FT-CI

Líbia

Entre a rebelião e a decomposição do regime

27/02/2011

Entre a rebelião e a decomposição do regime

Após as mobilizações na Tunísia e no Egito que acabaram com os governos de Ben Ali e Mubarak, os protestos se estenderam a outros países do norte da África e do Oriente Médio. O caso mais significativo é sem dúvida o da Líbia, por dois motivos fundamentais. Em primeiro lugar, por seu papel como produtor de petróleo (é o quarto produtor da África e o que tem as maiores reservas do continente) que colocou em alerta as burguesias de todo o mundo pelas conseqüências que o aumento dos preços do petróleo pode ter na crise econômica. Em segundo lugar, porque ã diferença de Tunísia e Egito, onde o Exército permaneceu como garantidor da estabilidade, preservando-se e cumprindo papel na transição, na Líbia as Forças Armadas aparecem divididas, posto que setores inteiros desertassem para unir-se ã rebelião ou se negaram a reprimir os protestos.

A fagulha que incendiou os protestos se estendeu rapidamente. Em 16/2, milhares de pessoas se reuniram para exigir a liberdade do advogado defensor de presos políticos Fethi Tarbel, fato que culminou em enfrentamentos com as forças de segurança. Em 17/2, inspirando-se no Egito se convocou o “Dia da Ira” contra o opressivo regime do ditador Muammar Kadafi, no poder desde 1969. A partir desse momento o governo reprimiu duramente os protestos, provocando centenas de mortos na parte leste do país, onde se concentraram os protestos.

Benghasi e Al Bayda, a segunda e terceira cidades em importância depois da capital, Trípoli, estão situadas na empobrecida região oriental, de longa tradição opositora ao regime de Kadafi. Em Benghasi, a princípios do ano, haviam ocorrido revoltas espontâneas por demandas de habitação social.

A 18/2, nesta cidade, onde vive um sexto da população líbia (nação habitada por 6 milhões de pessoas), os manifestantes ocuparam a rádio estatal, desde onde começaram a transmitir para contrapor o silêncio da mídia oficial, e rapidamente tomaram o controle da cidade com a ajuda da polícia local, que se uniu rapidamente aos protestos.

A 19/2, o hospital de Benghasi já informava 200 mortes e quase 1000 feridos, e se denunciava a presença de mercenários que atacavam os manifestantes desde veículos sem patente. A população começou a armar-se como pôde para se defender dos ataques do governo e dos mercenários. No mesmo dia 19/2 marcharam em Trípoli pela primeira vez os opositores de Kadafi, cidade onde até esse momento só se haviam mobilizado os seus seguidores.

O processo insurrecional no leste e a divisão nas Forças Armadas

No domingo, 20/2, um dos filhos de Kadafi, Seif-al-Islam, anunciou que a resposta do regime seria esmagar os protestos “a sangue e fogo”, tratou os opositores de “terroristas”, e em uma mensagem que parecia bem mais destinada aos países imperialistas, disse que o petróleo “ficaria nas mãos de criminosos”. A brutalidade da repressão dos últimos dias, que duplicou a quantidade de manifestantes assassinados levando o número a 600 (a informação varia segundo a fonte), não fez mais que mostrar a decadência e o desmembramento do governo de Kadafi, que prometeu deixar a terra arrasada antes de ir-se. Esta resposta brutal tentou, infrutiferamente, frear a dinâmica do processo revolucionário aberto na Líbia a partir de que um processo insurrecional nas duas principais cidades do leste do país conseguiu dividir o Exército, que por sua vez passou ã oposição, deixando Benghasi e Al Bayda fora do controle do governo de Trípoli. Nestas cidades o trânsito é dirigido por voluntários, em sua maioria jovens, a população se cuida e se defende por conta própria e organiza a alimentação coletiva. Situações similares se viveram em outras cidades do oriente como Tobruk que, segundo a agência Reuters, “celebrava sua liberação com tiros de metralhadora e manifestações em júbilo nas ruas, enquanto um grupo de manifestantes derrubava o monumento do ditador, e outros rasgavam seus retratos”. (El Pais, 23/2).

