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Crise financiera internacional

Acelera-se a crise econômica nos Estados Unidos e na Europa

21/08/2008

Há algumas semanas declararam-se insolventes as duas maiores agências hipotecárias norte-americanos, Fanny Mae e Freddy Mac, mostrando que a crise financeira nos Estados Unidos já não afeta apenas o setor “subprime” mas chegou ao coração dos empréstimos nos hipotecários. Essas duas firmas foram resgatadas pela Reserva Federal e o Tesouro norte-americano, plano que contou com a aprovação do Congresso. Esse resgate implicou num gasto milionário para o Estado norte-americano. Na mesma semana, IndyMac Bank, uma importante hipotecária com base na Califórnia, passou a ser controlada pelas autoridades federais. Sua derrocada é uma mostra da profundidade da crise imobiliária e financeira. A economia, como mostraram as últimas correções do PIB, teve um crescimento negativo no último trimestre de 2007, e se recuperou no segundo trimestre desse ano graças ao pacote de estímulo que sustentou de alguma forma o consumo dos lares.

É provável que a economia siga sua espiral descendente como mostram o crescimento do desemprego, a queda da renda dos trabalhadores frente à diminuição das horas extras, o aumento dos trabalhos “part time” e, fundamentalmente, as quedas brutais dos lucros das empresas como é o caso da Ford e da General Motors.

A crise tem se propagado com força na Europa, começando pelo Estado Espanhol, onde a cessação de pagamentos da imobiliária Martinsa-Fadesa foi a maior na história desse país. O preço dos terrenos desaba a medida que se detém a construção de novas casas. Há bancos no topo como a Caja Madrid e o Banco Popular com uma forte exposição à sorte das construtoras e das cédulas hipotecárias. Enquanto isso, o desemprego está crescendo, e já alcançou 10,44%, transformando- se no mais alto de toda a Europa, o que implica que quase 700.000 pessoas ficam mensalmente sem trabalho. A economia européia está se desacelerando de forma perigosa sob os efeitos da alta do petróleo e o euro forte, e corre o risco de estancar-se e inclusive cair em uma recessão, em uma conjuntura de inflação recorde, segundo os últimos indicadores e a opinião de especialistas. Se esse cenário se concretizasse, seria a primeira vez que se registraria recessão na zona euro desde sua criação em 1999. No melhor dos casos, prevê-se um crescimento mínimo de 0,1% do PIB no segundo e terceiro trimestre, muitos abaixo dos 0,8% nos três primeiros meses do ano. O que está claro é que a recessão já começou no setor industrial, uma tendência que dificilmente se reverterá, a menos que comece um retrocesso significativo dos preços do petróleo.

Em outros países como Nova Zelândia e Austrália e Japão também se começou a sentir com distinta intensidade os efeitos da crise. Em síntese, ainda que ainda não estamos diante de uma recessão global, os últimos dados da economia internacional, sobretudo dos países centrais, indicam que sua probabilidade é crescente. Nesse marco, a idéia de que os países do chamado BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) especialmente China e Índia, e outros “mercados emergentes” podem se descolar facilmente parece cada vez mais falsa. Os laços comerciais e financeiros, os preços das commodites, a seca de créditos, as bruscas reversões do fluxo de capitais, os efeitos monetários e a queda da confiança dos negócios, vão implicar uma forte desaceleração nesses países que, por ora, estão sustentando a demanda da economia mundial.

No caso da china, a pressão da escassez de crédito, da debilidade do dólar e dos aumentos dos custos salariais já está provocando o fechamento de fábricas nos corações industriais do país- Guangdong e Zhejiang, ao sul de Xangai-, que criaram o milagre econômico dos últimos anos. A isso se agregam os temores pelos empréstimos de baixa qualidade que poderiam comprometer aos bancos.

Os efeitos políticos e sociais da crise

O desenvolvimento da crise econômica colocará a prova as bases da estabilidade política em importantes países imperialistas. Este é o caso do Estado Espanhol, onde a crise será um teste para o regime da transição e suas duas patas, o PSOE e o PP, já tensionados no terreno da política exterior, e poderia reabrir novas disputas com as nacionalidades autônomas.

Na Itália o populismo de direita de Berlusconi e a Liga Norte com suas políticas xenófobas, não pode compreender- se sem levar em conta a forte perda de competitividade da economia do país frente aos outros sócios europeus como a Alemanha, e os prejuízos que ocasiona o euro forte, que o faz perder mercado no terreno das exportações de nível tecnológico médio (como linha branca, entre outros), onde compete cabeça a cabeça com as mercadorias asiáticas. No marco de um crescimento que se aproxima a zero, o recurso à procura de bodes expiatórios, como os trabalhadores imigrantes, é o único que pode alinhar as classes médias arruinadas atrás das políticas patronais.

Nos Estados Unidos, é provável que a crise dê lugar a uma polarização social que já está se insinuando. Setores significativos das classes médias acomodadas, que haviam se deslocado para os subúrbios fugindo da superlotação das cidades, hoje não podem sustentar esse estilo de vida. O aumento do preço dos combustíveis e da energia em geral e, fundamentalmente, a crise imobiliária e a seca creditícia, estão liquidando a proliferação irracional e pouco produtiva de grandes casas e mansões nos subúrbios dos Estado Unidos, que requerem um alto consumo de energia para sua calefação e têm excessivos custos de transportes- na ausência do transporte público para chegar aos centros de trabalhos, de negócios ou de produção.

