mercado e as que não são economias de mer-cado - não se pode fazer uma distinção significativa entre uma economia onde os mecanismos de mercado predominam e aquelas em que governa o poder estatal. E é igualmente enganoso argumentar que o impressionante progresso chinês de uma economia planificada a uma economia de mercado nos últimos 25 anos é equivalente a um êxito completo.47

Esses mesmos autores, assinalando os elementos capitais, segundo sua visão de uma economia de mercado, agregam:

Há três de tais elementos: direitos de propriedade seguros, contratos con-fiáveis e que se fazem cumprir, e um mecanismo ordenado para as entradas e saídas do mercado. Comparada com qualquer economia de mercado da OMC, a China alcança um resultado muito pobre no primeiro e marcas me-díocres no segundo e no terceiro. Os direitos privados de propriedade não existiam em sentido legal ou prático na China até este ano, quando foram estabelecidos na constituição. Porém colocar tais direitos na constituição é inútil onde não existe um sistema legal efetivo para garantir aqueles di-reitos48... Os contratos apresentam uma história similar. Não existe um efetivo mecanismo legal para forçar as obrigações contratuais na China. Os em-presários devem apoiar-se numa combinação de confiança, conexões e, como última saída, nas propinas aos juízes para garantir suas reivindicações. Em muitos casos o sistema tra-balha suficientemente bem, mas não é suficientemente institucionalizado para ser consistentemente confiável... As entradas no mercado e as saídas parecem ã primeira vista relativamente saudáveis... Mas uma inspeção mais de perto revela severos impedimentos de ambos os lados. Do lado da entrada, a re-gulação estatal continua proi-bindo ou limitando estritamente o investimento em muitos setores. As companhias privadas são efetivamente proibidas de juntar dinheiro nos mercados acionários, e têm dificuldades para conseguir empréstimos bancários - em muitos casos porque os bancos temem não pos-suir formas de assegurar um empréstimo confiável a firmas não estatais. Do lado das saídas, os governos locais e os que eles controlam muitas vezes pro-tegem as firmas esta-tais e privadas locais da falência ou da absorção por empresas de outras províncias. Este permissivo protecionismo local permite que muitas firmas se mantenham nos negócios muito depois do que teriam fenecido num sistema de mercado real.

E resumindo diz que:

Todas estas áreas estão num fluxo constante, evidentemente, e a China está se movendo em geral claramente rumo a uma economia de mercado. Porém apenas ter a direção correta e uma alta velocidade mão significa que o objetivo tenha sido alcançado. A China não é ainda, em suma, uma eco-nomia onde as forças do mercado tenham claramente vantagem sobre os mandatos de Estado.

Capítulo V

O avanço da restauração e suas conseqüências internacionais

O desaparecimento da economia planificada chinesa (assim como a da ex- URSS e dos países do Leste) significa uma extensão das fronteiras geográficas e sociais do capital numa escala sem precedentes. Este acontecimento enormemente regressivo reforçou a competição pela redução salarial entre os distintos componentes da classe operária internacional ao reincorporar ao mercado mundial milhões de trabalhadores que se encontravam não submetidos diretamente a suas pressões.

Contra a propaganda “globalizadora”, isso significa historicamente - indepen-dentemente dos momentos conjunturais ou dos resultados parciais que possa ter neste ou naquele país - uma regressão econômica, social e cultural de enormes pro-porções.

A chave do papel da China em seu processo de integração ã economia mundial capitalista é que reduz o preço pago pelos capitalistas em troca da força de trabalho. Este processo se dá através da mundialização do processo de queda da taxa de lucro fundamentalmente nas cadeias de produção e distribuição de produtos manufaturados expressa na guerra de preços e na redução das margens de lucro das companhias. Seu rápido desenvolvimento causou mudanças dramáticas no valor da força de tra-balho, com importantes conseqüências na distribuição regressiva da renda. Em outras palavras, a China é claramente uma força deflacionária para a força de trabalho. À medida que as melhoras na educação progridam e sua base manufatureira se converta em mais sofisticada, os salários para os trabalhadores especializados a nível mundial também podem estar ameaçados.

Por último, e no plano ideológico, na medida em que siga avançando a integração da China ã economia mundial capitalista, a propaganda interessada da chamada “globalização” pode seguir sustentando-se apesar do brilho que perdeu seu discurso ofensivo da década passada, depois de crises como a asiática ou dos descalabros econômicos produzidos na América Latina.

À beira de uma crise: superaquecimento ou superinvestimento?

Durante 2003 e no início de 2004 a economia chinesa teve um crescimento no-tável. Se levarmos em conta o crescimento da produção industrial em vez do PNB, esta cresceu em março de 2004 um índice espetacular de 19,4% acima do nível do ano passado -uma marcada aceleração do crescimento com respeito aos 17% alcançado em 2003. Estes dados são fenomenais: em janeiro e fevereiro o crescimento em 16 de 30 setores industriais excedeu 100%. O crescimento do investimento em ferro e aço, materiais para construção e cimento foi muito alto, atingindo 170%. A indústria do aço, por exemplo, terá capacidade para produzir pelo menos 330 milhões de toneladas de aço para o ano que vem, uma quantidade que o país não vai consumir até 2010. Não surpreende com estes indicadores que segundo alguns cálculos, convertido em dólares, o crescimento do produto industrial chinês em 2003 tenha sido oito vezes maior que o dos Estados Unidos. Em outras palavras, apesar de que a China ainda dá conta de uma pequena porção da economia mundial (3,9% do PNB mundial a taxas de intercâmbio de mercado), não se pode minimizar seu papel em impulsionar a atividade industrial ã escala global na atual recuperação econômica mundial.

Este efeito foi palpável sobre a Ásia. O crescimento de 40% das importações chinesas em 2003 teve esta zona como lugar privilegiado, mostrando seu novo papel em atuar como motor da recuperação destes países e a crescente integração comercial interasiática. Assim as vendas para a China deram conta de 32% das exportações ja-ponesas, 36% da Coréia do Sul e 68% de Taiwan. Mas também se beneficiaram deste salto nas importações países desenvolvidos produtores de bens de capital como é o caso da Alemanha, cujas exportações a este país alcançaram 28%, e os Estados Uni-dos que exportaram para a China 21% do total de suas vendas externas.

Os outros grandes beneficiários do crescimento da China são os produtores de commodities. É que a China se converteu na força dominante neste mercado arrastado pela urbanização, a infra-estrutura e a construção de fábricas. Assim, no ano passado foi responsável pelo consumo de 7% do petróleo cru mundial, 25% do alumínio, 27% de produtos do aço, 30% do minério de ferro, 31% do carvão e surpreendentes 40% do consumo mundial de cimento.

