FT-CI

Queda de mursi no Egipto

Egito: O exército busca apoderar-se da mobilização popular

04/07/2013

Uma imponente mobilização de massas selou o destino do presidente egípcio Mohammed Mursi, derrubado em 3 de julho por um “golpe branco” do exército que contou com o apoio de todo o amplo setor opositor ao governo da Irmandade Muçulmana. O titular da Corte Suprema assumirá o governo transitório. Ao não poder derrotá-lo com métodos contrarrevolucionários abertos, pela correlação de forças existente, o exército optou por cavalgar o processo para conduzi-lo a uma transição controlada e evitar sua radicalização.

As mobilizações populares começaram em 30 de junho, quando uma multidão estimada em vários milhões – composta por jovens, trabalhadores, pobres urbanos e setores populares, laicos e religiosos – tomou de assalto as ruas exigindo a renúncia de Mursi. Essa onda abarcou desde o Cairo e Alexandria, até pequenas cidades e aldeias, passando pelo centro industrial de Mahalla onde se concentra grande parte da vanguarda operária.

A convocatória partiu do movimento “Rebelde” (Tamarud), um pequeno coletivo juvenil que em maio havia realizado uma campanha de assinaturas pela destituição de Mursi. A esse pequeno grupo se uniu a oposição burguesa da Frente de Salvação Nacional (que reúne antigos opositores ao regime de Mubarak, como El Baradei e a setores do velho regime mubarakista) e o partido islà¢mico radical al Nur.

A coalizão “30 de junho” formada por essas organizações, assumiu a direção do processo com o objetivo de evitar que a mobilização avançasse de questionar ao governo de Mursi a enfrentar o conjunto do regime, em particular o exército que segue sendo o verdadeiro poder atrás do trono. Por isso, apesar de sua heterogeneidade todos coincidiram em negociar com as forças armadas a formação de um “governo tecnocrático” de transição que substitua o de Mursi e convoque novas eleições presidenciais.

Para além de que essas organizações conseguiram canalizar a mobilização, ajudados pelo fato de que o exército decidiu não reprimir e se preservar para seguir atuando como artífice da ordem política que emerja, os protestos mostram que após o fracasso da primeira tentativa de desvio, continua se desenvolvendo o processo revolucionário, aberto com a queda da ditadura de Mubarak a princípios de 2011, motorizados por profundas demandas econômicas e democráticas.

O fracasso do primeiro desvio

Após a queda de Mubarak, as forças armadas, as classes dominantes locais e o imperialismo puseram em marcha uma “transição democrática” para desviar o processo revolucionário. Apesar das mobilizações continuarem, conseguiram, mesmo que não sem contradições, impor uma nova constituição e realizar eleições presidenciais, que no segundo turno e por uma pequena margem, foi ganha pelo Partido da Justiça e Liberdade, o braço político da principal organização islà¢mica burguesa, a Irmandade Muçulmana.

Porém, bastou um ano no poder para que ficasse exposto ante amplos setores de massas o caráter reacionário, neoliberal e pró-imperialista da Irmandade Muçulmana a serviço dos interesses dos empresários locais, do imperialismo e das monarquias do Golfo. As concessões democráticas, inclusive formais, foram mínimas. O aparato estatal da ditadura de Mubarak se manteve intacto, o exército conservou o papel de árbitro e de controlador de cerca de 40% da economia, o país seguiu subordinado aos Estados Unidos e manteve seus compromissos com o Estado de Israel. A isso se soma que a nova constituição dá mais poder aos setores islà¢micos e ameaça o caráter laico do Estado. No marco da crise capitalista e da decadência da economia egípcia dependente das importações, as condições de vida das amplas massas seguiram se deteriorando. O desemprego passou de 9% em 2010 a 13%. Ao menos 25% da população vive na pobreza. A política de Mursi foi aceitar as receitas de ajuste do FMI para obter financiamento, como o fim dos subsídios aos combustíveis e bens de consumo básicos.

Por isso, desde sua eleição, Mursi enfrentou uma onda de greves sem precedentes, que em setores da vanguarda excederam as demandas salariais, para defender um programa de nacionalização, como fizeram os trabalhadores têxteis de Mahalla. Só no primeiro trimestre de 2013, Mursi enfrentou 2400 protestos operários e populares.

Perspectivas

Apesar de sua impactante massividade, um dos limites das mobilizações atuais foi seu caráter fundamentalmente popular. A classe operária, que teve um papel fundamental em 2011 precipitando a queda de Mubarak, além de ser um ator de peso nas lutas de resistência que colocaram em questão as políticas de desvio, nestas mobilizações interveio não como classe com seus métodos e organizações, senão diluída nas amplas massas. Do ponto de vista do programa político, seu eixo foi a luta contra o governo de Mursi, e não contra o conjunto das instituições do regime e do Estado e contra o imperialismo, o que facilitou a política da coalizão “30 de junho” de apresentar o exército como “amigo do povo” e gerar confiança e expectativas em uma saída implementada pelas forças armadas. Até agora a política parece ser estabelecer um governo mais liberal e laico, que conte com o apoio dos Estados Unidos, que consiga ocultar que o verdadeiro poder que segue sendo as forças armadas.

Porém, a saída não parece simples para essa tentativa de um segundo “desvio”. Os trabalhadores, os jovens e as massas populares egípcias vêm de uma experiência extraordinária de dois anos e meio de lutas, no marco dos processos da primavera árabe. O islamismo político moderado, fundamentalmente a Irmandade Muçulmana, que é a principal força político-religiosa que contava com o apoio de massas, além do exército, está numa crise profunda. Porém, está por ver-se se será integrada ou não ao novo governo que surja. Se pelo contrário, essa fica ã margem da nova “transição” não se pode descartar que setores da própria Irmandade ou grupos islà¢micos mais radicalizados passem a uma oposição ao novo regime recorrendo inclusive a métodos terroristas que empregaram no passado.