As deserções militares se seguiram a renúncia de diversos embaixadores (dos EUA, Índia, China, Grã-Bretanha, Indonésia e da Liga Árabe) ademais de altos funcionários como os ministros da Justiça e do Interior, que pediram o fim da brutal repressão.

O Exército, que se encontra historicamente cruzado por divisões tribais, reagiu frente ao levante popular e ã ordem de Kadafi de bombardear os opositores cedendo ás mobilizações (como em Benghasi) ou negando-se a reprimir (como os pilotos da Força Aérea que desviaram seus aviões para o aeroporto de Malta, onde se encontram refugiados), enquanto que outro setor, leal a Kadafi, está levando a cabo um verdadeiro massacre (alguns meios já falam de milhares de mortos).

Estas divisões se somam ás que vinham desenvolvendo-se no interior do regime de Kadafi ao redor de uma sucessão “dinástica”, atravessada pela luta dos dois filhos de Kadafi, Seif al-Islam e Motassem: o primeiro, aliado de Shokri Ghanem (presidente da Corporação Nacional de Petróleo), e impulsionador de reformas de abertura tanto econômicas quanto políticas (ainda que limitadas); o segundo, aliado ã velha guarda do Exército e ã frente do Conselho Supremo de Assuntos Energéticos, é partidário de manter a política de linha dura do regime.

Perspectivas da crise do regime

O rápido desenvolvimento dos acontecimentos parece ter deixado esta luta pela “sucessão” em segundo plano, em meio ã acelerada decomposição do regime. Com este derrubando-se, as crises e divisões se potencializaram, abrindo um cenário onde parece mais improvável qualquer saída “institucional”. Inclusive não se pode descartar que, pela importante produção petroleira e por temor ã radicalização e expansão do processo, os funcionários que saem comecem a pedir (e alguns já pedem) sanções diplomáticas e a intervenção da ONU e outros organismos internacionais. Obama e sua secretária de Estado, Hillary Clinton, disseram que é necessário “parar o banho de sangue” e que a “paz” deve voltar ã Líbia. Na boca dos imperialistas isso não é mais que uma justificação preventiva para uma possível intervenção, que não representará nenhuma saída para as trabalhadoras e trabalhadores e para o povo líbio, senão que aprofundará a submissão e a opressão no país. Nada progressivo virá de uma intervenção do imperialismo.

Ante tal cenário, começam a ouvir-se rumores de golpe de setores do Exército que buscariam derrocar Kadafi e formar um Conselho com figuras públicas e militares para dirigir o país. Não obstante, o Exército da Líbia, ã diferença do egípcio, não conta com tanto prestígio e simpatia entre a população e mostra divisões e enfrentamentos internos sobre bases tribais. Isto incidirá nas possibilidades de jogar um papel estabilizador e torna mais complicada a busca de uma saída política.

Neste marco, a possibilidade de que, ante a intenção de Kadafi de resistir a sangue e fogo, os acontecimentos desemboquem numa insurreição operária e popular, está presente. Ainda se Kadafi finalmente cai, um novo governo poderia ser débil e sem autoridade, com o que se prolongaria uma situação muito instável, e não seria de descartar uma “balcanização” das três zonas tribais que deram sustentação a um estado unificado, e inclusive, não seria o caso de descartar uma guerra civil.

Entretanto, e enquanto os acontecimentos na Líbia continuam desenvolvendo-se, parecem mostrar que a crise econômica internacional, com suas sequelas para as massas operárias e populares, começou a encontrar uma resposta virulenta na “Primavera Árabe”, que já contou com a queda de dois governos, e cuja extensão parece estar radicalizando-se e tornando-se mais poderosa.