No entanto este espetacular crescimento deu lugar a profundos desequilíbrios econômicos. Nos últimos meses vem-se desenvolvendo uma tentativa das autorida-des chinesas de pôr sua economia sob controle. As decisões administrativas tomadas pelos funcionários de Pequim sobre a concessão de novos empréstimos semearam a preocupação sobre a saúde da economia chinesa nos investidores a nível mundial. Tomando como variável o crescimento da inflação, cuja taxa de 4,4% é a mais alta das grandes economias, muitos analistas definem que a economia chinesa atravessa um superaquecimento. No entanto, coincidimos com The Economist em que este não é o diagnóstico correto, quando afirma que

atualmente há temores de que a economia esteja se superaquecendo. Estão começando a se formar bolhas na construção, no ramo do aço e de automó-veis, e a geração de eletricidade está funcionando com limitações de capaci-dade. No entanto, o problema real da China não é a inflação, mas sim o super-investimento. Em sua aposta no crescimento, o governo incentivou os bancos governamentais a abrir suas torneiras. O crédito fácil está produzindo uma sobrecapacidade massiva, levando ã deflação, mais dívidas ruins e menos novos trabalhos. Nove décimos das mercadorias manufaturadas já estão em sobreoferta, ainda que o investimento em ativos fixos tenha crescido no ano passado em 30% e contribuído em 47% ao PNB.49

É evidente que este crescimento é insustentável. Hoje isto é algo que, indepen-dentemente do diagnóstico, não se questiona. O que se discute é a magnitude de sua queda e, devido ao crescente papel da China sobre a economia mundial, que reper-cussões terá sobre esta. Há três visões. Em primeiro lugar, a mais benévola opina que o mais provável é uma aterrissagem suave (soft landing) baseada no êxito das ini-ciativas macro-estabilizadoras de autoridades chinesas durante a década passada como o caso do reaquecimento de 1993-1994, a crise asiática de 1997-1998 e a recessão global sincrônica de 2001. A favor desta variante joga ironicamente o enorme papel que a burocracia conserva na economia (uma pesada herança da planificação econô-mica burocrática) que permite um forte controle do Estado sobre esta em tempos de crises. Esta variante é sustentada pelos que vêem a crise como de superaquecimento.

A segunda variante que se discute é de que é difícil que a economia chinesa evi-te um pouso forçado (hard landing) devido a suas excessivas taxas de investimento. Durante o primeiro trimestre de 2004 a taxa de investimento fixo continuou crescendo num índice impactante de 43%, sobre um já forte crescimento de 26,3% em igual pe-ríodo de 2003. É importante assinalar que os números atuais significam uma taxa três vezes mais rápida que a tendência do período que vai de 1993 e 2003, um período en-tre dois superaquecimentos que foi de 15,5%.

Por último, os mais pessimistas apontam que a China deve limpar uma década de desmando financeiro, sendo sua comparação com a economia japonesa a mais apro-priada. Ainda hoje o Japão não conseguiu solucionar sua crise a mais de uma década de que sua “bolha econômica” estourou. A favor desta variante está o fato de que pelo temor ás respostas sociais frente a uma queda no crescimento, a burocracia veio evitando as depressões do ciclo econômico. Este foi o caso de 1997 a 2002, como res-posta ã crise asiática e ã recessão mundial de 2001, quando o crescimento repousou fundamentalmente num gasto governamental massivo (e cujo resultado foi um ace-lerado crescimento da dívida estatal) que foi compensado durante 2003 e no presen-te ano como conseqüência da recuperação da economia mundial (a mais importante em vinte anos) e dos enormes fluxos de IED que a acompanharam.

Esta última variante seria totalmente abominável, já que a China, diferente do im-perialismo japonês, corre com desvantagem no grau de estabilidade de seu sistema política e social. No caso de dar-se esta variante o espelho em que se enxerga a ater-rorizada burocracia de Pequim é a queda de Suharto na Indonésia como conseqüência do crack econômico.

Não arriscaremos um prognóstico. Porém metodologicamente existe um novo fator a levar em conta que terá uma enorme incidência tanto nas causas como no resultado de uma eventual crise e ele é: a maior exposição da China ã economia mundial capitalista. Durante os últimos dois anos as fortes políticas anticíclicas dos países imperialistas para sair da recessão de 2001 e fundamentalmente do legado de superinvestimento da década de 90, em particular nos Estados Unidos, tiveram êxito em conseguir uma vigorosa recuperação da economia internacional da qual a China não só se beneficiou como ao mesmo tempo foi um dos motores.50 Esta tendência se manteve como conseqüência da debilidade do dólar e fundamentalmente das enor-memente baixas taxas de juros globais que vêm alargando o boom artificialmente. É difícil que até as eleições norte-americanas este panorama - apesar da pequena e simbólica subida de 0,25% por parte da Reserva Federal em 30/06 - mudem subs-tancialmente. Mas se as condições que permitiram esta recuperação se alteram, es-ta maior exposição da China ã economia mundial pode converter-se em sua grande fonte de debilidade. A expansão impulsionada pela dívida significou a criação de uma enorme sobrecapacidade e especulação na expansão de minas, altos fornos, insta-lações de produção, nova capacidade portuária, melhor infra-estrutura, a especulação nos mercados de commodities, imobiliário ou de locais de arma-zenamento a nível mundial. Conseqüentemente, a região que no último ciclo de crescimento foi mais exuberante pode ser a mais afetada, e esta é precisamente: a China.

Um pulmão a longo prazo para a economia mundial capitalista?

A vastidão do mercado chinês, associada ã idéia de 1,3 bilhão de consumidores, faz as multinacionais sonharem. Contudo, somente em 2003 a renda per capita superou os 1.000 dólares, cifra que como demonstramos ao longo do artigo oculta grandes disparidades e uma enorme diferenciação do poder aquisitivo dos distintos setores da população e mesmo a nível regional. É que diferente do desenvolvimento orgânico das distintas potências capitalista no século XIX, o atual modelo de desenvolvimento chinês desigual e dependente não gera a constituição de um verdadeiro mercado na-cional integrado e equilibrado a nível nacional. Mais ainda, a políticas das autoridades de Pequim reforça este caráter ao utilizar as enormes massas de reservas não para a industrialização e o consumo das massas de todo o país, mas para comprar bônus do tesouro norte-americano perpetuando esta maneira o modelo exportador baseado em salários de miséria e uma fenomenal desigualdade na renda. Mas apesar desta realidade muitos dos planos de expansão das empresas imperialistas são feitos com a ilusão de que a China é o último mercado não explorado da terra.

