FT-CI

GREVE DO METRÔ DE SÃO PAULO

A verdade sobre uma direção que não esteve ã altura da heróica greve dos metroviários

15/07/2014

A verdade sobre uma direção que não esteve ã altura da heróica greve dos metroviários

Por Felipe Guarnieri, delegado sindical da estação Santa Cruz, e Marília Rocha

Num artigo intitulado “A verdade sobre a heróica greve dos metroviários de São Paulo” o presidente do Sindicato dos Metroviários e militante do PSTU/LIT, Altino, polemiza com o que diz ser as posições da LER-QI sobre a greve. Diz que somos um “pequeno grupo na categoria”, mas “respondeu” nosso balanço porque somos dezenas junto a independentes no Metroviários pela Base (MPB) e influenciamos outras centenas, que apesar da derrota estão tirando conclusões pela esquerda da greve, construindo uma alternativa combativa e classista. No site da LIT o texto está na capa. O PSTU quer encobrir para a esquerda internacional sua incapacidade de dirigir a greve dos metroviários para transformá-la numa “batalha de classe”. Mas no site do PSTU não se encontra. Os metroviários do PSTU nem difundem esse artigo. Sabem que essas posições, que parecem terem sido escritas por alguém de fora da categoria, são indefensáveis na base (e para quem acompanhou a greve) e só aumentaria o rechaço ao balanço “vitorioso” do PSTU e as acusações morais que nos faz. O PSTU é a organização do movimento trotskista internacional que bateu todos os recordes em acusar as outras de “problemas morais”, “calúnias” e “mentiras” para esconder a falta de argumentos. Por compreender o que diz Trotsky de que “O centrismo se utiliza do moralismo patético para ocultar sua nulidade ideológica; não compreende que a moral revolucionária se forja unicamente em base a uma doutrina e e a uma política revolucionária ”, não vamos insistir na tentativa de convencer o PSTU a mudar esse método impotente que já faz parte de seu DNA. Não vamos retomar aqui nosso balanço que chamamos a conhecer, apenas responder as colocações infelizes de Altino/PSTU.

Uma concepção burocrática de unidade das lutas

Altino afirma que buscaram unificar as lutas porque a CSP-Conlutas realizou o Encontro “Na Copa vai ter Luta”. Nos critica por uma suposta “calúnia” de que defendiam a greve dia 10/6, mas não diz que o argumento contra a nossa proposta de fazer a greve junto com os rodoviários de SP e quando os ferroviários ainda estavam em campanha, era de chegar o mais próximo possível da Copa, porque “Na Copa vai ter luta” (um movimento com objetivos eleitoreiros). Toma o fato de que foram obrigados pela base (junto ã maioria da diretoria) a adiantar a greve para o dia 5/4 em uma comprovação da suposta “calúnia”. Falam que participaram de várias greves, como se isso em si mesmo fosse unificar. Essa é a concepção: unificação por cima, de aparatos, de moções, notas e dirigentes de categorias que vão ás assembleias “prestar solidariedade”. Os sindicatos que o PSTU dirige não conseguiram dar um apoio distinto da burocracia da UGT (que tinha acabado de trair os rodoviários de SP), CUT, Força Sindical, CTB, entre outras, que vinham na nossa assembleia “apoiar” e Altino alimentou ilusão de que iam fazer uma “greve geral” em nossa defesa. Nenhuma unificação real, nenhuma ação que envolva ao menos trabalhadores de vanguarda a partir das bases. O PSTU não consegue explicar porque a única categoria da CSP-Conlutas que teve iniciativas de base foram os trabalhadores da USP, através de Sintusp, onde a LER-QI atua como ala minoritária. Ali demos um exemplo do que é para nós unificação das lutas. Pior é o fato que sequer a Juventude do PSTU foi nos vários atos de rua que organizamos a partir da Juventude ás Ruas e do Pão e Rosas.