Num primeiro momento as massas celebraram a queda de Mursi e a saída colocada pelas forças armadas como um triunfo. Porém, mais cedo que tarde suas expectativas se chocarão com essa saída reacionária. Para evitar que a mobilização de massas seja usada como base da manobra do exército e da oposição patronal, é necessário em primeiro lugar não confiar em nenhum nível no novo governo, nem nas forças armadas. Contra a tentativa de aprovar uma constituição sob a tutela do exército e do imperialismo, há que impor uma Constituinte Livre e Soberana. Mas para que a classe operária e a juventude explorada e oprimida imponham suas reivindicações, têm que desenvolver seus próprios organismos de autodeterminação e levantar um programa transicional que una as reivindicações democráticas, sociais, e anti-imperialistas e abra caminho a lutar pelo poder operário e popular.

Notas relacionadas

No hay comentarios a esta nota

Jornais

  • EDITORIAL

    PTS (Argentina)

  • Actualidad Nacional

    MTS (México)

  • EDITORIAL

    LTS (Venezuela)

  • DOSSIER : Leur démocratie et la nôtre

    CCR NPA (Francia)

  • ContraCorriente Nro42 Suplemento Especial

    Clase contra Clase (Estado Español)

  • Movimento Operário

    MRT (Brasil)

  • LOR-CI (Bolivia) Bolivia Liga Obrera Revolucionaria - Cuarta Internacional Palabra Obrera Abril-Mayo Año 2014 

Ante la entrega de nuestros sindicatos al gobierno

1° de Mayo

Reagrupar y defender la independencia política de los trabajadores Abril-Mayo de 2014 Por derecha y por izquierda

La proimperialista Ley Minera del MAS en la picota

    LOR-CI (Bolivia)

  • PTR (Chile) chile Partido de Trabajadores Revolucionarios Clase contra Clase 

En las recientes elecciones presidenciales, Bachelet alcanzó el 47% de los votos, y Matthei el 25%: deberán pasar a segunda vuelta. La participación electoral fue de solo el 50%. La votación de Bachelet, representa apenas el 22% del total de votantes. 

¿Pero se podrá avanzar en las reformas (cosméticas) anunciadas en su programa? Y en caso de poder hacerlo, ¿serán tales como se esperan en “la calle”? Editorial El Gobierno, el Parlamento y la calle

    PTR (Chile)

  • RIO (Alemania) RIO (Alemania) Revolutionäre Internationalistische Organisation Klasse gegen Klasse 

Nieder mit der EU des Kapitals!

Die Europäische Union präsentiert sich als Vereinigung Europas. Doch diese imperialistische Allianz hilft dem deutschen Kapital, andere Teile Europas und der Welt zu unterwerfen. MarxistInnen kämpfen für die Vereinigten Sozialistischen Staaten von Europa! 

Widerstand im Spanischen Staat 

Am 15. Mai 2011 begannen Jugendliche im Spanischen Staat, öffentliche Plätze zu besetzen. Drei Jahre später, am 22. März 2014, demonstrierten Hunderttausende in Madrid. Was hat sich in diesen drei Jahren verändert? Editorial Nieder mit der EU des Kapitals!

    RIO (Alemania)

  • Liga de la Revolución Socialista (LRS - Costa Rica) Costa Rica LRS En Clave Revolucionaria Noviembre Año 2013 N° 25 

Los cuatro años de gobierno de Laura Chinchilla han estado marcados por la retórica “nacionalista” en relación a Nicaragua: en la primera parte de su mandato prácticamente todo su “plan de gobierno” se centró en la “defensa” de la llamada Isla Calero, para posteriormente, en la etapa final de su administración, centrar su discurso en la “defensa” del conjunto de la provincia de Guanacaste que reclama el gobierno de Daniel Ortega como propia. Solo los abundantes escándalos de corrupción, relacionados con la Autopista San José-Caldera, los casos de ministros que no pagaban impuestos, así como el robo a mansalva durante los trabajos de construcción de la Trocha Fronteriza 1856 le pusieron límite a la retórica del equipo de gobierno, que claramente apostó a rivalizar con el vecino país del norte para encubrir sus negocios al amparo del Estado. martes, 19 de noviembre de 2013 Chovinismo y militarismo en Costa Rica bajo el paraguas del conflicto fronterizo con Nicaragua

    Liga de la Revolución Socialista (LRS - Costa Rica)

  • Grupo de la FT-CI (Uruguay) Uruguay Grupo de la FT-CI Estrategia Revolucionaria 

El año que termina estuvo signado por la mayor conflictividad laboral en más de 15 años. Si bien finalmente la mayoría de los grupos en la negociación salarial parecen llegar a un acuerdo (aún falta cerrar metalúrgicos y otros menos importantes), los mismos son un buen final para el gobierno, ya que, gracias a sus maniobras (y las de la burocracia sindical) pudieron encausar la discusión dentro de los marcos del tope salarial estipulado por el Poder Ejecutivo, utilizando la movilización controlada en los marcos salariales como factor de presión ante las patronales más duras que pujaban por el “0%” de aumento. Entre la lucha de clases, la represión, y las discusiones de los de arriba Construyamos una alternativa revolucionaria para los trabajadores y la juventud

    Grupo de la FT-CI (Uruguay)