Sendo mais realistas, a única coisa que podemos fazer é comparar o grau de de-senvolvimento chinês atual com o do resto dos países do sudeste asiático, que se-guiram previamente o mesmo modelo exportador em que está hoje empenhada a eco-nomia chinesa. Esta última, com um valor muito mais baixo da força de trabalho, em muitos casos substituiu esses países em importantes ramos de produção. Fazendo um mero exercício econômico, podemos determinar a distância que falta para a China percorrer para alcançar o mesmo nível de desenvolvimento destes países mais avançados do sudeste asiático, o que em inglês se denomina catch-up. Este é um cál-culo que está por trás dos planos de expansão de muitas transnacionais, sobretudo no setor produtor de matérias primas, que independente da profundidade da crise de conjuntura, apostam com base nestes cálculos na continuidade do crescimento eco-nômico chinês.

Uma mostra do que dizemos são os grandes consórcios minerais, como relata o seguinte exemplo:

O Pilbara viu bons tempos antes, porém nada como isto. Sempre desde que se descobriu ouro aqui em 1880, a região de formações rochosas 2,5 milhões de anos de idade havia sido reconhecida como um raro tesouro que abriga uma riqueza mineral. Porém agora, ã medida que o impetuoso ritmo de desenvol-vimento econômico da China cria uma crescente demanda por ferro, aço, alu-mínio, cobre e uma série de outros metais, os investimentos estão se voltando a Pilbara como nunca antes. Num grande voto de confiança sobre a fortaleza e a sustentabilidade do futuro crescimento econômico da China, as maiores companhias de recursos, BHP Billiton e Rio Tinto - com uma capitalização de mercado de 55 e 35 bilhões de dólares respectivamente - estão investindo mi-lhões de dólares na região. Novas minas estão sendo abertas, as velhas se ex-pandindo, constroem-se estradas e melhoram os portos, tudo para servir ã demanda chinesa.51

O cálculo por trás desta expansão fenomenal é explicado por um dos diretores desta empresa:

Esta bolha é um daqueles acidentes de percurso que contemplamos em nossa estratégia. Nós esperamos que os preços declinem e os volumes se alterem... No longo prazo, no entanto... o consumo de aço da China - e por fim sua de-manda de minério de ferro - vai continuar crescendo. Hoje a China consome apenas ao redor de 200 kg de aço ao ano por cada homem, mulher e criança da população. Este número pode ser comparado com os cerca de 600 kg por ca-beça ao ano do Japão e entre 800 e 1.000 kg dos grandes exportadores como Taiwan e Coréia do Sul.

Porém, estas divagações estatísticas e totalmente lineares cometem dois tipos de erros. Por um lado, deixam de lado as reações sociais, culturais e políticas que tal desenvolvimento traz consigo e que, como vimos, são talvez o maior desafio que en-frenta a burocracia restauracionista para completar as reformas. Por outro, e este tal-vez seja um equívoco maior que o anterior, é que igualam plenamente a transição de economias agrícolas e atrasadas, como eram os “New Industrial Countries” - NICs [os chamados “tigres asiáticos”. N. do T.] antes de converterem-se em plataformas exportadoras - elementos que compartiam com a China -, com um processo combinado que também contempla uma restauração capitalista de um Estado operário deformado para uma economia capitalista, processo que implica uma brutal destruição de forças produtivas e que, como explicamos ao longo deste artigo, está contrabalançado mo-mentaneamente pelo alto crescimento econômico, mas que constitui uma difícil prova que pode pôr em risco todas as bases do “milagre econômico”.

Para além do ponto de partida diferente, em última instância, o futuro a longo prazo do crescimento chinês e de sua bem sucedida integração ã economia mundial dependerá do estado de saúde do capitalismo mundial. Em todos estes anos, a China beneficiou-se muitíssimo mais que outros países, por sua vasta reserva de mão de obra barata, da tendência das economias e multinacionais dos países imperialistas que estão numa corrida desenfreada para baixar os custos para recuperar a ren-tabilidade depois da crise dos anos 70, que foi o primeiro momento em que a taxa de lucro das principais economias começou a cair. Esta tendência continua sendo uma realidade da economia mundial que tem se aprofundado como saída ao superinves-timento dos anos 90, não só em quantidade como também a outros setores (serviços), mas vem sendo contrabalançada por uma tendência oposta mas que surge do mesmo processo de reestruturação e relocalização capitalista das últimas décadas: a falta de mercados para os níveis de taxa de lucro que as mudanças no processo produtivo permitam valorizar e realizar. O caminho aplicado, a pesar de haver recuperado a rentabilidade52, redundou num novo estreitamento do mercado capitalista mundial, levando não a uma expansão como no boom do pós-guerra mas a uma luta impiedosa pelos mercados. Desta lógica de ferro resulta a busca incessante de fontes de mão de obra barata que beneficiou particularmente a China como o “novo milagre capitalista” (alguém se lembra antes da crise de 1997-98 este mote era reservado para os chamados “New Industrial Countries” como Coréia, Taiwan, Hong Kong e Cingapura, ou os segundos NICs como Malásia Tailà¢ndia e Indonésia?), mas que por sua vez põe uma grande interrogação sobre a sustentabilidade desta nova divisão mundial do trabalho, a menos que se acredite alegremente no sonho sem fundamento das grandes empresas numa China que possa emergir como grande po-tência consumidora, questão que é difícil de esperar por razões internas e externar, ao menos em um ritmo que evite po-tenciais cataclismos econômicos nos próximos anos. A esperança do Ocidente de que o mercado chinês se converta não só num “grande montador mundial” como também num novo mercado consumidor que permita reequilibrar a economia mundial, mantida durante todos estes anos pelo crescimento acima de suas possibilidades do consumo norte-americano ultra-endividado, não resiste ã menor prova.

Em outras palavras, a ampliação geográfica do capital, ao mesmo tempo que saída momentânea para o capitalismo mundial nas décadas passadas, sobretudo nos anos 90, significou uma intensificação da competição entre os monopólios em busca de novos mercados, o que a médio e longo prazo tende a agravar a crise capitalista.

Capítulo VI

Perspectivas

Se desconsideramos as desventuras e como termina a ofensiva neoimperialista dos Estados Unidos no Iraque, que fizeram sair ã superfície a crise do sistema de re-lações internacionais estabelecido no pós-guerra, a chave da situação internacional está determinado por quem se apropriará do enorme vazio que significa a dissolução da ex-URSS e pelo controle do processo restauracionista na China. Este processo foi o disparador de uma nova intensificação da competição interimperialista já que quem alcance hegemonizar estes desenlaces abrirá um profundo desequilíbrio na re-lação de forças entre as distintas potências.