Politicamente isso vai afetar e é um duro golpe às condições de vida das classes médias altas, a base social conservadora e reacionária do neoliberalismo e das políticas militaristas dos Estados Unidos. Por outro lado, as pesquisas de opinião mostram uma preocupação sem precedentes sobre a distribuição de renda e a mobilidade econômica. Esses sentimentos, junto aos abusivos resgates com dinheiro público do sistema financeiro, ao que ironicamente começou-se a chamar de “socialismo para os ricos e Wall Street”, anuncia uma difícil situação para o futuro presidente dos Estados Unidos, independentemente de quem seja eleito.

Uma mostra dos tempos que estão por vir: a débâcle do circuito comercial de Doha

O circuito comercial de Doha vinha mortalmente ferido desde a reunião de Cancun em 2003 quando explodiram as divergências no terreno agrícola e comercial entre os Estados Unidos e a União Européia (UE) por um lado, frente aos países semicoloniais ou dependentes, encabeçados por Índia e China e, nesse momento, Brasil. Cinco anos depois, em Genebra se realizaram suas “exéquias oficiais”, abrindo a perigosa perspectiva de uma volta ao protecionismo.

Essa vez, em meio a uma grave crise de alimentos global, a trava proveio da demanda dos Estados Unidos, que exigia a Índia abertura total em alimentos, enquanto este segue subsidiando seu poderoso setor agrícola. Mas no quadro da situação mais geral, os países semicoloniais e dependentes não quiseram sacrificar sua segurança alimentícia. Impedimentos iguais foram postos por outros países aos produtos manufaturados. Para Edmund Conway, editor de economia do The Daily Telegraph, o colapso do circuito de Doha constitui “o maior golpe à globalização desde o fim da guerra fria”. A aceitação das exigências dos Estados Unidos e da UE (aqueles que subsidiam fortemente seu setor agrícola) “instalou uma situação onde a fúria do campesinato poderia pôr em risco o equilíbrio político, e ainda a própria estrutura” da China, de acordo com o Centro Europeu De Defesa. O que está por trás dessa política da China e da Índia é o temor de uma recessão ou uma forte desaceleração da economia mundial. Como disse o informe citado, as “exportações da China representam 40% de seu produto interno bruto e acaba que os políticos em Pequim e Nova Deli temem uma desaceleração que feche as fábricas, reduza as válvulas de escape da migração às cidades, transformando o migrante rural em um integrante potencial de uma turba”.

Essas perspectivas podem ser desastrosas para a economia mundial capitalista e para o equilíbrio geopolítico que governa a chamada “globalização”. Como coloca um analista do Financial Times: “Nas últimas décadas a abertura dos mercados e a crescente interdependência econômica tem sido uma força de estabilidade geopolítica assim como de crescente bem-estar econômico para os mais pobres do mundo. Nós aprendemos no começo do século XX que a globalização não oferece nenhuma garantia contra a guerra. Mas a dependência econômica mútua provê um poderoso incentivo para resolver as diferenças políticas. As presentes tensões da economia mundial, notavelmente o desequilíbrio entre a oferta e a demanda de matérias-primas e o crescente clamor protecionista ameaça este progresso” (“Blindfolds that wrecked a deal to boost global trade”, Philip Stephens, Financial Times, 31/7/2008). os antecedentes das negociações sobre a mudança climática, a não proliferação nuclear, a segurança energética e o recente fracasso da agenda de Doha, entre outros, parecem confirmar esses temores.

Perspectivas: Em direção a uma ruptura do equilíbrio capitalista?

As perspectivas da crise econômica, que ainda está começando, continuam sendo incertas. Uma hipótese é que se instale uma situação de crise mais prolongada e profunda que as anteriores nos Estados Unidos (isso é, as crises de 1990-91 e de 2000-01) e que se prolongue a recessão ou as taxas muito baixas de crescimento econômico nos próximos anos. A outra hipótese é que a crise atual tome dimensões catastróficas, ou seja, que termine sendo uma crise similar à quebra da economia de 1929 e a Grande Depressão, que leve a uma profunda desarticulação do equilíbrio do sistema capitalista mundial, ou seja, a uma situação similar às que antecederam a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. Ainda que não possamos afirmar que esta será a dinâmica, os elementos que já se manifestaram mostram o caráter agudo da crise financeira, que constitui a mais importante desde a Segunda Guerra Mundial.

Alguns especialistas já sugerem que ao menos uns 8% dos bancos norte-americanos estão com grandes problemas. Isso significa nada menos que 700 dos 8.5000 bancos assegurados pela Corporação Federal de Seguros dos Depósitos Bancários (FDIC, a sigla em inglês). Outros 8 a 16% estão em situação delicada, a metade dos quais poderia enfrentar a quebra.

O resgate com fundos públicos de grandes bancos ou entidades financeiras poderia por sua vez desencadear uma crise de financiamento nos Estados Unidos, já que os bônus do tesouro norte-americano, considerados como a inversão mais segura, poderiam ver cair em sua qualificação. O resgate da crise financeira poderia ter um alto preço e repercutir nas relações entre as potências imperialistas e os Estados. Os próximos acontecimentos econômicos e financeiros, novas quebras bancárias e/ou corporativas, a política dura do Banco Central Europeu frente aos tremores da crise mundial e, fundamentalmente, o fato de que os Estados Unidos possa começar ou não se estabilizar antes de que a economia asiática se desacelere, poderiam inclinar a balança para um lado ou outro.

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