A farsa da “democracia operária” do PSTU

Basta ver os vídeos das assembléias para comprovar que era somente Altino e mais 2 ou 3 diretores que falavam. Nenhum trabalhador de base. Tentam colocar a culpa na base pela restrição das falas, mas não diz que quando era conveniente, a diretoria defendia mais falas e a base concordava. Além da cúpula do sindicato, somente davam palavra para a CTB, que foi ressuscitada pela direção do sindicato em meio ã greve. Ao MPB, somente quando tivemos posição divergente, que foi justamente a proposta do piquete de Ana Rosa para barrar o plano de contingência, ou no dia 11/06 quando defendemos a greve dia 12/6 contra o setor majoritário da diretoria do sindicato (incluindo PSTU). Se nossa votação tivesse sido 2%, como diz Altino, e não cerca de 20% como dissemos, Altino não precisava escrever tantos caracteres em resposta. E não foi mais devido ã que a direção já mostrava que entregaria a greve e que o “não tem arrego” era mero discurso. Sim, Altino era sempre o centro de toda a assembleia com falas longuíssimas. A exceção foi na assembleia decisiva de segunda 9/6, quando seria mais necessário firmeza da diretoria na defesa da greve se realmente queriam seguir, e o PSTU colocou uma figura nova e desconhecida na categoria (Camila Lisoboa) para fazer a defesa.

Dividiu tarefas com a outra ala da diretoria que defendeu o fim da greve de maneira camuflada (a “suspensão”) junto com a CTB. Dizer que o Conselho Consultivo (que reúne diretores do sindicato, cipistas, delegados sindicais e outros ativistas) cumpria um papel de democratizar as discussões é uma piada. As reuniões do Conselho eram formais e esvaziadas, com o objetivo de fazer passar as propostas da diretoria e levar pra assembleia, ou como máximo saber as divergências que se tinha para tentar fazer acordos por fora da assembleia. Nada parecido com a nossa concepção de democracia operária, que se expressa no comando de greve dos trabalhadores da USP com representantes mandatados pelas assembleias em cada unidade e revogáveis, ao qual o Sintusp se subordina.

Que Altino/PSTU opinem que a greve foi um “exemplo de democracia operária” é só mais uma prova de sua concepção burocrática. Chegam a falar de um “comando de greve” que nunca existiu. Uma mentira deslavada, assim como o embelezamento do Conselho Consultivo, para esconder o burocratismo no sindicato que dirigem. Os desafiamos a dizer quando se reuniu esse comando e quais forma os delegados presentes. Não houve comando porque os trabalhadores nunca foram estimulados pela maioria da diretoria a se colocarem como sujeitos ativos na greve para além de vir ã assembleia, rotina que era rompida espontaneamente somente pelos que vinham para os piquetes.

Nenhuma batalha para massificar e radicalizar os piquetes

Há anos que os piquetes são rotineiros e somente nos pátios. Na penúltima greve (2012), chegavam os fura-greve dizendo que estavam dentro do “acordo”, que era feito com a antiga diretoria (PCdoB e PT), onde determinados funcionários ou chefes tinham “autorização” do sindicato para furar os piquetes. Essa “tradição” foi respeitada até o 1° dia da recente greve. O plano de contingência (que existe desde 2007) exigia radicalizar os piquetes, por isso, já na assembleia do dia 5/6, Guarnieri do MPB propôs o piquete de Ana Rosa (veja vídeo: https://www.youtube.com/watch?v=t6h...). A base aprovou e a diretoria do sindicato foi obrigada a se relocalizar, mas nunca chamou a massificar os piquetes. Qualquer piqueteiro da categoria também sabe que a linha majoritária do PSTU para os piquetes era conciliadora com a chefia, e que em Ana Rosa foi a base que impôs a radicalização do piquete junto ao MPB.

Uma “aliança” com a população que não passa de discurso

Somos reconhecidamente o setor que sempre defendeu liberação de catracas na categoria. Éramos chamados de “lunáticos” pela diretoria, pois são céticos em relação ã possibilidade dos metroviários e os usuários estabelecerem uma verdadeira aliança. De fato, com sua concepção corporativista, é impossível. Por isso, o máximo que poderíamos chegar é a tal “exigência” ao governo de que libere as catracas. Uma demagogia, pois todos sabem que o governador não aceitaria. Mas esse ano foram além, com um novo “desafio” ao governador: libere as catracas que nós trabalharemos de graça! Mesmo achando essa proposta absurda, entendemos que partia de um avanço da categoria o fato de defender a liberação de catracas e não votamos contra essa proposta na assembleia como coloca Altino, nos abstivemos e reafirmamos que a liberação de catraca não pode ser uma “exigência”, que tem que ser paga pelos capitalistas e não pelo nosso bolso. Somente levantando as demandas da população como nossa pauta, como a redução da tarifa e a estatização dos transportes sob controle dos trabalhadores e usuários, podemos estabelecer uma verdadeira aliança, o que não se constrói somente com o método de uma possível liberação de catraca, mas com outras ação, como por exemplo, atos de rua, que durante a greve o sindicato não propôs nenhum.