É importante ver esta questão de uma perspectiva histórica. Depois da Segunda Guerra Mundial, o capitalismo mundial se viu obrigado a resignar a mais de um terço da superfície terrestre, incluindo o país mais populoso do planeta, a China, que liqui-daram as relações de produção capitalista. No entanto, o preço pago pelo proletariado mundial por tais conquistas foi muito alto, com a liquidação da revolução européia pela burocracia stalinista refortalecida, traição que permitiu assegurar a hegemonia mundial por parte dos Estados Unidos, dirimida na guerra a disputa com os imperia-lismos competidores japonês e alemão e o declive da antiga potência hegemônica, a Inglaterra. Esta ordem internacional marcada pela “coexistência pacífica” entre a bu-rocracia stalinista e o imperialismo mundial contra o desenvolvimento da revolução internacional, e caracterizado ao mesmo tempo pela existência de regimes sociais an-tagônicos, questão que se expressou na chamada guerra fria, chegou a seu fim com a débâcle da ex-URSS e a abertura desenfreada da China ã exploração do capital mundial. Neste marco, o destino histórico destes países ou culmina numa restauração plena das relações capitalistas com o salto para a barbárie, as guerras e o retrocesso social que este caminho obriga, permitindo um respiro importante para o capitalismo internacional, ou pelo contrário será necessária uma nova revolução política e social contra a burocracia, os novos capitalistas e sua associação com o capital in-ternacional. Para além dos resultados parciais atingidos até agora pela penetração do capital nos ex-Estados operários degenerados e deformados, estrategicamente este continua sendo o prognóstico fundamental.

Indo ao caso chinês, como tentamos demonstrar ao longo deste trabalho, apesar de todos os avanços conquistados, o poder social do capital permanece sendo débil, não existe uma classe unificada de capitalistas o que dificulta a imposição de uma saída contra-revolucionária no imediato, com o processo de restauração apoiando-se ainda numa burocracia cuja função social e política é cada vez mais arcaica e sua renovada legitimidade pode estar se esgotando.53 Estrategicamente isto constitui uma debilidade estrutural do Estado restauracionista que contrasta com o enorme poder social potencial que significam os enormes batalhões e concentrações ope-rárias que o mesmo processo restauracionista criou.

Este elemento pode ser visto em que, diferentemente da ex-URSS, a burocracia de Pequim seguiu um “caminho evolutivo” na aplicação das reformas, o que outorga ã estrutura social um caráter híbrido e transitório (e que leva muitos a verem nisto equivocadamente uma sobrevivência do Estado operário deformado), expressão ao mesmo tempo da consciência da burocracia sobre as conseqüências explosivas deste processo.

Por isso, ainda que se procure silenciá-los ou dissimulá-los, os ecos de Tia-nanmen seguem retumbando:

Nas proximidades do 15° aniversário, os dissidentes e os familiares das víti-mas de Tiananmen está tendo um maior controle da polícia, ainda que menos do que nos anos passados. Porém suas vozes agora estão submersas no ba-rulho dos protestos diários contra a corrupção e o crime, os lares e o sustento perdidos, de centenas de camponeses e trabalhadores que se aglomeram na cidade diariamente. A reforma política, caso tivesse sido permitida, poderia haver previsto alguma reparação para suas queixas. Agora eles não têm outra alternativa além de tomar as ruas.54

É que, insistimos, as reformas criaram num curto período de tempo uma enorme desigualdade social, que alguns comparam com o período prévio ã revolução de 1949, que tem um caráter explosivo. As forças sociais que esse “primeiro ensaio” re-volucionário desataram mostram claramente esse fato. Contrariando a imagem da im-prensa internacional que só vê um levantamento estudantil por valores liberais, Wang Hui, editor chefe da revista teórica mensal chinesa, Dushu (Leitura) e cujos es-critos são atacados com indignação pela crítica liberal como responsáveis pelo de-senvolvimento do fenômeno de uma “nova esquerda”, afirma isso com todas as le-tras: “Por que os cidadãos de Pequim apoiaram tão rotunda e ativamente as manifes-tações dos estudantes?” e responde:

Em grande parte pelo denominado sistema de preços de dupla velocidade e pela forma desigual em que os convênios salariais estavam sendo introdu-zidos. Isto criou a base institucional para que se produzisse uma crescente diferenciação social, especulação oficial e corrupção a grande escala no final da década. Ao mesmo tempo, o governo havia imposto pela segunda vez re-formas arriscadas no sistema de preços, que geravam inflação sem nenhum benefício para a gente comum. Seus salários se ressentiam pelos acordos que eram obrigados a assinar com as fábricas, e seus trabalhos estavam em perigo. As pessoas sentiram a desigualdade criada pelas reformas: havia um medo popular real no ar. Por isso é que os cidadãos se lançaram ás ruas em apoio aos estudantes. O movimento social nunca foi simplesmente uma demanda de reforma política; também procedia de uma necessidade de justiça e igual-dade social. A democracia que as pessoas queriam não era apenas um marco legal, eram medidas sociais efetivas.55 (grifos nossos)

Porém, como dizem outros analistas e como vem demonstrando a recuperação da luta de classes nos últimos anos, a qual retratamos nesse artigo, 1989 foi só um prelúdio. É o que afirma Hu Xingdou, um economista do Instituto de Tecnologia de Pequim em seu ensaio “China: the Danger of Turmoil” (“China: o Perigo de Agitação”, o código oficial para os eventos de 1989) amplamente difundido nos websites chineses, que sustenta:

[...] ao contrário da Rússia a China encarou primeiro as partes fáceis do pro-cesso de reformas, deixando que se acumulassem os problemas com maior potencial de transtornos... A China ainda não cruzou os obstáculos mais difí-ceis... portanto eu digo que o real levantamento ainda está por acontecer. O que aconteceu em 1989 foi só um estágio preliminar.56

Para terminar. Até agora o mundo havia se acostumado com uma China em cres-cimento integrando-se beneficamente na economia mundial. Porém, a história do sé-culo XX mostra que está não é a única imagem possível da China. Estejam alertas.


NOTAS
1 “How to View the Problems in China’s Economy?”, China & World Economy n°5,2002.

2 “The new workshop of the world”, Financial Times, 3/2/2003.