Notas relacionadas

No hay comentarios a esta nota

Jornais

  • EDITORIAL

    PTS (Argentina)

  • Actualidad Nacional

    MTS (México)

  • EDITORIAL

    LTS (Venezuela)

  • DOSSIER : Leur démocratie et la nôtre

    CCR NPA (Francia)

  • ContraCorriente Nro42 Suplemento Especial

    Clase contra Clase (Estado Español)

  • Movimento Operário

    MRT (Brasil)

  • LOR-CI (Bolivia) Bolivia Liga Obrera Revolucionaria - Cuarta Internacional Palabra Obrera Abril-Mayo Año 2014 

Ante la entrega de nuestros sindicatos al gobierno

1° de Mayo

Reagrupar y defender la independencia política de los trabajadores Abril-Mayo de 2014 Por derecha y por izquierda

La proimperialista Ley Minera del MAS en la picota

    LOR-CI (Bolivia)

  • PTR (Chile) chile Partido de Trabajadores Revolucionarios Clase contra Clase 

En las recientes elecciones presidenciales, Bachelet alcanzó el 47% de los votos, y Matthei el 25%: deberán pasar a segunda vuelta. La participación electoral fue de solo el 50%. La votación de Bachelet, representa apenas el 22% del total de votantes. 

¿Pero se podrá avanzar en las reformas (cosméticas) anunciadas en su programa? Y en caso de poder hacerlo, ¿serán tales como se esperan en “la calle”? Editorial El Gobierno, el Parlamento y la calle

    PTR (Chile)

  • RIO (Alemania) RIO (Alemania) Revolutionäre Internationalistische Organisation Klasse gegen Klasse 

Nieder mit der EU des Kapitals!

Die Europäische Union präsentiert sich als Vereinigung Europas. Doch diese imperialistische Allianz hilft dem deutschen Kapital, andere Teile Europas und der Welt zu unterwerfen. MarxistInnen kämpfen für die Vereinigten Sozialistischen Staaten von Europa! 

Widerstand im Spanischen Staat 

Am 15. Mai 2011 begannen Jugendliche im Spanischen Staat, öffentliche Plätze zu besetzen. Drei Jahre später, am 22. März 2014, demonstrierten Hunderttausende in Madrid. Was hat sich in diesen drei Jahren verändert? Editorial Nieder mit der EU des Kapitals!

    RIO (Alemania)

  • Liga de la Revolución Socialista (LRS - Costa Rica) Costa Rica LRS En Clave Revolucionaria Noviembre Año 2013 N° 25 

Los cuatro años de gobierno de Laura Chinchilla han estado marcados por la retórica “nacionalista” en relación a Nicaragua: en la primera parte de su mandato prácticamente todo su “plan de gobierno” se centró en la “defensa” de la llamada Isla Calero, para posteriormente, en la etapa final de su administración, centrar su discurso en la “defensa” del conjunto de la provincia de Guanacaste que reclama el gobierno de Daniel Ortega como propia. Solo los abundantes escándalos de corrupción, relacionados con la Autopista San José-Caldera, los casos de ministros que no pagaban impuestos, así como el robo a mansalva durante los trabajos de construcción de la Trocha Fronteriza 1856 le pusieron límite a la retórica del equipo de gobierno, que claramente apostó a rivalizar con el vecino país del norte para encubrir sus negocios al amparo del Estado. martes, 19 de noviembre de 2013 Chovinismo y militarismo en Costa Rica bajo el paraguas del conflicto fronterizo con Nicaragua

    Liga de la Revolución Socialista (LRS - Costa Rica)

  • Grupo de la FT-CI (Uruguay) Uruguay Grupo de la FT-CI Estrategia Revolucionaria 

El año que termina estuvo signado por la mayor conflictividad laboral en más de 15 años. Si bien finalmente la mayoría de los grupos en la negociación salarial parecen llegar a un acuerdo (aún falta cerrar metalúrgicos y otros menos importantes), los mismos son un buen final para el gobierno, ya que, gracias a sus maniobras (y las de la burocracia sindical) pudieron encausar la discusión dentro de los marcos del tope salarial estipulado por el Poder Ejecutivo, utilizando la movilización controlada en los marcos salariales como factor de presión ante las patronales más duras que pujaban por el “0%” de aumento. Entre la lucha de clases, la represión, y las discusiones de los de arriba Construyamos una alternativa revolucionaria para los trabajadores y la juventud

    Grupo de la FT-CI (Uruguay)