Teve arrego

Altino reconhece que tivemos uma derrota com as 42 demissões, mas diz que a greve tem “uma globalidade” e que frente ás conquistas econômicas e a força da mobilização da categoria e a elevação do seu nível político e da população, foi uma vitória. Como não poderia deixar de ser, é um discurso defensivo, nunca por escrito em seus materiais para a categoria, apesar que utilizaram esse definição aberta oralmente. O PSTU sempre quer ver vitórias em todas as partes do mundo, mais ainda nos sindicatos que tem peso. Chega a dizer que o Sindicato dos Metroviários sai da greve como referência de luta, como se a derrota não tivesse o efeito contrário, que deixa os garis do RJ como exemplo, e nossa greve como o oposto.

As demissões não são um detalhe que se pode dissolver na “globalidade”. Abrem espaço para que o PCdoB ganhe um setor da categoria com seu discurso de que “a greve foi muito radical”, etc. Ridiculamente, o PSTU quer comparar nosso balanço com o da burocracia do PCdoB e PT, que boicotaram a mobilização desde o início, fazem um balanço que busca desmoralizar a categoria para conseguir mais votos para as eleições do sindicato. Nosso balanço é para tirar as lições necessárias para avançar e forjar uma setor que defenda outra estratégia de luta.

Contraditoriamente, o PSTU afirma que os trabalhadores saíram moralizados, mas se coloca contrário a qualquer iniciativa de mobilização da base da categoria pela readmissão dos 42, dizendo que “a categoria está com medo”. A campanha pela readmissão que o PSTU está fazendo é totalmente superestrutural, somente pra fora da categoria, assim como era durante a greve. Não foi ã toa que no “Encontro pela redmissão dos 42” que o sindicato convocou para dia 16 de junho a maioria dos presentes (70%) eram do MPB e nossos aliadas, como o Pão e Rosas, Juventude ás Ruas, Movimento Nossa Classe, além de militantes da LER-QI. Nós, que diferentemente do sindicato, estamos passando recorrentemente na base (muito mais do que a diretoria), podemos afirmar que a base percebe como essa passividade da diretoria segue até agora, como se nossa batalha fosse jurídica e não política.

O problema é que o PSTU e Altino não querem reconhecer sua responsabilidade no resultado da greve, para não perder votos para o PSTU nas eleições de outubro e nas próximas eleições do sindicato. Nossa vitória não era garantida, mas havia correlação de forças para não sair derrotado como fomos. Felizmente a categoria não aceita esse discurso de vitória vazio e eleitoreiro “vitorioso” e busca tirar as lições para avançar.

É necessário uma estratégia para vencer e uma luta séria contra as demissões

O PSTU fracassou no seu intento de dar uma resposta, mas sequer se deu o desafio de tentar responder a nossa crítica que vai muito além da sua política durante a greve, mas de como em toda a preparação e sua militância de anos na categoria, não tem uma estratégia para vencer, que tem que passar por uma democracia operária genuína, uma política para despertar ativismo e colocar a base dos trabalhadores como sujeito, uma política não corporativa para aliar-se com a população, por uma unidade real das luta e não de aparato. Nós batalhamos para colocar essas concepções na prática como minoria no Sintusp, e como PTS na Argentina em lutas que temos um papel de direção como Zanon, Kraft, e agora Lear. O PSTU não tem nenhum exemplo desse tipo.

Não vamos retomar aqui estas lições que colocamos em nosso balanço, que contém as lições que permitem aos metroviários serem conscientes dos desafios que se colocam. Agora, é hora de colocar todas as nossas forças na campanha pela readmissão dos 42. Pois os metroviários deram sim um exemplo de disposição, lutaram heroicamente contra o governo, a empresa, a justiça e a polícia. Permitir que se consolide essa derrota das demissões seria uma derrota para toda a classe trabalhadora brasileira. Lutar bravamente e fazer todos os esforços possíveis interna e externamente ã categoria pela readmissão é a única forma de sair de cabeça erguida.

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