3 É o que expressa um dos analistas de Morgan Stanley: “Salvo a década da Revolução Cultural, a China manteve uma ênfase na educação durante seus períodos turbulentos, que permitiu que crescesse sua produtividade do trabalho ainda que não a riqueza das famílias. A reintegração da China ã economia mundial, em conseqüência, apresenta uma grande descontinuidade. As bre-chas entre a China e as economias desenvolvidas com relação ã produtividade do trabalho e ã riqueza estão se expressando através de uma rápida relocalização partindo das economias ma-duras rumo ã China, e o conseqüente crescimento rápido das exportações. O motor fundamental são os baixos salários chineses resultantes de sua vasta mão de obra excedente e seu baixo nível de riqueza. Estas são as duas caras da mesma moeda -se a riqueza da China tivesse se mantido com respeito ã produtividade, a força de trabalho da China não teria estado tão subempregada em primeiro lugar.” (“The Chinese Decade”, Andy Xie, fevereiro de 2003 )

4 As características dessa agricultura intensiva são bem refletidas pelo excelente trabalho de John King Fairbank, China, uma nova história, onde sustenta: “As implicações sociais da agricultura intensiva vêem-se sobretudo refletidas na economia do arroz, a coluna vertebral da vida chinesa em qualquer lugar do vale do Yang-tsé...Boa parte deste processo ainda se realiza manualmente: fileiras de pessoas curvadas desde a cintura, e com as águas lamacentas até os joelhos, retrocedem passo a passo efetuando tal operação. É o que ocorre nos arrozais de todo um subcontinente e, certamente, se trata do maior desgaste de força muscular no mundo. Quando o arroz já foi la-vado e está maduro, drena-se o campo e se colhe, novamente ã mão. Talvez não exista outra forma de obter uma maior produtividade a partir de uma pequena porção de terreno, quando se conta com um abastecimento ilimitado de água e de força de trabalho. Aqui a terra tem mais va-lor do que a mão de obra; dito de outro modo os bons músculos são mais abundantes que a boa terra. Devido ã carência tanto de terra como de capital, o camponês chinês se concentrou num tipo de agricultura intensiva de grande rendimento baseada na mão humana, e não na agricultura altamente mecanizada.” Editorial Andrés Bello, dezembro de 1996.

5 O “Grande Salto para a Frente” foi um giro esquerdista do Partido Comunista, que afetou a estratégia de desenvolvimento econômico. Lançado em 1959, o novo plano pretendia acelerar o desenvolvimento técnico e econômico, melhorando os resultados do Primeiro Plano Quinqüenal por meio da mobilização ideológica das massas e do aproveitamento mais eficiente dos fatores produtivos na agricultura e na indústria. Segundo Yolanda Fernández Lommen, o segundo Plano Quinqüenal (1958-1962) “intensificou as iniciativas de doutrinamento, a mobilização da mão de obra agrária e os esforços para construir um sistema político responsável. Esta última medida implicou que praticamente a maioria dos altos e médios funcionários fosse enviada para trabalhar nas zonas rurais, nas minas, nos projetos de obras públicas, com o fim de que realizassem tra-balhos manuais e tomassem consciência da realidade em que estava imerso o povo. De uma perspectiva externa, o “Grande Salto para a Frente” é um reflexo do desencanto e da preocupação de Mao com a insuficiente ajuda econômica, técnica e financeira concedida pela União Soviética, cujo líder, Stálin, desconfiava da peculiar interpretação que Mao fazia do marxismo-leninismo...O elemento chave de sua nova estratégia foi a criação de comunas. Estas ficavam a cargo do con-trole de todos os meios de produção empregados em sua atividade e constituiam uma única uni-dade contável, subdivididas em brigadas de produção e em equipes de trabalho. Cada comuna, que abrigava aproximadamente 22 mil pessoas, era auto-suficiente em todos os níveis: alimen-tação, educação, artesanato, produção industrial em pequena escala... O fracasso econômico foi tremendo, bem como suas consequências políticas. A escassez de alimentos gerada pela irra-cionalidade das comunas desatou uma grande onda de fome que paralisou o país. A indústria, na falta das matérias primas necessárias e dos bens intermediários, acumulou excedentes produtivos de baixa qualidade e acusou, na crescente deterioração de suas instalações e de sua tecnologia, as consequências da aceleração descontrolada. A desmoralização causada por este fracasso afe-tou tanto os camponeses como os intelectuais e os próprios quadros do partido”. “ China: a construção de um Estado moderno”, Los libros de la Catarata, 2001.

6 “Behind the Mask”, The Economist, 18/3/2004.

7 Dados tomados da obra de John King Fairbank.

8 Financial Times, 20/6/2004.

9 “China closes foreign investment gap”, Financial Times, 25/8/2003.

10 Esta tendência é uma característica mais geral do conjunto dos países atrasados, que se apro-fundou nos últimos anos. O mesmo informe da UNCTAD citado no texto do artigo sustenta que “os estoques de IED nos países em desenvolvimento representam ao redor de um terço de seu pro-duto interno bruto em 2002, comparado com apenas 13% em 1980”. Estas cifras também de-monstram a distribuição desigual “... com os primeiros dez países sendo responsáveis por dois terços dos estoques de IED. Os 49 países mais pobres davam conta de apenas 2% do estoque do IED total em 2002, uma porção que mudou pouco nos anos recentes”.

11 Esta presença é diminuída por alguns autores. Chi Lo, autor de The Misunderstood China: Un-covering the Truth Behind the Bamboo Curtain mostra como o IED realmente pode se reduzir ã metade, se tomamos em conta o investimento doméstico que deixa o país para retornar como IED e receber vantagens fiscais. Também mostra como os fluxos de IED são de apenas 4% do PIB, o mesmo que Cingapura e significativamente mais baixo que os 12% de Hong Kong e os 6% da Indonésia.

11 Esta presença é diminuída por alguns autores. Chi Lo, autor de The Misunderstood China: Un-covering the Truth Behind the Bamboo Curtain mostra como o IED realmente pode se reduzir ã metade, se tomamos em conta o investimento doméstico que deixa o país para retornar como IED e receber vantagens fiscais. Também mostra como os fluxos de IED são de apenas 4% do PIB, o mesmo que Cingapura e significativamente mais baixo que os 12% de Hong Kong e os 6% da Indonésia.

12 “Low-tech bed, high-tech dreams”, Daniel H. Rosen, China Economic Quarterly, quarto trimestre de 2003.

13 Outra mostra dessa brecha tecnológica pode se ver em que durante 2001 as firmas chinesas re-ceberam menos de 200 patentes, enquanto as firmas norte-americanas preencheram 87.600 pa-tentes. O autor citado comenta que “a brecha na capacidade de inovação é tão gigantesca que seria estúpido comparar o punhado de empresas chinesas que estão no padrão mundial, quase todas nascidas devido a uma política de promoção, com a base de alta tecnologia de quase qualquer país desenvolvido”. Outros dados são ilustrativos como a intensidade em investigação e desenvolvimento (R&D): “Globalmente, a China está posicionada atrás da maioria dos países da OCDE, ainda que comparativamente melhor que outros grandes países pobres como Rússia, Índia e Brasil. Talvez uma comparação mais relevante é que... a performance chinesa é quase comparável ã dos Estados Unidos no início dos anos 1950, quando a R&D dos EUA como porcentagem do PNB era de 1,36%... Em termos nominais gasta menos de 5% do total dos Estados Unidos - 104 bilhões de Rmb ou 12,6 bilhões de dólares. Para colocá-lo em perspectiva: as cinco primeiras companhias farmacêuticas norte-americanas gastaram mais em R&D que o conjunto da China em 2001.” (“R&D - but mostly D”, China Economic Quarterly, Quarto trimestre de 2003.)

14 O artigo citado nesta seção diz: “O tão citado ‘modelo japonês’ ou modelo ‘Flying Geese’ de progressão em cadeia de valor tecnológico de um país em desenvolvimento aponta que as economias bem sucedidas avançam a partir de sete estados de sofisticação... As economias podem alcançar o nível 3 deste modelo, como a China, sem fatores como direitos ã propriedade intelectual, um sistema financeiro sólido ou negócios de marcas confiáveis. As primeiras subi-das na escala envolvem processos de exportações trabalho-intensivos, principalmente na in-dústria ligeira e em mercadores que podem ser transplantadas e produzidas por investidores estrangeiros.. É em tais setores que a manufatura chinesa floresceu. Previsivelmente, a China aplicou seu fator abundante - o trabalho - para realizar essa vantagem comparativa... a ma-nufatura oferece maior produtividade e rentabilidade nas operações que substituem capital e tecnologia do processo manufatureiro e é utilizada em processos mais trabalho-intensivos abandonados ante-riormente por outras economias devido aos crescentes custos trabalhistas... plataformas de alta tecnologia capital-intensivas não são a essência para fazer dinheiro na China... De forma im-portante, esta história é precisamente a oposta ao padrão da vantagem comparativa japonesa que ganhou manufaturas dos Estados Unidos décadas antes, que en-volveu capital e melhoramentos tecnológico-intensivos do processo de produção. Esta é uma das razões pelas quais os políticos do Ocidente não devem tratar a China como um ‘novo Japão’”.

15 Esta viagem marcou um giro na política norte-americana no pós-guerra, ilustrada no fato, pouco antes da chegada de Nixon, de que a Assembléia Geral das Nações Unidas tenha votado a expulsão de Taiwan e sua substituição pela República Popular da China. Philip Short em sua vasta biografia de Mao assinala que: “Para Mao, a visita de Nixon foi um triunfo. Logo outros o seguiriam, cujas nações também tinham na China um papel histórico: Kakuei Tanaka para esta-belecer relações diplomáticas com o Japão; o primeiro ministro britânico, Edward Heath. Porém nada se igualaria na vida de Mao com o momento em que o líder do mundo ocidental chegou ã Cidade Proibida trazendo como tributo uma preocupação compartilhada por um inimigo co-mum... Mas agora o mais bem situado deles (se refere aos dirigentes ocidentais, nota do autor) havia chegado a Pequim, em busca de cooperação em base de igualdade. A China tinha se er-guido. Era o momento de desfrutar isso. Porém também marcou um retrocesso importante. Nixon pôs o dedo na ferida num artigo que havia escrito um ano antes de sua eleição. Os Estados Uni-dos, disse, necessitava estabelecer relações com a China, ‘porém como uma nação grande e em desenvolvimento, não como epicentro da revolução mundial’. E isso era realmente o que havia ocorrido. Ao abrir a porta aos Estados Unidos, Mao havia respondido a necessidades geopolíticas; o imperativo de uma frente única para conter os impulsos expansionistas da Rússia... Outro de seus temas favoritos durante a década de 1960 - a noção de que a China, com a força de seu exemplo, incitaria uma revolução mundial - havia ficado irremediavelmente comprometido”. Mao, Philip Short, Editorial Critica, 2003.

16 “Sino-European Relations: It’s more than love”, Far Estern Economic Review, 12/2/2004.

17 Idem.

18 “A challenge for America in its own backyard”, Financial Times, 21/05/2004.

19 “Até não muito tempo a família chinesa era todo um microcosmo, um Estado em miniatura. A família, não o indivíduo, era a unidade social reconhecida e o fator responsável da vida polí-tica de sua localidade. A devoção e a obediência dos filhos inculcadas na vida familiar funciona-vam como uma espécie de treinamento para a lealdade ao governante e a obediência ã autoridade constituída. Esta função da família de criar filhos respeitosos que mais tarde se converteriam em súditos leais se desprende facilmente da observação do modelo de autoridade prevalecente no interior do grupo familiar tradicional. O pai era um autocrata supremo, que podia dispor de todo o dinheiro e das propriedades familiares, e tinha a voz dominante no acerto dos matrimônios dos filhos. A mescla de amor, medo e temor reverente dos filhos para com o pai via-se reforçada pelo respeito aos mais velhos. A perda do vigor de um idoso era mais do que compensada por seu crescimento em sabedoria... Nas famílias de estilo tradicional, a dominação do homem sobre a mulher igualou-se ã dominação da maturidade sobre a juventude.

Mesmo hoje é muito mais provável que as bebês chineses sejam vítimas do infanticídio, e não os bebês homens. O matrimônio de uma filha era arranjado, não por amor; a temerosa noi-va deixava para trás sua própria família e passava a estar sob o controle da mãe de seu marido. Este podia buscar outras esposas ou concubinas e trazê-las para casa, especialmente se sua nora não dava à luz um herdeiro macho... Tudo isso refletia o fato de que uma mulher não possuía independência econômica. Seu trabalho se limitava ás tarefas domésticas, que não proporciona-vam qualquer renda. As mulheres camponesas eram universalmente analfabetas, e tinham pou-co ou nenhum direito de propriedade. O status social inferior das mulheres era só uma das mani-festações da natureza hierárquica do código social...”. China, uma nova história, John King Fairbank, Editorial Andrés Bello, dezembro de 1996.

20 China, uma nova história, John King Fairbank, Editorial Andrés Bello, dezembro de 1996.

21 “Urban Poverty: Nothing More To Lose”, Far Estern Economic Review, 7/11/2002.

22 As “empresas de povoado e aldeia” surgiram como fungos nestes anos como resultado da capi-talização da renda agrária e foram o principal impulso para o avanço das reformas capitalistas nos períodos iniciais destas. Essas empresas que floresceram entre meados dos anos 80 e princípios dos 90, paulatinamente fracassaram na competição com as dinâmicas novas empresas chinesas que abriram nas zonas costeiras desde inícios dos anos 90 e que com sua explosão, foram crian-do cadeias de distribuição nacional.

23 O primeiro passo de Pequim para dotar-se de um esquema legal que possibilite direitos de pro-priedade rural mais fortes foram as modificações na Lei de Administração da Terra em 1998, que permitiram direitos de uso da terra de 30 anos de extensão e requerendo que os povoados esta-belecessem contratos por escrito com cada uma das famílias agrícolas. Também se aprovou que as desapropriações de terras deveriam ser aprovados por uma maioria de dois terços dentro do povoado e ratificadas pelos governos das aldeias e condados. No entanto, sua implementação foi contraditória, levando a operações de curto prazo, no interior dos povoados em geral envolvendo familiares e não compensadas, e não a verdadeiras transações de mercado que permaneceram quase inexistentes.

24 Outra fonte de rebelião na China interior vem sendo a resistência nacional ao domínio chinês. Ainda que o problema nacional não tenha o peso que teve na débâcle da ex-URSS, devido ao fa- to de que 94% da população são chineses étnicos (Han) apesar das importantes diferenças lin-güísticas, este problema constitui-se de fato como uma fonte de conflito na província de Xinjiang, com uma forte população muçulmana, e no Tibet, região que o Exército Vermelho ocupou em 1959 e vem sendo governada como uma colônia.

25 Uma resposta a isso tem sido o estabelecimento de pequenas colônias ao redor da Ásia com o objetivo de ajudar a melhorar sua declinante produção de grãos e encontrar trabalho para uns poucos milhares de camponeses, ao mesmo tempo que melhora a posição estratégica da China com relação aos países vizinhos. Esta saída lhe permitiria aliviar sua necessidade de segurança alimentar sem voltar-se ao mercado mundial de grãos. Já se estabeleceram colônias no Laos, Cazaquistão, assim como no extremo oriente russo, o que não é bem visto pelo governo russo que tenta frear este avanço dos imigrantes ilegais chineses. Também houve projetos fora da Ásia co-mo nos casos de Cuba e México.

26 “Urban Poverty: Nothing More To Lose”, Far Estern Economic Review, 7/11/2002.

27 “Industrial Unrest in China - A Labour Movement in the Making”, Tim Pringle, 30/1/2002.

28 Idem.

29 “China Rethinks Unrest”, Murray Scot Taner, The Washington Quarterly, verão de 2004

30 Idem.

31 Idem.

32 Idem.

33 Como diz o trabalho citado, “A notável capacidade do PCCh de evitar a sorte de seus irmãos leninistas tardios da Europa deve muito ã habilidade do partido não só para prevenir protestos grandes e bem organizados com amplas demandas anti-regime, mas também em suprimir uma oposição organizada ou grupos da sociedade civil que as pudessem organizar. Tendo absorvido as brutais lições das manifestações de Tiananmen, os protestos chineses de meados a fins dos anos 90 restringiram auto-conscientemente suas ações. A maioria dos cidadãos mais descontentes declinavam de estabelecer organizações clandestinas permanentes que pudessem haver ameaçado o partido. Seus protestos raramente incluíam mais do que poucas dezenas de pessoas, freqüen-temente da mesma unidade de trabalho ou da mesma vila. As táticas dos protestos permaneciam escrupulosamente pacíficas, e as demandas enfocavam mais temas locais concretos do que mu-danças sistêmicas mais amplas... Relatos recentes indicam, no entanto, que ainda que a maioria das demandas permaneçam limitadas e concretas, em muitos outros casos o protesto está come-çando a superar o modelo de resistência permitida e autolimitada”.

34 O movimento dos trabalhadores estalou no contexto dos chamados ã mobilização das massas, de forma análoga ao que havia passado primeiro com o movimento estudantil. Mas uma vez em marcha, este movimento tendeu rapidamente a se desenvolver sobre uma base autônoma, com objetivos e conteúdos próprios, que iam muito além dos chamados por Mao, como demonstraram as greves de Xangai e outros centros industriais chineses. Philip Short comenta: “Naquele in-verno, Mao acrescentou um nova e crucial arma ao arsenal dos radicais. Além dos guardas vermelhos, os trabalhadores militantes de fábricas e oficinas, em muitos casos impulsionados por ofensas pessoais contra os comitês do partido de suas unidades de trabalho, começaram a formar seus próprios grupos rebeldes. No início de novembro, um jovem trabalhador do setor têxtil de Xangai, Wang Hongwen, de trinta e três anos, fundou o Quartel General Revolucionário dos Trabalhadores para coordenar os grupos de operários radicais da cidade... A partir de fins de novembro, o Quartel General de Xangai , respaldado pelo Grupo para a Revolução Cultu-ral de Pequim, se envolveu numa luta de poder cada vez mais violenta com seu rival conservador, o Destacamento Vermelho de Xangai, apoiado taticamente pelo comitê do partido da cidade. No dia 30 de dezembro, dezenas de milhares de trabalhadores lutaram organizando batalhas de rua do lado de fora dos escritórios do comitê do partido. Começaram as greves. O porto fi-cou paralisado, com mais de cem barcos estrangeiros esperando a descarga. O transporte fer-roviário se deteve. Os trabalhadores que haviam sido enviados ao campo durante a fome que se seguiu ao “Grande Salto para a Frente” começaram a reclamar o direito de retornar... o Quartel General anunciou que não seguiria reconhecendo a autoridade do comitê do partido e que os “rebeldes revolucionários” do governo da cidade assumiriam a responsabilidade dos assuntos cotidianos. A “tomada de poder” de Xangai se converteu num modelo para o resto do país... em 5 de feve-reiro de 1967(proclamou-se) a Comuna Popular de Xangai... A ação dos dirigentes de Xangai havia obrigado Mao a encarar o abismo, e ele não gostou do que viu. Um sistema baseado na Comuna de Paris, com eleições livres e atividade política sem restrições, significava permitir que as massas se organizassem a si mesmas. Era a lógica de seu requerimento “confia nas massas e crê nelas”, a lógica, de fato, em que estava baseada toda a Revolução Cultural. Mas, em que posição ficava o partido? Como apontou Zhang Chunquiao: “De al-gum modo tem que existir um partido!”... A Revolução Cultural havia chegado a seu Rubicão, ao momento e que perdeu sua bússola, quando os ideais que a tinham inspirado, não importa quão espúrios fossem, ficaram irremediavelmente corrompidos. Enfrentado a uma eleição, Mao preferiu possuir um instrumento defeituoso de governo a não ter nenhum.”

35 A revolução polonesa de 1980-81, ainda que derrotada, foi um pesadelo para a burocracia moscovita, e convenceu-a de que a melhor forma de defender seus privilégios era orientar-se ru-mo a uma transformação completa do sistema, acelerando seu giro no sentido da restauração.

36 Zhao Ziyang foi secretário geral do PCCh de 1987 a 1989, quando foi deslocado em decorrência dos acontecimentos de Tiananmen pelos conservadores.

37 A orientação conservadora não foi posta novamente em discussão depois da destituição das alas reformistas.

38 “Be prepared”, The Economist survey, 15/672002.

39 Na primavera de 1992, Deng Xiaoping fez uma viagem a Shenzhen, no sul, onde deu o sinal para impulsionar o mercado ao máximo como força motriz da modernização da economia da República Popular da China, desatando uma onda de consumismo e comercialização por todo o país.

40 A Assembléia Popular Nacional é o órgão supremo do poder do Estado. É um órgão de governo que adquiriu maior protagonismo ao longo das reformas e ainda que tenha um caráter funda-mentalmente consultivo assumiu com o passar do tempo um poder crescente e uma participação mais destacada no processo de tomada de decisões. A Assembléia está composta por cerca de 3.000 delegados que representam as diversas províncias, as regiões autônomas, os municípios diretamente subordinadas ao poder central, as regiões administrativas e o exército. É o órgão le-gislativo e como tal está capacitado para modificar a Constituição e supervisionar seu cum-primento, aprovar os orçamentos do Estado, designar o presidente da República Popular da Chi-na e seu vice-presidente, etc.

41 A Constituição de 1982 mantinha o essencial daquela da época de Mao a pesar de legitimar a “economia individual” como “complemento ã economia pública socialista”. Em 1988 se in-corporaram emendas que faziam referência ã “economia privada”. Em 1999, as atividades pri-vadas e outras atividades não estatais eram consideradas importantes partes da “economia so-cialista de mercado”. Porém as novas mudanças vão muito mais longe, dizendo que o Estado “incentiva e apóia” os setores não públicos. Mais diretamente, a propriedade privada é pela pri-meira vez declarada “inviolável”, ainda que se continue fazendo referência ã propriedade pública como “sagrada”.

42 Comparando os diferentes papéis de um Estado burguês e de um Estado operário, Trotsky sus-tentava que: “Enquanto depois da revolução o Estado burguês se limita ao papel de polícia, dei-xando o mercado liberado a suas próprias leis, o Estado operário assume o papel direto de eco-nomista e organizador. No primeiro caso, a substituição de um regime político por outro não exerce mais do que uma influência indireta e superficial sobre a economia de mercado. Pelo con-trário, a substituição de um governo operário por um governo burguês ou pequeno burguês levaria inevitavelmente à liquidação dos inícios da planificação e em conseqüência ã restauração da propriedade privada. Diferente do capitalismo, o socialismo não se constrói mecanicamente, mas sim conscientemente. O avanço rumo ao socialismo é inseparável do poder estatal que deseja o socialismo ou se vê obrigado a desejá-lo”. “El Estado Obrero, Termidor y Bonapartismo”, Escritos Tomo VI volume 1, 1° de fevereiro de 1935.

43 Esta definição da China e também da ex- URSS e da Europa do Leste - apesar das diferenças entre eles e o maior ou menor grau de semicolonização destes Estados, em particular dos países da Europa Oriental - como “capitalistas em construção” os separa da definição do Estado ope-rário deformado cubano, onde apesar do avanço das reformas pró-capitalistas na economia desde a década de 90 e da crescente diferenciação social (para aprofundar nisso ver Estratégia Internacional n° 20) a burocracia castrista de Cuba para se preservar ainda precisa manter certa defesa a sua maneira da propriedade estatal, o que não é o caso das burocracias chinesas e rus-sas que decidiram por uma orientação consciente rumo ao capitalismo.

44 “How to View the Problems in China’s Economy?”, China & World Economy n° 5, 2002.

45 Contando a prática real das comunas nas aldeias durante a época maoísta, John King Fair-bank comenta que: “Neste processo em geral inflexível, o jogador chave era o líder do grupo um aldeão usualmente membro do partido e ao qual se designava por um período determinado de anos. Já que possuía autoridade sobre sua equipe, devia competir com os cabeças dos outros grupos no regateio e nos acordos que comprometeriam seu grupo a produzir e vender ao Estado parte de seu “excedente” pelo baixo preço fixado. Assim, o líder do grupo era o máximo intermediário no sistema de aquisição de grão, mediando entre seus inferiores, os membros de sua equipe, e seus superiores da brigada e os quadros. Tal função era tão antiga como a história da China, e constituía o nó da política rural e das relações interpessoais na aldeia. Era natural então que o líder do grupo se visse envolvido em relações de clientelismo com outros indivíduos tanto acima como abaixo de seu nível. Ali é que surgem suas conexões (guangxi); ali é onde inevitavelmente aparece e freqüentemente floresce a corrupção”.

46 “A dragon out of puff”, The Economist survey, 15/06/2002.

47 “China is not a market economy”, 7/06/2004.

48 Como mostra disso ele fornece um exemplo recente. Na manhã de 26 de abril, o Politburo teve uma reunião em que decidiu que os investimentos estavam saindo um pouco de controle e que certos passos públicos deveriam ser tomados para esfriar a economia. Ao final do dia uma planta de 1,8 bilhões de dólares em construção na província de Jiangsu foi obrigada a parar, o empre-sário foi preso, e o governo e os bancos locais que apoiaram o projeto foram postos sob inves-tigação. O caso do magnata russo Khodorosky, que foi encarcerado e teve a firma Yukos-Sibnef alienada, a quinta maior petroleira do mundo antes de sua divisão, é o exemplo mais ressonante do mesmo processo na Rússia.

49 “Behind the Mask”, The Economist, 18/03/2004.

50 A economia mundial cresceu 3.2% em 2003. Se se toma como referência a denominada pari-dade de poder de compra, a China aportou algo mais de um terço a essa expansão 1,1%.

51 “Feeding China’s Giant Appetite”, Far Estern Economic Review, 3/6/2004. Uma indicação da magnitude da ampliação da produção é dada pelas seguintes cifras de uma destas empresas (BHP) citada pela mesma revista: “De 60 milhões de toneladas em 2000, a BHP espera extrair 100 milhões de toneladas de minério de ferro de Pilbara este ano. Isso é só o começo. Atualmente a companhia está levando ã frente um estudo de viabilidade para expandir a produção a 145 milhões de toneladas ao ano para 1997”.

52 Desde a década de 80 há um consenso entre os principais economistas marxistas de que se produziu uma recuperação da taxa de lucro.

53 Como diz Fernando Delage: “Os efeitos sociais da reforma - as marcadas diferenças entre as cidades e o campo, ente as zonas econômicas especiais e o resto do país -... revelam como as pressões políticas que elas originam fazem cada vez menos factível a estratégia de fundar no cres-cimento a legitimidade de um regime ideologicamente acabado. Por outro lado, a insuficiente proteção jurídica dos direitos de propriedade, a falta de uma classe média e empresarial que queira reduzir a presença do Estado, a fragilidade do sistema financeiro e a situação das em-presas públicas constituem uma pesada carga para os reformistas”.( Prólogo ao livro China: a construção de um Estado moderno, de Yolanda Fernández Lommen, Los Libros de la Catarata, 2001).

54 “Tiananmen Massacre: Not Forgotten, Not Forgiven”, Far Estern Economic Review 3/06/2004.

55 “Fogo na Porta do Castelo”,Wang Hui, New Left Review, grifo nosso.

56 “Urban discontent”, The Economist survey 15/06/2002.

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